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Conheça o professor da ETB que é sucesso no YouTube e tem alunos premiados

Pioneiro sucesso de público no YouTube, o coordenador da Escola Técnica de Brasília (ETB), Rogério Antônio de Lima, conta como a paixão pela carreira o inspira e ajuda a cativar os estudantes

Rogério Antônio de Lima de Lima, 55 anos, é o caso clássico de quem se rendeu aos encantos da sala de aula. Formado engenheiro na década de 1990, iniciou a carreira na área e aos poucos foi fisgado pela docência. Por um tempo, as duas funções foram exercidas conjuntamente, mas chegou um momento em que a paixão venceu e, hoje, ele se dedica exclusivamente ao trabalho na Escola Técnica de Brasília (ETB), em Taguatinga, ofício que exerce com dedicação e empenho.

"Eu me lembro que quando fui escolher o que fazer no vestibular, saí com meu pai, porque a gente gostava de conversar, e perguntei: 'Olha, tô numa dúvida danada, não sei se vou ser professor ou engenheiro, porque sempre gostei das duas coisas'", indagou. O pai, sabiamente, devolveu o questionamento com outra pergunta: "Se você for engenheiro, pode dar aula?". Rogério respondeu que sim. "Então faz engenharia", atestou o pai.

O professor aceitou o conselho e mergulhou nos estudos da primeira graduação. A paixão por dar aula, no entanto, falou mais alto, e logo ele agarrou a oportunidade de trabalhar em uma escola. À época, a graduação em pedagogia não era obrigatória ao exercício da docência, a depender da disciplina ministrada. 

Rogério já morava em Brasília e tinha ido levar alguns rádios para a Marinha, após o conserto, e por lá ficou sabendo da vaga de professor substituto na ETB. No mesmo dia, passou na escola e perguntou sobre a oportunidade. Havia mesmo uma chance para dar aulas de eletrônica digital, uma das áreas de que ele gosta e que domina. A surpresa veio quando recebeu a proposta que mudaria o rumo de sua carreira: "Você pode ficar e começar hoje, às 19h?"

A resposta foi um sim certeiro, selando a parceria que rende frutos até hoje. "Passou um ano e resolvi fazer o concurso para professor efetivo. E estudei, como bom nerd que sou. Mas depois descobri que havia 16 vagas e acho que apenas quatro candidatos para a área técnica. As vagas que iam disputar a gente, né?", diz, bem- humorado e com o sotaque que não deixa negar a origem mineira.

A modéstia do professor permite que o foco do seu orgulho se concentre no desempenho dos alunos. Ele enumera sem dificuldades projetos que ganharam prêmios ou atingiram patamares impressionantes com pouquíssimo material de apoio. É o caso de uma cadeira de rodas inteligente e de dispositivos de emergência pensados para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica.

Mas o resultado depende diretamente da dedicação que ele coloca no trabalho. Rogério é pioneiro em vídeos no YouTube, por exemplo. Há 20 anos começou a postar na plataforma tutoriais dedicados a partes específicas das disciplinas que ministra, pois percebeu a necessidade de um material de apoio que os estudantes pudessem consultar. 

Hoje, o canal tem 400 vídeos publicados e quase 40 mil inscritos. Além das aulas e dicas, virou um repositório de memórias e, até mesmo, de receitas. Algumas postagens alcançam milhares de visualizações. "Eu vou ter que aprender a dançar, porque o pessoal não quer ver mais matéria", diverte-se. 

Onde tudo começou

Natural de Araxá (MG), Rogério se formou em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Uberlândia (MG) em 1995. "Meus pais sempre nos incentivaram a estudar. Inclusive, nenhum dos dois tinha curso superior, mas os três filhos fizeram graduação", conta Rogério, o primogênito, referindo-se aos irmãos, Rodrigo e Renata.

A mãe, Gasparina Rosa, que morreu no ano passado, era extremamente talentosa. Confeccionou o próprio vestido de casamento e os das daminhas, todos em crochê. Abandonada pelo pai na infância, desde cedo foi arrimo de família, já que era a filha mais velha, e usava as habilidades para ajudar no sustento da casa. O pai, Arlindo Jerônimo, formou-se no curso técnico de contabilidade e é servidor público aposentado. 

Mesmo com pouco estudo, sempre incentivaram a trajetória acadêmica dos filhos e tinham como mantra a importância de os três ingressarem na universidade pública. "Minha mãe era o sonho da vida dela estudar. Ela que não teve as oportunidades na vida. Meu pai teve, e sempre valorizou muito. Ele era da roça, e o meu avô gastou o que tinha o que não tinha para todos os filhos estudarem", relata Rogério.

A certa altura, o casal nem precisava gastar o discurso com o filho mais velho, que se enfurnava nos livros de bom grado. "Eu era um garoto estranho. Sempre fui nerd, então gostava de estudar. Às vezes, tinha que mandar eu parar um pouco", brinca.

Anos mais tarde, já em Brasília, Rogério concluiu a licenciatura no UniCeub, graças a um convênio com a Secretaria de Educação, no momento em que essa passou a ser uma exigência para lecionar no país.

A mudança para a capital federal ocorreu em razão de uma oportunidade na área de engenharia. "Eu me formei no governo Collor, quando todo mundo estava sendo mandado embora. Então, saí disparando currículo pelo Brasil todo, e me chamaram para trabalhar com rede aérea e iluminação pública numa empresa privada. Depois, fui trabalhar com rádio e comunicação, porque na época também não tinha celular", comenta.

O cansaço acumulado pelo trabalho sem hora para terminar mais a dupla jornada na ETB renderam oito úlceras por conta do estresse, e foi o momento de escolher um caminho único. Apesar do impacto financeiro, a decisão foi pela trajetória que naquele momento daria mais alegrias e menos dor de cabeça — ou no estômago. "Chegamos a um ponto na vida que temos de escolher fazer as coisas que nos dão mais prazer, mesmo que isso não dê tanto dinheiro", comenta, ao lamentar que a docência ainda não seja valorizada como deveria no Brasil.

A vida é divertida!

Há um ano, Rogério assumiu também a função de coordenador da ETB, e reforça a todo o tempo que o professor precisa passar a paixão pelo estudo para os alunos.

Os projetos são a parte preferida. Apesar de serem mais desafiadores para qualquer professor, permitem colher resultados mais rápido em termos de aprendizagem, pois tornam os estudantes protagonistas. 

Para alguns docentes, pode ser incômodo, pois os tira do controle total da atividade que teriam numa aula tradicional entre quatro paredes. "Eu acho que a teoria tem que ser um subsídio à prática. Temos que focar no aluno e colocar a mão na massa", defende. "O aluno para de se preocupar com nota, pois passa a se preocupar com o projeto dele. E você para de se preocupar em avaliar o aluno, porque você sabe que ele vai muito além do que a matéria oferece. Então, a gente aprende muito e a vida da gente fica divertida por isso. Porque a vida não é chata, né?"

O Circuito de Ciências do DF, que reúne trabalhos de escolas públicas de toda a capital, é um dos eventos mais esperados pela comunidade da ETB. É lá que os estudantes têm a oportunidade de apresentar projetos selecionados que foram desenvolvidos durante todo o semestre, muitos deles pensando na proposta central da mostra, que este ano foi 'Elas na Ciência: conectando saberes, tecnologia e meio ambiente'.

E não poderiam ter encontrado um coordenador mais entusiasmado. Por "puro preconceito", como ele mesmo observa, a maior parte dos estudantes da escola são homens e houve resistência em acolher a proposta do circuito para 2026. Até que o professor mostrou que, na verdade, o lugar das mulheres na ciência não é o da cota: é o do pioneirismo.

Hedy Lamarr, a atriz que ajudou a inventar o wi-fi e o bluetooth; Enedina Alves Marques, a primeira mulher negra formada em engenharia no Brasil, que participou da construção da maior central hidrelétrica subterrânea do Sul do país. Todas elas passaram a servir de inspiração para os projetos.

"Ada Lovelace, a mulher que criou o algoritmo. A informática existe, a computação existe, porque ela, no século 19, fez isso", reforça o professor. "Não é que a gente tem que trazer as mulheres: as mulheres foram pioneiras de tudo na área de tecnologia. Houve um apagamento, e essa é uma oportunidade de a gente refletir sobre isso", empolga-se o professor.

Um dos projetos que resultou de todo esse processo de pesquisa foi a criação de um botão do pânico para vítimas de violência doméstica que pode ser acionado por palmas, numa luminária ou no celular.

Lágrimas de felicidade

"No ano passado, um dos projetos que eu gostei muito e que realmente me emocionou é que tínhamos uma aluna que era do espectro autista aqui na escola e o tema ano passado era água. Aí ela me procurou falando que do estava pensando em fazer e disse: 'Tem que ser em grupo?' Eu falei: 'Tem que ser em grupo'. E ela respondeu: 'Mas eu não converso com ninguém da sala'."

Rogério insistiu e a estudante acabou fazendo o trabalho em grupo. Ela pesquisou baleias que vocalizam em uma frequência diferente das outras do grupo, por isso, vivem de forma solitária. "Ela fez uma relação disso com a vida dos autistas, porque eles também querem se comunicar, também querem contato, e acabam ficando isolados. O projeto dela foi todo nessa linha. Então, você imagina, é uma escola de tecnologia, e ela apresentou esse trabalho super sensível. Um dos avaliadores nós tivemos que tirar da sala com um lencinho, porque ele chorou muito na hora", conta o professor sobre a apresentação da aluna durante o Circuito de Ciências do DF.

"Essa estudante hoje mudou a maneira de se vestir, pintou o cabelo e passou a ser uma liderança da sala. A sala inteira foi ver o trabalho dela. Então você vê como o projeto muda a pessoa. Ela saiu de isolada para líder da sala", orgulha-se Rogério. O projeto Eu posso te ouvir! foi selecionado, na última semana, pelo Desafio Sebrae na categoria educação profissional. "Além de todo o prazer que é dar aula, a gente acaba se realizando pelo sucesso que os alunos alcançam. É algo realmente motivador."

Ele compreende, porém, porque muitos estão desiludidos com a carreira. As agressões são mais frequentes, os pais cada vez mais ausentes e os estudantes, menos preparados. Há ainda o desafio de atraí-los para a escola. "O nosso desafio é trazer o aluno. Antigamente, tínhamos fila de alunos para fazer a matrícula. Havia um vestibular concorridíssimo, tinha cursinho para o aluno entrar. Hoje, sobram vagas nas escolas técnicas", observa.

Nesse ponto, o impacto das redes sociais é inegável. "Quando eu era criança, o que os meus pais diziam é que o único jeito de você ter sucesso é estudando. Hoje, o  exemplo é que se você tiver um canal na rede social você vai ser milionário", reclama. "E os governos não acompanham nessa velocidade. Toda eleição temos muita gente falando de educação, mas quando passa a educação é a última das prioridades, fica no limite do que é obrigatório por lei, e vão seguindo por aí", avalia Rogério. Apesar de todos os entraves, Rogério é um professor otimista e profissional realizado. "Além de todo o prazer que é da aula, a gente acaba se realizando muito pelo sucesso que alunos nossos alcançam. É algo realmente motivador."