postado em 10/05/2026 06:00 / atualizado em 10/05/2026 06:00
Operação Carimbó está marcada para julho deste ano, em 18 municípios do Pará - (crédito: Reprodução / Ministério da Defesa)
O projeto Rondon é umainiciativa do Ministérioda Defesa que promoveações sociais em regiõesperiféricas do país. A iniciativa é formada por universitários e professores de todo o país.Neste ano, a Operação Carimbó,que marca a centésima ediçãodo projeto, vai ocorrer em 18municípios do Pará, de 6 e 25de julho. Ao todo, serão 368participantes de 35 instituiçõesde ensino superior diferentes números considerados acima do normal —, entre alunose professores. No DF, a Universidade de Brasília (UnB)e o Centro Universitário doPlanalto Central Apparecidodos Santos (Uniceplac) sãoas instituições participantes.A iniciativa, que conta com oapoio das três forças armadas(Marinha, Aeronáutica e Exército), estimula a cidadania e fazcom que jovens tenham contato com diferentes realidades dopaís, além de melhorar a qualidade de vida da população.
Retorno
“O Rondon fortalece a cidadania no estudante, mostrando a ele um Brasil isolado, que pouca gente conhece. Isso possibilita ao universitário aumentar o quadro de referência dele sobre o que acontece no nosso país. Ele leva o conhecimento acadêmico e traz de volta a cultura e a rotina de um povo que ele desconhecia, mas que também é brasileiro”, pontua o coronel Euclides Soljenitsin, coordenador-geral do Rondon”.
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Durante as operações, as universidades participantes são divididas em dois grupos, em que cada instituição é encarregada de apresentar soluções socioeducativas para o tema do seu respectivo grupo. Após um diagnóstico da situação social do município, os rondonistas oferecem oficinas, palestras e capacitação gratuita para a população, gestores municipais e líderes comunitários. Por meio destas atividades, os alunos promovem ações sustentáveis que diminuem desigualdades sociais. Por estarem no grupo A, a UnB e a Uniceplac vão desenvolver atividades nas áeas de cultura, de educação e de saúde. Já o conjunto B, que abarca outras universidades, vai abordar questões relacionadas ao meio ambiente, comunicação, tecnologia, produção e trabalho.
Ao Correio, Soljenitsin deu exemplo de uma atividade recorrente do Rondon em regiões rurais com problemas de saneamento. “Depois de estudarmos um município, nós identificamos que ele é carente em saneamento básico. Então, a gente apresenta uma oficina que ensina a construir uma fossa séptica ecologicamente viável. A gente leva essa tecnologia por meio de um projeto, capacitando agentes públicos, líderes comunitários e, em parceria com o governo municipal, a gente constrói a fossa. Depois, a gente faz uma supervisão com a população e, por fim, a própria comunidade pode construir a sua fossa céptica”, explica.
“O Rondon contribui para o desenvolvimento nacional, porque forma cidadãos e leva qualidade de vida para populações onde políticas públicas têm dificuldade para chegar. Quando o estudante vai para esses municípios desconhecidos, ele tem a oportunidade de fazer uma troca de saberes e se transforma em um profissional mais humano”, afirma Soljenitsin.
História
Historicamente, a origem do Rondon remonta a 1967, data da chamada “operação zero”. À época, um conjunto de universitários e professores, unidos com um grupo de militares do então Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro), foram até Rondônia, onde passaram 30 dias promovendo atividades de assistência médica e entregando cestas básicas. A operação durou até 1989, quando foi descontinuada por fatores desconhecidos. Em 2005, porém, o projeto voltou à ativa, agora com um viés de sustentabilidade.
Segundo Soljenitsin, a edição que mais marcou a vida dele foi a Operação Amazônia, ocorrida em julho de 2025, a qual descreveu como “complexa” e “desafiadora”. Na ocasião, os participantes navegaram 21 horas pelo Rio Solimões, ajudando 12 municípios do interior do Amazonas e comunidades ribeirinhas. Ele também sentiu- -se gratificado com as atividades realizadas lá. “Fizemos o mesmo percurso que fez Pedro Teixeira, o desbravador português. Isso não tem preço, o valor dessa experiência é altíssimo. Durante os atendimentos, nós tivemos experiências maravilhosas e enriquecedoras ao levar soluções. Por exemplo, havia uma cidade onde a população de idosos era altíssima e não tinha ninguém para cuidar deles. A universidade que foi para essa cidade fez uma capacitação sobre cuidadores de idosos. O prefeito, após a capacitação, contratou todo mundo para trabalhar nessa demanda do município”, lembra
Cursos do DF
A professora de medicina da Uniceplac Renata Avancini vai coordenar 8 alunos na missão Carimbó, no município de Ipixuna do Pará (PA), e está feliz com a oportunidade. “Nós estamos bastante felizes por representar nossa faculdade e a nossa região. É um projeto que visa capacitar as comunidades e tem tudo a ver com que a gente acredita que um bom médico deve ter, então a gente está bem alegre”.
O grupo de Renata vai promover oficinas que ensinam procedimentos de primeiros socorros, hábitos alimentares saudáveis, além de palestras de prevenção à pedofilia e atividades culturais. “A gente vai fazer uma ação para gestores de escolas públicas sobre treinamento de primeiros socorros para alunos e profissionais da área. Também vamos fazer um treinamento para a própria população — este, eles que pediram para a gente — de como cuidar dos alimentos, como evitar uma parasitose, por exemplo. Também vamos abordar, com muito cuidado, a questão da pedofilia e do feminicídio”, explica.
Silvia Raquel, de 27 anos, é estudante de medicina da Uniceplac e também embarca para o Pará em julho deste ano. “O Rondon é um projeto universitário muito grande que eu sempre tive vontade de participar. Sempre fiquei muito emocionada quando pesquisava sobre o projeto, e acho que vai ser incrível. Vai ser uma troca de experiência, vamos levar conhecimento por meio de oficinas e produzir um efeito multiplicador”, afirma.
Ela conta que a mãe dela foi assistida pelo projeto na década de 1970, quando tinha 10 anos, e diz que a mãe participou de dinâmicas sobre história do Brasil. “À época, o Rondon foi ao Piauí, e ela me contou que foi assistida pelos rondonistas. Apesar de ela ser criança, foi uma memória que marcou. Ela lembra das comidas, lembra do que foi falado. Foi uma experiência tão emocionante que até hoje ela lembra com carinho”
A Universidade de Brasília também vai representar o DF. Sob a supervisão da professora de anatomia Flora Milton, oito alunos de diversos cursos vão estar presentes no município de São Geraldo do Araguaia (PA), em julho. Um dos projetos envolve a criação de uma academia popular, assim como já existe em regiões do DF. Segundo a docente, a proposta foi bem recebida pelo secretário de Esportes do município, que, inclusive, já começou a organizar a logística para a instalação. A ideia é que a comunidade se empenhe na construção da academia. “A proposta é reunir pessoas da comunidade, como marceneiro, ferreiros e outros, para a gente montar uma rampa, um banco, uma barra e também alguns pesos livres que a gente pode fazer com cimento. É uma coisa que vamos começar a trabalhar antes de irmos”, detalha a enfermeira.
Assim como a Uniceplac, os alunos também vão discutir sobre prevenção ao feminicídio e à pedofilia. Esta é a 6ª participação da UnB no Rondon. A professora Flora finalizou demonstrando ânimo com o projeto. “Eu estou com uma expectativa bem grande para fazermos essa capacitação. A UnB tem um histórico de participação no Rondon, e eu eu sinto uma responsabilidade muito grande para que a gente consiga fazer um bom trabalho e contribuir com o desenvolvimento da cidade em que vamos atuar”, finaliza a docente.
Laryssa Kellye, 24, está no 7 semestre de medicina na UnB e é uma das participantes do Rondon. A escolha pela medicina não poderia ter sido em vão, já que a estudante demonstra uma grande vontade de acolher o próximo. “Tem um significado muito grande fazermos a diferença na vida das pessoas. Quando eu escolhi medicina, foi pensando nisso. Eu gosto muito de ir ao hospital, atender a a população trabalhando nos SUS e ajudar pessoas que precisam da gente.”
“Eu estou com muitas expectativas boas assim para participar do Rondon. Eu sempre tive vontade de participar desde que eu entrei na UnB. Eu gosto muito de estar com as pessoas, de fazer atendimento, de poder realmente retribuir um pouco para a sociedade aquilo que eu tô aprendendo no meu curso. Estou muito animada para poder conhecer o Norte, porque eu nunca fui. Quero poder conhecer a realidade de lá e tentar fazer a diferença”, finaliza.
Estagiário sob a supervisão de Ana Sá*