legislação trabalhista

Pejotização: cerca de 50 mil ações trabalhistas continuam suspensas

13,1 milhões de brasileiros trabalham como pessoa jurídica — a maioria com menos de R$ 6 mil por mês. Ainda assim o STF paralisou, há um ano, o julgamento de mais de 50 mil ações trabalhistas

EuEstudante
postado em 26/04/2026 06:00 / atualizado em 26/04/2026 06:00
Vívian Azeredo relata suas experiências como pessoa jurídica nas empresas que trabalhou -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Vívian Azeredo relata suas experiências como pessoa jurídica nas empresas que trabalhou - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Vivian Ribeiro de Melo Azeredo, 34 anos, estava numa reunião em uma agência de publicidade em Brasília quando o chefe parou tudo. Não era briefing de cliente. Era um ultimato: todos precisavam abrir um CNPJ para continuar trabalhando. Sem explicar o que era MEI. Sem dizer que perderiam férias, 13º, FGTS. “A gente não sabia nada. Eles só falaram que precisava abrir para continuar trabalhando.” No Supremo Tribunal Federal (STF), ações sobre casos como o dela estão paradas desde abril de 2025 — exatamente um ano.

Vivian continuou na mesma cadeira, com o mesmo chefe, no mesmo horário, cumprindo a mesma meta. A nota fiscal chegava todo mês. Os direitos, não. “Eles cobravam da gente como se a gente fosse CLT e pagavam como PJ. Sem nenhum benefício.” Vivian é uma entre 13,1 milhões. A maioria não está em agências de publicidade, mas em balcões de loja, centrais de telemarketing e escritórios de apoio administrativo. O roteiro, porém, se repete: o chefe chama, o CNPJ aparece, os direitos somem. 
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Vivian hoje é CLT. Quando quebrou o pé, ficou 14 dias afastada e recebeu todos os auxílios. “Se eu fosse PJ, isso não teria acontecido.” O que o Supremo decidir nos próximos meses pode mudar essa conta para outros 13 milhões — ou torná-la definitiva. 
A CONTA 
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. (foto: Pacifico)
O Brasil tem, hoje, 13,1 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), segundo o Sebrae. Recorde. Em 2025, foram abertas 3,8 milhões de registros, 22% a mais que no ano anterior. As atividades que mais crescem são “promoção de vendas” e “apoio administrativo.” Funções de escritório, não de empreendedorismo.  
A Fundação Getulio Vargas estima perdas previdenciárias entre R$ 89 bilhões e R$ 144 bilhões aos cofres públicos entre 2018 e 2023 por conta da substituição do sistema de CLT por PJs. O Ministério do Trabalho aponta que 4,8 milhões de brasileiros deixaram a CLT e migraram para o regime de pessoa jurídica entre 2022 e 2024. A evasão contributiva estimada: R$ 61,42 bilhões. Quase 50 mil ações estão paradas no país por decisão do STF. 
Do ponto de vista atuarial, o MEI contribui com R$ 81,05 por mês e tem direito a aposentadoria por um salário mínimo. Em 15 anos, paga cerca de R$ 14 mil. Em nove meses de benefício, recebeu mais do que contribuiu. O resto — potencialmente décadas — é bancado pelo sistema. O FGV Ibre estima um rombo de R$ 711 bilhões no INSS. 
Após uma enxurrada de recursos de empresas contra decisões da Justiça do Trabalho que reconheciam vínculo empregatício em contratos PJ, o ministro Gilmar Mendes suspendeu todas as ações sobre o tema em tramitação no país. Quase 50 mil processos estão parados. Ainda não há data para o julgamento pelo pelnário. Os ministros devem definir o entendimento de três pontos sobre da matéria: a competênicia para julgar essas ações; se é legal a contratação de trabalhadores autônomos ou pessoa jurídica e se cabe ao empegado ou ao empregador o ônus de prova 
Em fevereiro de 2026, a Procuradoria-Geral da República (PGR) emitiu parecer defendendo que a Constituição não obriga o uso exclusivo da CLT, permitindo formas alternativas, como a terceirização ampla e a prestação de serviços por pessoa jurídica. A PGR também sustenta que a validade desses contratos deve ser analisada pela Justiça Comum, não pela Justiça do Trabalho. 
O MEI não é só problema. Segundo o Sebrae, movimenta R$ 69,5 bilhões por ano e têm renda média de R$ 3.507. Entre 64% e 67% se dizem satisfeitos com o regime. Mas cerca de 40% não conseguem sequer pagar a contribuição mensal de R$ 81,05: são 6,2 milhões de MEIs inadimplentes. A aparente contradição com os 93% que ganham menos de R$ 6 mil tem explicação: no curto prazo, o dinheiro no bolso pesa mais do que a ausência de direitos. 
“DAVI CONTRA GOLIAS” 
Treviso, da Anamatra, defende a competência da Justiça do Trabalho
Treviso, da Anamatra, defende a competência da Justiça do Trabalho (foto: Divulgação/Anamatra)
Marco Aurélio Treviso, juiz do Trabalho e vice-presidente da Associação Nacional das Magistradas e dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), discorda “de forma veemente” do parecer da PGR. O juiz cita o artigo 114 da Constituição Federal, que estabelece que compete à Justiça do Trabalho processar e julgar os litígios decorrentes de relações de trabalho.”Se a competência for para a Justiça Comum, o mesmo processo seria julgado duas vezes. “Ninguém que está errado quer que o processo tramite de forma célere na justiça.” 
“Colocar nas costas do trabalhador o encargo de produzir a prova da fraude é praticamente uma prova diabólica. É Davi contra Golias”, mostra o juiz Treviso. Segundo nota técnica do Ministério do Trabalho apresentada em audiência pública na Câmara, mais da metade dos pejotizados recebe menos de R$ 2 mil por mês. Somados aos que ganham até R$ 6 mil, são 93% do total. E 41,7% dos MEIs no CadÚnico recebem Bolsa Família, segundo cruzamento do Sebrae com o MDS. “São trabalhadores de baixa renda”, disse Treviso. 
Há quem se beneficie do regime. Médicos, consultores, desenvolvedores escolhem ser PJ. Mas entre os 93%, a palavra “escolha” raramente descreve o que aconteceu. Treviso foi direto: “O PJ é uma empresa. Empresa não tem cor, não tem raça, não tem gênero. Uma trabalhadora PJ não tem estabilidade gestacional. Um trabalhador PJ negro não tem proteção contra o racismo.” E sobre a Previdência: “Se o Supremo reconhecer a pejotização tal como está, eu não tenho dúvida de que a Previdência Social vai quebrar. 
O OUTRO LADO DA MESA 
Alexandre Vitorino, da CNI: a CLT pode coexistir com diversos formatos de trabalho
Alexandre Vitorino, da CNI: a CLT pode coexistir com diversos formatos de trabalho (foto: Iano Andrade / CNI)
Alexandre Vitorino, diretor jurídico da Confederação Nacional da Indústria (CNI),disse que a entidade representativa do empresariado não quer o fim da CLT : “Queremos que valha apenas o que o STF já disse, que é: ‘existem várias formatações de trabalho que podem coexistir com o sistema celetista.” Ele argumenta que o trabalho autônomo sempre conviveu com o regime celetista e que novas formas de trabalho surgiram com a economia digital e com as plataformas. Ressalta que hoje, com a implementação da sociedade em informação, surgiram diversas novas formas de trabalho, como os trabalhos de plataforma que envolvem economia compartilhada. 
Vitorino fez questão de separar a indústria do debate. “Alguma indústria vai demitir operários de chão de fábrica para substituir por pejotização? Não.” Um funcionário que recebe R$ 3 mil na CLT custa à empresa cerca de R$ 5.400. Como PJ, o mesmo serviço pode custar R$ 3.500. Mas reconheceu limites: “Não ignoro que há setores em que esse debate é mais complexo. Sobretudo no setor de serviços, no comércio. 
Sobre o oportunismo de mão dupla: “A Justiça do Trabalho não se dá conta de que, ao invalidar a pejotização, faz com que o sócio ganhe nas duas contas.” Citou decisão de Alexandre de Moraes: em caso de fraude, deve haver recolhimento da diferença de tributos. “Senão, ele terá o melhor dos dois mundos, e isso não é aceitável.” Encerrou: “A diferença entre o veneno e o remédio é a dose. 
QUEM RECORRE À JUSTIÇA 
Advogada Larissa critica o parecer da PGR por esvaziar  a Justiça do Trabalho
Advogada Larissa critica o parecer da PGR por esvaziar a Justiça do Trabalho (foto: Arquivo Pessoal)
A advogada Larissa Rodrigues atende trabalhadores pejotizados em Brasília. Seu escritório costuma receber um tipo de cliente que não aparece nos relatórios: aquele que descobre tarde demais que abriu uma empresa para si mesmo. 
A proposta, diz Larissa, costuma chegar pronta. “A empresa anuncia uma vaga CLT com salário de R$ 3.500. No final, diz: ‘Se quiser PJ, pagamos R$ 4.500.’ Para muitos, é mais interessante ter mais dinheiro no bolso, mesmo sem FGTS, 13º e férias.” 
Em um caso recente, um empregado com seis anos de carteira assinada foi demitido e pressionado a abrir CNPJ para ser recontratado. Continuou no mesmo local, no mesmo horário, com o mesmo chefe. “Mas passou a emitir nota fiscal, sem qualquer proteção trabalhista.” O caso terminou em acordo homologado. 
A prova mais comum é o WhatsApp. “É a prova campeã”, diz Larissa. “Na primeira dúvida, salve os prints com data e horário, guarde os e-mails.” Sobre o parecer da PGR: “É muito ruim. Esvazia a competência de uma Justiça especializada prevista na Constituição.” 
Denise Rodrigues Pinheiro, advogada desde os anos 1980, resume: “Quando comecei, a pejotização já existia, com outra roupagem, mas tinha um nome claro na Justiça do Trabalho: fraude. De 2017 para cá, foi institucionalizada pela Reforma Trabalhista e por decisões do Supremo.” 
Se o STF validar amplamente a pejotização, o que muda? “Vai ficar muito mais difícil reconhecer vínculo. A pejotização não vai diminuir. Pelo contrário, tende a crescer”, diz Larissa. 
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá 

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