Cabelos brancos, cadernos prontos: a maturidade que redesenha o futuro na UnB
A segunda edição de 2026 do vestibular 60+ da UnB aprovou 144 alunos. Conheça a história e os sonhos de quatro universitários que iniciarão as aulas na próxima semana
postado em 02/08/2026 06:00 / atualizado em 02/08/2026 06:00
Cleuza Guimarães (D),
João Araújo Neto,
Terezinha Geralda e Gilberto Duarte. Quatro histórias de vida que se encontraram na universidade
- (crédito: Minervino Junior CB/DA Press)
O tempo não fecha portas; ele apenas estende o caminho. Longe de ser um ponto final, a maturidade tem-se revelado um recomeço acadêmico para muitos brasilienses. Por trás dos cabelos brancos, a sabedoria da vida é o ensinamento daqueles que voltam a ocupar as salas de aula da Universidade de Brasília (UnB). Criado em 2024, o Vestibular UnB 60+ é uma iniciativa pioneira que visa à promoção do envelhecimento saudável e ativo daqueles que, no passado, abriram mão de um futuro e de muitos sonhos. Nas salas de aula, a idade é apenas um número. Os cadernos e o frio na barriga de um novo semestre são os mesmos dos alunos de outras gerações.
Aos 60 anos, a vida costumava pedir desaceleração. O roteiro social sugeria a poltrona, o tricô, as memórias contadas aos netos e o descanso merecido. Hoje, rasgar o roteiro é a premissa dos calouros da maturidade, os novos 60+, que, agora, querem escrever as próprias histórias. Entre sorrisos, pinturas no rosto e a expectativa em 23 de junho, 144 calouros viram seu nome estampado na tradicional lista da UnB. Lá, Gilberto Duarte, João Araújo e Cleuza Guimarães viram a concretização da esperança. De longe, em Garanhuns (PE), Enilda recebeu a notícia, e as malas estão prontas para um novo capítulo.
Tião do rolê
João Araújo Neto, 64 anos, sente-se bem entre os jovens
(foto: Minervino Junior CB/DA Press)
Em uma de suas letras, o rapper Matuê diz “sou um ser de luz e ela brilha sozinha”. Ao falar da universidade, os olhos de João Araújo Neto, 64 anos, brilham. A voz calma e sua boina característica não deixam transparecer que um dia ele esteve no show do rapper acompanhando sua filha Tânia de Jesus, de 17 anos. “No meio dos jovens, eu me sinto bem. Gosto de estar com e entre eles”, afirmou. No Cruzeiro, onde mora sua vida toda, a casa sempre foi cheia dos amigos dos filhos, que o apelidaram de Tião. Nos rolês da vida, ele é formado em história e servidor público da Advocacia-Geral da União (AGU).
Após a pandemia da covid-19, o calouro sentiu que seu cérebro precisava de um incentivo e viu na universidade uma forma de continuar as aventuras. “Eu apenas decorei o dia em que o resultado iria ser divulgado. Nesse mesmo dia, saí mais cedo do serviço e fui lá para a UnB. Fiquei nervoso, vi o mesmo nome que o meu, mas com data de nascimento diferente. Quando achei meu nome na lista, liguei para meus filhos, e foi uma festa”. Foi na matrícula que os colegas de trabalho descobriram a aprovação. “Eu estava com dificuldade de escanear toda a documentação e pedi ajuda. Foi quando a notícia se espalhou, e todos ficaram muito felizes por mim”
Daqui a alguns meses, com a aposentadoria de um colega, João será o decano no prédio em que trabalha, mas não pensa em parar. “Tenho tempo para me aposentar, mas sei que ainda tenho muito a contribuir para a sociedade”, disse. Com três filhos já graduados, inclusive um em artes cênicas pela UnB, ele será agora inspiração para a filha e o neto de 8 anos. “Ele fala para todo mundo: ‘meu avô vai estudar’. Ouvir isso é muito bom”.
Por transitar em diversos meios e querer contribuir ainda mais com os brasilienses, saúde coletiva, que estuda as causas das doenças na sociedade e cria estratégias para evitá-las, foi a opção escolhida. “Estou me preparando para os estudos. No primeiro dia, eu vou escutar tudo o que for possível. No segundo, vou levar meu caderno para fazer minhas anotações. Eu adoro dizer que sou idoso, e numa idade dessa voltar à cadeira da universidade é tudo muito novo, mas eu estou pronto”, ressaltou. Orgulhoso e ao lado da filha mais nova, foram conhecer as dependências da UnB. “Vamos fazer uma visitação, para ela conhecer tudo, e, quem sabe, estudar comigo daqui uns anos.”
Arte para a vida
Cleuza Guimarães, 72 anos, e a realização de um sonho por meio da arte
(foto: Minervino Junior CB/DA Press)
Nas salas em que os filhos estudaram, o orgulho e a emoção também eram visíveis no rosto de Cleuza Guimarães, 72 anos. A caloura de museologia afirma que nem as suas apresentações como cover de Carmem Miranda deram tanto frio no estômago quanto iniciar uma graduação. “Ela me inspirou a gostar de arte. Eu amo a história dela e, agora, vou escrever a minha”, disse, emocionada. Aos 16 anos, deixou o interior de Goiás para tentar a vida em Brasília. No caixa do supermercado em que trabalhava, aos 19 anos, conheceu o grande amor da sua vida: Pedro Gonçalves Guimarães. A paixão, com 20 anos de diferença, virou tema do livro Amor que nasceu em Brasília, literatura de cordel escrita por ela, que conta a história deles. Do amor à primeira vista, nasceram três filhos, que se formaram na UnB.
Agora, as carteiras que receberam os filhos receberão a mãe. “Estudar no mesmo lugar que eles, é um sonho realizado. Não consigo nem explicar a sensação”. A dedicação à família foi o roteiro da vida de Cleuza, que retornou aos estudos aos 45 anos e, somente em 2001, terminou o segundo grau. Em Tocantins, onde viveu ao lado do amado, Cleuza fez curso de extensão. Das terras tocantinenses, também veio o reconhecimento.
“Você é muito guerreira e está sempre vencendo os desafios que a vida traz”, mostra, orgulhosa, a mensagem recebida pela professora Célia. Apesar dos cursos, Cleuza sabia que ela poderia mais. “Eu sempre tive na minha cabeça de que eu conseguiria fazer uma faculdade. Muitas vezes, não me sentia pertencente nas rodas de conversas dos amigos. Agora, vou cumprir o que meu coração sempre pediu.” Quando fez a prova de redação, o apoio veio dos filhos “A gente sabia que ela conseguiria. Ela sempre se dedica muito ao que faz. Pra gente, ela é um orgulho”, afirmou Lucilene Guimarães, filha de Cleuza. Com lágrimas nos olhos, a caloura afirmou que, para o primeiro dia de aula, tem uma palavra que não existe em seu vocabulário. “Não tenho medo de nada! Eu enfrentei muita coisa na minha vida, e tenho certeza de que essa graduação vai ser um orgulho pra mim. Estou pronta para ensinar aos mais jovens e aprender com eles”. Na dança da vida, Cleuza e Carmem Miranda dão um show.
Conexão de Garanhuns a Brasília
Farei da minha vida a minha própria peça teatral
(foto: Arquivo Pessoal)
As malas de Enilda Cordeiro da Silva, 67 anos, já estão prontas. Dentro delas: sonhos. Ficar perto dos filhos e estudar artes cênicas, sua grande paixão. “Estava na casa do meu filho, em Goiânia (GO), quando vi que tinham duas vagas remanescentes, e logo quis fazer. Vi na sexta-feira e as inscrições acabavam na segunda-feira. Era a minha oportunidade.” Deixar o conforto de sua casa em Pernambuco e partir para o desconhecido ainda assustava, mas o sonho não pode esperar. “Sempre tive muito medo de deixar para trás o que construí, para começar algo novo. Mas estou pronta para tudo”. Na preparação para o vestibular, aulas on-line gratuitas para estar pronta para a redação.
“Tive menos de um mês para estudar tudo e conhecer as técnicas pedidas na prova. Empenhei-me e consegui.” A sua história com as artes começou na infância. O teatro sempre foi uma paixão. A mobília de sua casa já foi usada nas encenações do circo. “Em Lajedo, interior de Pernambuco, atrás de nossa casa tinha uma grande área onde o circo acampava. No segundo ato do espetáculo, chamado de drama, eu ficava encantada com tudo. Foi justamente aí que minha paixão começou. Minha primeira lembrança das artes cênicas.” No ensino médio, fazia dramatizações. Na fase adulta, fez uma peça de teatro chamada Se essa rua fosse minha e apresentou em alguns lugares. “Fazia tudo sem muita técnica, era tudo pela paixão”.
Enilda (E), 67 anos, no elenco da peça teatral Sem açúcar, com afeto.
(foto: Arquivo pessoal)
A vida a afastou da arte e formada em nutrição, seguiu carreira em Brasília. Na Secretaria de Saúde do Distrito Federal, uniu a profissão ao amor e criou a peça Sem açúcar, com afeto que se tornou referência na Capital Federal sobre prevenção a diabetes. Em 1995, voltou para a sua Terra e seus filhos sempre conheceram a cultura pernambucana. “Sempre quis que eles soubessem de onde vieram e suas raízes”, disse. A passagem está comprada, os amigos estão ajudando a mudança. “Fizemos o Brigada Revolucionária da Enilda, e cada um ajuda como pode. É muito difícil desapegar de muitas coisas e escolher o que vai seguir comigo”
Ao futuro, Enilda espera que seja um segundo ato das histórias que o circo tantas vezes a fez sonhar. “Farei da minha vida a minha própria peça teatral.
Sonhos não envelhecem
A carteira estudantil do curso de letras e o retorno à UnB. Duas histórias de Gilberto Duarte, 67 anos
(foto: Arquivo Pessoal)
De um lado, a pressa juvenil de quem quer desbravar o mundo; de outro, a calmaria de quem sabe o gosto que o mundo tem. Gilberto Duarte, 67 anos, é a personificação da frase. Na década de 1990, esteve no câmpus da UnB como estudante de letras, hoje, volta como um futuro jornalista. A palavras, que sempre o acompanharam na vida, serão as companheiras do futuro. Por muitos anos, foi professor autônomo, revisor de texto e tradutor. Aos 50 anos, decidiu que queria estabilidade na vida e foi aprovado no concurso público da antiga Fundação Nacional da Saúde (Funasa). “Queria um pouco mais de tranquilidade. Quando a gente é autônomo, ganha um mês mais, no outro, menos. Eu queria estabilidade financeira”, ressaltou.
A vida o presenteou com uma função na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para trabalhar diretamente com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA Digital). “A Agência estava sendo estruturada e estavam precisando de servidores. Como eu sempre gostei de desafios, topei ir. Eu sou muito curioso, e sempre gostei de conhecer um pouco sobre tudo”. No fim do ano de 2025, com a aposentadoria batendo a porta, Gilberto decidiu que queria continuar conhecendo, ainda mais, as palavras e prestou o vestibular 60+. Nas redes sociais, escrevia para o seu blog e para o seu perfil no Instagram @conhecimentosimplificado e surgiu a ideia de cursar jornalismo. “Nas letras, a vertente é mais gramatical. Eu sempre fiquei observando a atuação dos jornalistas e, agora, serei um”. Ao seu lado, a companheira Maria Rita, que com os olhos encantados conduz as poses e faz as gravações para o instagram.
Pós-graduada em gereontologia, Ana Rita atuou na transição dos trabalhadores para a aposentadoria. “A gente se conheceu tem 15 anos, e eu o apoio em tudo. Hoje, vê-lo investir na educação é uma realização profissional também”, afirmou. A notícia aos filhos veio de uma forma jornalística. “Ao todo, temos quatro filhos e quatro netos, que vivem em algumas cidades do Brasil. Quando soube do resultado, fiz um vídeo e encaminhei para eles. Nossos filhos são nossos amigos, e foi uma felicidade só.”
Com o início das aulas, a expectativa é conhecer os jovens e o coração de avô está pronto. “Respeito muito todas as pessoas, professores e futuros colegas. Não quero ser o dono da verdade, mas transmitir o que sei do mundo. Não passei na vaga de ninguém, conquistei uma vaga que estava me esperando.” Para quem acha que o tempo passou, a história de amor e profissional de Gilberto são a prova de que nunca é tarde para recomeçar a vida.
Lição de uma veterana
Com a chegada dos 144 calouros do vestibular 60+, alguns papéis foram invertidos: a caloura de ontem assume o papel de anfitriã. Com a força de quem venceu o frio na barriga da aprovação, Terezinha Geralda, 66 anos, se prepara para abrir as portas da universidade para os novos colegas universitários. Ela diz estender a mão a quem, assim como ela, escreverá mais um capítulo especial em suas vidas.
Um chá para a alma
Geralda Terezinha, 66 anos: Vai ser um prazer compartilhar experiências
(foto: Minervino Junior CB/DA Press)
Com um sorriso tímido, olhar atento e caminhar sereno, Terezinha Geralda da Silva está pronta para acolher os novos colegas de faculdade. “Vai ser um prazer receber todo mundo e poder compartilhar experiências”, afirma. Na roupa da veterana, uma flor rosa que demonstra o seu carinho e cuidado com a natureza. “Eu amo os jardins da UnB. Foi o que me encantou quando cheguei aqui.”Em 2025, o jornalismo entrou em sua vida como uma forma de conhecer o mundo. Agora, cursando o terceiro semestre sabe o que quer. “Quero aprender sobre tudo e conhecer muitos lugares. O jornalismo vai me levar até eles”, disse.
As plantas sempre estiveram presentes na vida de Terezinha, e o chá, companheiro de todos os dias, é o assunto predileto da universitária. “Tem cidreira e capim santo que eu mesma planto em casa. Estão todos convidados para tomar um chá e conversar sobre a vida” disse.
Moradora da QNJ, em Taguatinga, Terezinha encontra um empecilho para conquistar o diploma: o transporte público. “Não tem linha direto da UnB para Taguatinga Norte e, às vezes, é bem difícil sair das aulas e ir para casa. Mas isso não vai me fazer desistir”, afirmou. Ambientada ao meio universitário, ela garantiu aos calouros que a idade é ralmente só um número. “Eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito, pelo contrário, muitos me ajudam em vários momentos”, lembra. A diferença de gerações está dentro da sala e os desafios, também. A estudante de jornalismo e colega de sala de Terezinha, Isabela Brito, 19 anos, afirmou que os conhecimentos trocados entre gerações é o que torna especial. “É uma troca de experiência muito especial, eles têm vivências que nos fazem sair da nossa bolha. São opiniões e de realidades muito diferentes”, refletiu a jovem.
Preencher a folha definitiva da redação com mãos que carregaram filhos, netos e uma vida inteira de trabalho é um ato de pura coragem. Em 10 de agosto, iniciam as aulas dos calouros da maturidade e, para esses estudantes, a universidade não é uma promessa de carreira ou de enriquecimento financeiro. É um acerto de contas com o próprio destino.
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