Gabriela Santos*
postado em 09/08/2026 06:00 / atualizado em 09/08/2026 06:00
Simone Magalhães segue o horário dos colegas no modelo presencial, mas admite que o expediente on-line "é um alívio para a mente"
- (crédito: arquivo pessoal )
O home office é uma realidade no mercado de trabalho, e a prática foi aderida pelo serviço público. O Ministério da Gestão e Inovação (MGI) divulgou que 107,8 mil servidores públicos federais exercem as atividades em algum tipo de teletrabalho. Os servidores que alternam períodos de trabalho presencial com teletrabalho representavam 16,5% (74.156) em junho de 2026. O teletrabalho integral se manteve estável, em torno de 7% da força de trabalho em atividade (cerca de 33.000 pessoas servidoras).
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Na saúde dos trabalhadores, a rotina do teletrabalho trouxe mudanças na qualidade de vida, e tornou-se um debate entre profissionais. A psicóloga Aline Alves Freitas explica que as pausas durante a jornada de trabalho são uma estratégia importante de autorregulação física e emocional. “Os benefícios dependem da existência de limites claros entre o tempo de trabalho e o tempo de descanso, para que a flexibilidade não se transforme em jornadas cada vez mais longas”, afirmou.
Desde a pandemia do covid-19, o professor da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) Josué de Souza trabalha on-line, e afirma que o método facilitou a troca de informações com colegas de outros estados, além da possibilidade de gerir o tempo entre trabalho e estudos para capacitação. Nesse sentido, nas tarefas em que não há a exigência de um controle diário, o professor deixa-as agendadas, e utiliza o tempo para se dedicar à saúde “Poder, de repente, dar uma caminhada ou resolver uma demanda pessoal. Isso torna o meu dia muito mais rico”. Atuando em modelo híbrido, o docente trabalha presencialmente duas vezes por semana, e conta com uma organização de agenda muito bem estabelecida.
Outro ponto levantado pela psicóloga Aline Alves foi a desigualdade de gênero, que se tornou mais evidente com o teletrabalho. “Na minha prática clínica, observo que o espaço de trabalho dos homens costuma ser mais respeitado dentro de casa. Quando o pai está trabalhando, há uma tendência maior a respeito daquele momento. Já as mães são interrompidas com mais frequência pelas demandas domésticas e familiares.”
A servidora da Universidade de Brasília (UnB) Gisele Pimenta, mãe de dois meninos em idade escolar, ressalta que é preciso fazer um recorte social de classe e de raça ao falar do home office para mães. “Eu tenho uma dinâmica familiar que me permite mais flexibilidade de horários, um ambiente adequado para o trabalho remoto, escola próxima, carro próprio e outras condições que trazem benefícios”, conta. A servidora também destaca que a realidade de boa parte das mulheres é o esgotamento físico e mental pela sobrecarga de trabalho. Segundo Gisele, o teletrabalho não mudou muito essas estruturas, tendo em vista que as mulheres continuam com o acúmulo das demandas domésticas. “Conheço outras mães que trocaram o regime híbrido porque, se não saírem de casa, não conseguem cumprir as metas estabelecidas pelo trabalho profissional.”
A sobrecarga mental e física são pontos de atenção para quem atua em teletrabalho, tendo em vista que o aumento no risco de burnout. Para evitar o colapso do corpo, a psicóloga explica que a separação entre os ambientes funciona como um limite psicológico. “No momento em que essa fronteira física desaparece, pode surgir a dificuldade para se concentrar, desligar das tarefas domésticas e encerrar a jornada de trabalho. O ideal para isso é ter um local dedicado às atividades laborais”, disse.
Para a produtora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) Simone Magalhães, o modelo teletrabalho foi um alívio para a mente. “Poder dar uma pausa devido ao fluxo de informações, uma caminhada, realizar uma leitura é qualidade de vida”, conta. Apesar de parecer ter um horário flexível, Simone afirma seguir o horário dos colegas no modelo presencial para ajuste de rotina. “Os prazos ainda existem, logo, o ideal é cumprir essas atividades no mesmo horário que toda a equipe. Nunca tive problema de integração, hoje temos várias formas de comunicação, pessoal e pelo sistema interno também.”
Apesar da dinâmica do home office ser bem aceita, há, ainda, quem prefira o modelo presencial, como é o caso da chefe de divisão de pagamento de exercícios anteriores e resíduos remuneratórios do (MGI) Ana Amélia Rayol. A servidora relata que não se adaptou ao trabalho remoto e, prefere estar 100% presencial, para cumprir as metas profissionais sem conciliar com as demandas domésticas. “Além das interrupções, as coisas se misturam muito. Por exemplo: quando fiz a tentativa do remoto, já interrompi o almoço para atender demandas de trabalho, além de não ter hora para parar. Por isso, prefiro ter um ambiente voltado para a atividade profissional. Além do suporte tecnológico da TI e socialização.” Diferente da Gisele, os filhos da Ana entraram na fase adulta e, por consequência, as responsabilidades com eles diminuíram, mas o preparo da comida,a limpeza da casa são divididas com o marido que está aposentado.
Diante da alta adesão ao home office, o setor de recursos humanos, unido aos gestores, também precisa adaptar-se ao modo de liderança. Segundo a especialista em liderança, gestão de pessoas e CEO da Alba Consultoria Rosa Bernhoeft, é de suma importância preparar os gestores para liderar equipes distribuídas e focar a avaliação em metas e entregas, superando a cultura de confundir controle visual com supervisão de produtividade no home office, explica. “O desenvolvimento profissional dos gestores passa por ensinar e construir relações baseadas na confiança e em acordos. A implementação do PGD demonstra um caminho viável, substituindo a vigilância por metas claras”. Desse modo, a eficiência no setor público mede-se pelo impacto gerado para o cidadão, e liderar deixou de ser um cargo para tornar-se um estado de ser onde a comunicação assertiva e a manutenção da cultura organizacional tornam-se os verdadeiros alicerces.
Ao analisar as dificuldades apontadas por profissionais, a psicóloga Aline afirma que, após a pandemia do covid-19, houve uma prédisposição para o isolamento social, e que o trabalho presencial é um motivador para o convívio. “O trabalho presencial oferece oportunidades de interação, troca e pertencimento que funcionam como fatores de proteção para a saúde mental. Isso merece atenção, especialmente quando o trabalho remoto reduz os espaços de convivência”. Por isso, do ponto de vista dela, não existe um modelo ideal para todos. O mais importante é que o trabalhador tenha condições de estabelecer limites entre os diferentes papéis da vida.
*Estagiária sob a supervisão de Marília Milhomen*