Ian Vieira*
postado em 03/05/2026 06:00 / atualizado em 03/05/2026 06:00
A professora Janete dos Santos fez ocurso de introdução à educação financeira oferecido pelo IBS - (crédito: Arquivo pessoal)
O Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (BC) revelou dados alarmantes sobre a educação financeira no Brasil. O relatório aponta que milhões de brasileiros usam o sistema financeiro, mas ainda têm dificuldade para compreender conceitos básicos como juros, inflação, diversificação de riscos e planejamento financeiro. O documento técnico detalhado está disponível no site www.bcb.gov.br/.
BRASIL NO CENÁRIO MUNDIAL
No relatório divulgado pelo Banco Central, foi analisado o desempenho do letramento financeiro dos brasileiros em relação a outros países participantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em comparação com os outros 39 países que participaram da pesquisa, o Brasil apresenta pontuação geral de 60 pontos e aparece na 21ª posição.
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Em conhecimentos financeiros, os brasileiros ficaram com 70,1 pontos, redução de 2,5 em relação à pesquisa de 2020. Por outro lado, em comportamentos financeiros a nota foi de 65,1 e o aumento foi de 12,4. Em atitudes financeiras, a pontuação foi de 53,2 pontos a mais que o último relatório.
NOÇÃO DOS BRASILEIROS
Os dados do BC apontaram que 87% dos brasileiros erraram questões de juros simples, cálculo básico na esfera financeira. A consultora financeira Adriana Lima ressaltou a importância do conhecimento e da parte comportamental contra o endividamento. “Quando você gasta mais do que recebe, não possui uma reserva e acaba se endividando, é essencial ter o conhecimento sobre juros para escolher a melhor maneira de reverter essa situação”, afirmou. “Optar por um crédito inadequado e não negociar da forma certa pode piorar a situação”
Outro dado alarmante foi o crescimento de jovens endividados.Em 2026 o número chegou a 27,6 milhões de brasileiros com idade entre 15 e 29 anos, ao todo, 17,4% estão inadimplentes. Adriana também comentou sobre a inclusão bancária por meio da tecnologia e os riscos do consumo irresponsável. “Com essa expansão de crédito, ficamos a um clique de conseguir dinheiro, mas as pessoas não possuem o conhecimento do valor alto de juros que os bancos cobram”, disse.
Nas pesquisas, jovens de todas as classes sociais lideram o índice de inadimplência. Os gráficos são divididos em grupos baseado nas idades de 15 a 29, 30 a 59 e acima de 60 anos. Além disso, são separados por quantidade de renda: até dois salários mínimos, de dois a cinco salários mínimos e acima de cinco.
INCENTIVO DA EDUCAÇÃO
Em busca da melhoria do letramento financeiro no país, o Instituto Brasil Solidário (IBS) promove um projeto de educação em parceria com escolas das redes estaduais e municipais com intuito de ensinar por meio dos jogos. A intenção é utilizar a “gamificação” como instrumento pedagógico em sala de aula, estimulando o interesse dos alunos em aplicar as práticas adquiridas nos jogos em seu planejamento financeiro pessoal. Os professores são formados para aplicar o tema dentro de sala de aula com os alunos.
Além de vídeos e apostilas, os jogos Piquenique e Bons Negócios são utilizados pelos professores do projeto como ferramenta de ensino. Piquenique consiste em um jogo de tabuleiro que traz o conceito do poupar e a reflexão sobre decisões de consumo, de forma interdisciplinar, já o Bons Negócios é um jogo de cartas que instiga a negociação e exercita as habilidades de empreender e investir.
De acordo com o presidente da IBS, Luis Eduardo Salvatore, a educação financeira é um tema transversal, principalmente em um país desigual como o Brasil. Ele afirma que a utilização das notas físicas no método de ensino é ideal para conscientizar os estudantes. “Esse fato traz a noção real da perda dentro de um ambiente controlado. Atualmente, com o sistema financeiro digital, perdemos um pouco da consciência do valor do dinheiro que é gasto e nos jogos do IBS os alunos manipulam cédulas e moedas”, disse.
O relatório revela que renda e escolaridade seguem determinantes no conhecimento financeiro dos brasileiros: quem ganha mais e estudou mais tende a administrar melhor o dinheiro, enquanto a população mais pobre enfrenta maior risco de endividamento e exclusão financeira. Salvatore também destacou que a educação financeira prévia auxilia na projeção financeira futura dos brasileiros. “Quem não cresceu com planejamento está mais suscetível a se endividar e gastar mais do que recebe. O impacto que temos passa, inclusive, por professores que aprenderam a controlar melhor os gastos supérfluos e ensinar as crianças”, afirmou.
MUDANÇA DE VIDA
A educação financeira tirou a professora Janete dos Santos, 55 anos, do endividamento. Em 2018, Ícaro dos Santos, filho dela, sofreu um acidente que o deixou com traumatismo craniano encefálico. O tratamento em outro estado, remédios e alimentação geraram despesas para a família que apenas o salário não era capaz de custear. De acordo com a docente, todos os cartões de crédito e a conta-salário foram bloqueados pelo endividamento.
A partir disso, Janete se viu obrigada a tomar uma atitude. “Em 2022, eu soube do curso de introdução à educação financeira oferecido pelo IBS, durante as aulas on-line, me identificava em muitas situações. Em 2023, comecei a colocar em prática o que aprendi e aceitei o convite para participar do grupo de educação financeira. Ali começou a virada de chave, ganhei confiança para o planejamento do meu trabalho e para minha vida pessoal”
A professora começou a registrar dívidas, ter cautela, verificar valores e estabelecer prioridades. Com o fim do planejamento e a vida financeira estabilizada, o projeto “Vamos jogar e aprender” chegou aos alunos na sala de aula com os quatro pilares essenciais da educação financeira: reconhecer, registrar, revisar e realizar. Além de aprender e se organizar financeiramente, Janete passou a ensinar também.
Os materiais do IBS também são utilizados no Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga (Cemeit), na aplicação da Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (Olitef). Para o diretor do Cemeit, Gabriel Souza, o ensino junto à aproximação com a linguagem atual torna o processo de educação mais atrativo para os estudantes. “Unir educação e jogos tornou o processo de aprendizagem mais divertido, real e, ainda, fala em uma linguagem que atinge os alunos”
Em 2024, o Cemeit foi uma das 54 escolas de todo o Brasil premiadas no valor de R$ 100 mil. Foram duas instituições de ensino por estado. O colégio optou por reverter o prêmio na construção de um laboratório de informática, devido ao engajamento e desempenho dos estudantes. Gabriel ressaltou que a escolha do investimento em tecnologia foi baseada em um olhar para o futuro. “A olimpíada fala de investimento e de futuro e os computadores vão apoiar o desenvolvimento desses estudantes para o futuro”, disse.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá