Perfil

Aos 88 anos, Oswaldinho Rocha ainda sai toda noite para fotografar Brasília

Pioneiro chegou ao Planalto Central em 1959 e acumula mais de 10 mil imagens da capital — de presidentes da República a Pelé — que nenhuma instituição guarda

João Pedro de Lara Resende
postado em 09/08/2026 06:00 / atualizado em 09/08/2026 06:00
 Oswaldo Rocha, fotógrafo pioneiro em atividade no restaurante Trattoria da Rosário
 -  (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Oswaldo Rocha, fotógrafo pioneiro em atividade no restaurante Trattoria da Rosário - (crédito: Fotos: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Oswaldo Rocha dirige sozinho até a QI 17 do Lago Sul, estaciona o Corolla cinza em frente ao Fashion Park, cabelo penteado para o lado, de camisa polo, e abre a porta. Dentro do carro, há jornais no piso da frente, revistas no banco do passageiro, álbuns no assoalho de trás e fotografias soltas sobre o assento. No porta- -malas, mais papel — e a câmera. Aos 88 anos, de olhos azuis claros, ele mergulha naquele arquivo ambulante, remexe por alguns segundos e emerge com exatamente a foto que procurava. Ele sabe onde está cada uma. São 10 mil. 

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Entra na Trattoria da Rosario, restaurante italiano da quadra, e espalha as imagens sobre a mesa, entre os talheres: um presidente da República aqui, um ministro do Supremo ali, Pelé acolá. Aponta uma e já diz o lugar, o ano, quem estava em volta.
Quem vê o senhor elegante distribuindo fotografias pelos restaurantes do Lago Sul dificilmente imagina que a carreira começou por um motivo bem menos nobre. Era paquera.
Com o amigo e dono da trattoria da Rosário
Com o amigo e dono da trattoria da Rosário (foto: Arquivo Pessoal)
Conhecido em Brasília como Oswaldinho, ele nasceu em 12 de junho de 1938, em Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, filho de Ernani Rocha e Jovita Torres Rocha. Chegou ao Planalto Central pela primeira vez em novembro de 1959, aos 21 anos, num avião da Força Aérea Brasileira (FAB). Desembarcou de madrugada, debaixo de temporal. Não havia onde morar. Dormiu em camas de armar, num barraco de madeira na Candangolândia, ao lado da central telegráfica do antigo Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). Almoçava numa cozinha improvisada no meio do Cerrado, em mesas de tábua. “Uma mão comia, outra espantava a mosca”, lembra, rindo.
O pai era o superintendente do DCT na nova capital. Ernani e Jus- celino Kubitschek tinham sido colegas — ambos começaram como telegrafistas —, e no ano seguinte JK o levou para chefiar o serviço postal do Palácio do Planalto. “Eu ia lá no Palácio, conversava com ele”, diz Oswaldinho sobre o presidente. 
 Oswaldinho  com o ex-presidente José Sarney
Oswaldinho com o ex-presidente José Sarney (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
A primeira temporada durou pouco. Morando mal, ele voltou ao Rio de Janeiro no fim do mês e retornou uma semana antes da inauguração, numa caravana de funcionários transferidos. Um ano depois, ganhou um dos apartamentos JK da SQS 413, de quarto e sala. 
Foi naquele prédio que quase morreu. Num domingo, a irmã chegou sem a chave. Oswaldinho olhou o telhado e concluiu que era simples: bastava descer por uma corda até a janela dela. Achou uma na obra ao lado e subiu. A corda arrebentou. Ele despencou de costas do terceiro andar e só não se espatifou porque quatro fios de alta tensão, esticados entre os blocos, amorteceram a queda. Acordou no hospital sem lembrar como tinha chegado lá. Sessenta e seis anos depois, ele continua achando que é simples. 

Pé de valsa 

Bom jogador de basquete — o pai treinava o esporte em Passa Quatro —, Oswaldinho estudou no  Caseb, a escola mais antiga de Brasília, aberta menos de um mês após a inauguração da cidade. Fazia o curso comercial à noite, depois do expediente nos Correios, e se formou técnico em contabilidade, em 1963. “Fui aluno lá com todos os filhos de deputados, senadores, ministros.” À tarde, enquanto os colegas iam aos clubes de Geografia e de História, ele ficava na sala de música. Dançando. Com as meninas, claro.  
Virou presença obrigatória no Iate Clube, no Jóquei e no Congresso. A turma não perdoou e apelidou o mineiro de Pé de Valsa. 
A câmera veio no embalo. Uma 6 por 6, comprada com objetivo prático. “Eu me aproximava das meninas — fotografar, dar foto para ela. Era uma maneira de fazer amizade”, explica, sem cerimônia nenhuma. Funcionou. E aí ele descobriu uma coisa: com uma câmera na mão, entrava em qualquer festa da cidade.
Fotógrafo de celebridades: Adriane Galesteu
Fotógrafo de celebridades: Adriane Galesteu (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Aquela primeira máquina não durou muito. “O cara sumiu com a máquina”, resume, sobre o conhecido que a levou para consertar. 
As fotos iam para Catucha, que assinava uma das primeiras colunas sociais do Correio Braziliense. “Eu cobria casamentos e festas, deixava as fotos para ela”, conta. 

Nunca largou 

Oswaldinho ficou oito anos no DCT, passando telegramas. Em 1968, foi aprovado no exame de suficiência em geografia pela Universidade de Brasília (UnB) e voltou ao Caseb — agora do outro lado da sala, como professor da matéria. Abriu imobiliária. Na extinta Sociedade de Abastecimento de Brasília (SAB), foi assessor da presidência e presidiu a Associação dos Servidores, eleito pelos colegas. Em 1975, concluiu a licenciatura em pedagogia na UnB. Aposentou-se como professor da Fundação Educacional. Em nenhum momento parou de fotografar. 
E uma coisa puxou a outra. Representou na capital as agências de modelos Ford Models, Mega e Elite e, por três décadas, indicou a candidata do Distrito Federal ao Miss Brasil. Editou o Moda e Turismo, o Mundo VIP, o Mundo Jovem e o Mundo do Turismo — jornais que precisavam justamente do que ele tinha: fotografia. 

De casaca 

Oswaldinho ainda foi ator. Subiu cinco vezes ao palco. Na peça sobre a história do cinema, coube-lhe um papel óbvio. “Eu representei o Fred Astaire, porque o meu apelido era Pé de Valsa.” Depois foi Noel Rosa, dessa vez como protagonista. 
A última encenação foi o baile de inauguração de Brasília. Ernesto Silva, um dos nomes da construção da capital, emprestou-lhe a casaca. Oswaldinho vestiu-a e dançou com uma neta de Juscelino Kubitschek. Ele havia chegado à cidade dormindo em cama de armar, num barraco de madeira. Décadas depois, voltou àquele mesmo abril — de casaca, no palco. 

“Quase me bateu” 

Certa vez, Oswaldinho reconheceu um empresário que tinha fotografado tempos antes, num jantar com a mulher. Foi até o carro, revirou o arquivo, achou a imagem e ofereceu-a de presente, exultante. Um problema: a acompanhante daquela noite era outra. “O cara quase me bateu”, conta. Aconteceu mais de uma vez.  
O acervo está em quatro HDs de 1 terabyte, em centenas de CDs e em negativos guardados em envelopes. Dois quartos da casa estão abarrotados de jornais, revistas e fotografias. “É coisa demais”, resume. Um dos HDs caiu no chão e quebrou: das 2 mil fotos que sumiram, ele recuperou metade. Os negativos, esses, estão todos lá.
O pai, Ernani Rocha (primeiro à esquerda), em evento  com JK
O pai, Ernani Rocha (primeiro à esquerda), em evento com JK (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
Nesse arquivo estão os presidentes Figueiredo, Sarney, Collor e Itamar. Presidentes do Supremo Tribunal Federal (STF), ministros, senadores, embaixadores. Pelé, Nelson Piquet, Gustavo Kuerten.
Nenhuma instituição guarda esse material. Não está no Arquivo Público do Distrito Federal nem em museu nenhum. Está em dois quartos, em quatro HDs — um deles quebrado — e espalhado por um carro. O índice de tudo isso fica num lugar só: a cabeça dele. Perguntado sobre o destino do arquivo, ele responde rápido: vai deixar para os irmãos mais novos.

Toda noite

Oswaldinho sai de casa com a máquina e faz uma ronda pelos restaurantes. “Você deve sair de casa todo dia, principalmente à noite, e correr pela cidade”, diz. “Muita coisa acontece. Você vai encontrar pessoas interessantes. Não pode perder essas oportunidades.”  Ele não passa a noite acordado por insônia. Passa acordado porque está trabalhando.
Na Trattoria, onde é presença diária há mais de 20 anos, ele explica a escolha. “Falo com o ministro do Supremo, com o presidente da Câmara e com o presidente do Senado. As grandes figuras da República passam por ali.” 
O chef Rosario Tessier, amigo dele há mais de 30 anos, ri quando perguntam sobre Oswaldinho: “É gente boa com todo mundo. Conhece todo mundo, brinca até com o feirante. Vem todo dia.” Rosario manda servir o que o amigo quiser. Às vezes, Oswaldinho leva a vasilha de casa para carregar a canja. 
Quando ele falta, o restaurante liga. “Quando ele não passa um dia, dois dias, a gente dá uma ligada para ele”, diz o chef. “Tem cliente que quer saber dele.” 
Depois vai embora e continua a ronda. As mensagens para esta reportagem chegaram entre 2h e 4h da manhã.
Foto com Pelé
Foto com Pelé (foto: Arquivo Pessoal)
Fotografa quem encontra, manda revelar e entrega a imagem mais tarde, não raro acompanhada do recorte amarelado do jornal em que a pessoa saiu. Há quem pague pela lembrança. O filho de um antigo frequentador recebeu três fotos e mandou um Pix de R$ 1 mil. Oswaldinho estranhou o valor e ligou para confirmar se estava certo. O homem explicou: era a última foto que tinha com a mãe viva, com a família inteira. Fotografou gente que morreu um ou dois dias depois. 
Sobre o próprio trabalho, não usa nenhuma palavra de peso. Não diz acervo, não diz obra, não diz memória. Diz foto. “Dar uma foto para o cara.” Ele ainda fotografa? “Todo dia”, responde. “Toda hora.” 
E tem trabalho na fila: quer publicar uma edição especial sobre os 66 anos de Brasília, com material que juntou e não usou. Tinha uma lista de pioneiros para homenagear, e a covid-19 chegou antes. “Muitos que eu queria entrevistar morreram”, diz. 
Naquela Brasília de 1959, lembra ele, as pessoas chegavam dos quatro cantos do país com uma coisa em comum. “Vieram para a capital da esperança. A esperança de criar dias melhores, de criar família, de galgar socialmente, culturalmente.” Ninguém negava carona a ninguém. 
Mais de seis décadas se passaram. O cerrado virou metrópole, a carona virou aplicativo, a coluna social virou rede social. E Oswaldinho continua saindo de casa toda noite, com a câmera no banco de trás, sem saber quem vai encontrar. “Não sei o que me espera pela frente”, diz. “Sempre tem tido grandes surpresas.”  Aos 21 anos, comprou uma máquina para entrar na festa. Aos 88, continua entrando.

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