A aprovação do projeto de lei (PL) 1.049/2026 pelo Senado Federal, que institui a Política Nacional para Altas Habilidades ou Superdotação, representa um marco no combate à invisibilidade que atinge neurodivergentes. A nova legislação busca fortalecer diretrizes de identificação, acompanhamento e Atendimento Educacional Especializado (AEE), prevendo a aceleração de estudos, o enriquecimento curricular e a criação de centros de referência.
A superdotação consiste em altas habilidades cognitivas direcionadas a áreas específicas do conhecimento. Todavia, o desenvolvimento emocional e social não necessariamente acompanha o acadêmico. Dentre os debates do mês de agosto, hoje (10/8) é comemorado o Dia Internacional da Superdotação. Especialistas ressaltam que o maior desafio permanece na identificação precoce dos superdotados, evitando que passem anos enfrentando isolamento e sofrimento psíquico antes de compreenderem seu próprio funcionamento cognitivo.
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A psicóloga clínica e neuropsicóloga Thaís Barbisan reforça que o funcionamento cerebral de uma pessoa superdotada não representa apenas facilidade acadêmica ou uma "vantagem natural". Trata-se de uma condição de neurodesenvolvimento que pode vir acompanhada de vulnerabilidades como ansiedade, depressão, perfeccionismo, síndrome do impostor e um profundo sentimento de inadequação, especialmente quando o ambiente de estudos ou de trabalho não acolhe essas especificidades.
Segundo Thaís, a psicologia e a sociedade podem se estruturar para acolher não apenas o potencial intelectual desses estudantes, mas também as suas demandas sociais e emocionais. "Devemos criar espaços de educação e trabalho em que essas pessoas possam ser vistas em sua totalidade, com seus potenciais, suas fragilidades e sua singularidade. É esse olhar integral que favorece um desenvolvimento saudável e uma vida emocional mais equilibrada", sugere.
Gustavo Gattino é pesquisador e professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca, e também é uma pessoa com superdotação. Ele relata que o diagnóstico ajudou a explicar não apenas seu pensamento acelerado e sua criatividade, mas também a intensa sensibilidade sensorial e a hiper-responsividade auditiva. Gattino ressalta que o cérebro superdotado opera em assincronia, o que significa que o desenvolvimento cognitivo não é acompanhado no mesmo ritmo pela maturidade emocional. "Sem a identificação e o suporte de profissionais, não há como, de fato, descobrir quais são as características e os meios para que a aprendizagem daquele indivíduo seja feita da melhor forma" explica.
Dentro do ambiente familiar e escolar, a ausência de informação gera desafios diários. Carla Spegiorin, mãe de Antônio Spegiorin, de 8 anos, relata as dificuldades enfrentadas até a obtenção do laudo de altas habilidades com foco em matemática e linguagem. Ela explica que a intensidade emocional do filho costuma ser julgada como birra ou falta de limites por pessoas que desconhecem a assincronia do desenvolvimento. Além disso, Carla aponta o despreparo das instituições de ensino particulares com as quais esteve em contato para lidar com o ritmo do aluno, que costuma terminar as atividades em poucos minutos e fica ocioso em sala de aula.
Apesar das estimativas internacionais indicarem que de 3% a 5% da população apresente altas habilidades ou superdotação, os índices oficiais no Brasil continuam muito abaixo do esperado, identificando de 0,12% a 0,5% dos estudantes, segundo o Censo Escolar de 2025.
Ensino precoce
Diante desse cenário, a atuação da educação precoce, até 3 anos e 11 meses de vida, surge como uma etapa fundamental para estruturar uma base socioemocional sólida. A coordenadora da Educação Precoce do Centro de a Atenção Integral à Criança e ao Adolescente Juscelino Kubitschek (Caic JK/NB), Rejane Fernandes Goulart Paulino, destaca que os sinais de potencial acima da média na primeira infância devem ser acompanhados por equipe multiprofissional, e que o foco pedagógico nessa fase deve ser o fortalecimento da autonomia e o aprendizado da convivência.
Onde encontrar atendimento:
- Salas de Recursos Multifuncionais: as escolas da rede pública possuem salas para o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Nele, professores especialistas desenvolvem projetos de enriquecimento curricular no turno inverso ao da aula regular. Os interessados devem comparecer à Regional de Ensino para realizar o cadastro.
- Salas para o Atendimento Educacional Especializado (AEE): nesse espaço, professores especialistas desenvolvem projetos de enriquecimento curricular no turno inverso ao da aula regular. Uma porcentagem dessas vagas públicas também é legalmente reservada para alunos matriculados na rede privada de ensino. As inscrições devem ser feitas também na Regional de Ensino.
- Instituto Virgolim: instituição privada criada para atender, orientar e desenvolver pessoas com altas habilidades e superdotação. No instituto, são identificadas as altas habilidades e a superdotação. O local oferece enriquecimentos extracurriculares, psicoterapia, psicomotricidade, programas de orientação a pais e professores, além de programas de capacitação para professores e profissionais da área clínica. Para mais informações, acesse o instagram @institutovirgolim ou entre em contato pelo e-mail: institutovirgolim@gmail.com.
- Espaço Eurekka: oferece psicoterapia on-line com profissionais voltados para o atendimento de pessoas com altas habilidades/superdotação (AH/SD). Os interessados nos serviços devem acessar o site https://encurtador.com.br/Hpor e clicar no ícone Agendar Sessão.
