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Na era da IA, comunicar é humano

A oratória e a comunicação fortalecem a inteligência natural para pensar, reagir e se expressar com clareza em reuniões, conversas, negociações e palestras

Por Marina Figueiredo

Nos últimos dias, muito se tem debatido sobre as incertezas acerca da inteligência artificial. Quais serão os limites de sua autonomia? Há discussões sobre sistemas cada vez mais poderosos e especulações sobre os seus riscos para o futuro da humanidade. Mas, enquanto a IA ameaça “dominar” o mundo, uma questão merece atenção: o que estamos fazendo com a nossa própria inteligência? Correio Braziliense

De um lado, temos a inteligência artificial, alimentada por dados, processamento e tecnologia. De outro, aquela que podemos chamar de inteligência natural: a capacidade humana construída por meio de leitura, estudo, troca de conhecimento e experiências adquiridas ao longo da vida. 
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Curiosamente, há um paradoxo nessa relação. Existem pessoas com grande capacidade intelectual, mas que não conseguem comunicar o que sabem. Dominam um assunto, mas, na hora de se expressar em uma conversa, reunião, negociação comercial ou palestra, não conseguem transmitir esse conhecimento com a mesma força. Falam sem intencionalidade, clareza ou capacidade de despertar o interesse de quem escuta. É justamente aí que entra a oratória. 
Estamos nos acostumando a terceirizar para a IA tarefas do dia a dia. Em segundos, ela produz uma reportagem, estrutura uma petição ou elabora um relatório. Atividades que antes exigiam pesquisa, organização das ideias, memória e construção de raciocínio agora podem ser realizadas por uma ferramenta. 
Nesse cenário, o tempo passa a ser uma moeda valiosa. Economizá-lo virou sinônimo de performance, e o risco aparece quando a IA deixa de apoiar o pensamento e passa a substituí-lo. Como o cérebro é plástico, ele se adapta ao que pratica. Regiões como o córtex pré-frontal e o hipocampo participam ativamente desse processo. Quando terceirizamos essas tarefas com frequência, exercitamos menos esses circuitos e, com o tempo, algumas habilidades perdem agilidade. 
A oratória faz o movimento contrário: estimula o cérebro a trabalhar, amplia o repertório próprio e exige que esse conteúdo seja organizado e exteriorizado. É nesse contexto que entram suas três dimensões. A comunicação verbal está nas palavras, no repertório e na construção da narrativa. A não verbal amplia essa mensagem por meio de gestos, postura e expressões. Já a paraverbal valoriza o conteúdo pela maneira como a voz o conduz, com variações de ritmo, volume, pausas e entonação. 
E quando falamos de repertório e construção de narrativa, Aristóteles segue como referência desde o século IV a.C. Em Retórica, ele já mostrava que uma boa comunicação combina três forças: ethos, a credibilidade de quem fala; pathos, a capacidade de emocionar; e logos, a sustentação da mensagem por argumentos, dados e evidências. Séculos depois, Dale Carnegie, em 1936, e Robert Cialdini, em 1984, mostraram, cada um à sua maneira, que a conexão humana continua no centro da comunicação. 
Na prática, como professora e mentora de oratória, tenho percebido em sala de aula pessoas cada vez mais dependentes de textos prontos, slides e “colas” para se apresentar. O que deveria servir de apoio tornou-se uma muleta. Existe uma diferença enorme entre decorar um texto e dominar uma ideia. 
É justamente quando percebemos que a nossa narrativa ganha força ao carregar a nossa história, os nossos sentimentos e as nossas experiências que entendemos o valor daquilo que a inteligência artificial não consegue reproduzir por inteiro: a nossa inteligência natural. É ela que dá à comunicação um DNA próprio, feito de repertório, memória, vivência e capacidade de criar vínculos. 
E é aí que o tempo volta à cena. É por falta dele que recorremos à IA para escrever uma mensagem, uma matéria ou um relatório. E, curiosamente, é também a falta de tempo a principal desculpa para não estudar, praticar e investir na própria comunicação. A tecnologia acelera processos, mas não pode servir de álibi para terceirizarmos aquilo que nos torna únicos. Em tempos de respostas prontas, reservar tempo para desenvolver a própria voz é um investimento essencial. 
Tempo, tempo, tempo. Use-o a seu favor. Afinal, comunicar é humano e, no “ao vivo”, nenhuma IA fala por você.