Superação

De bairro periférico a concursada: a trajetória que mãe e filha repetiram

Juliana cresceu em Codó (MA), passou por três cursos com bolsa e foi aprovada em concurso. A mãe, que estudava de madrugada enquanto trabalhava como doméstica, chegou antes: formou-se em pedagogia e também é concursada

EuEstudante
postado em 11/10/2026 06:00 / atualizado em 11/10/2026 06:00
Arquivo Pessoal -  (crédito: Juliana se formou em direito e foi aprovada em concurso público)
Arquivo Pessoal - (crédito: Juliana se formou em direito e foi aprovada em concurso público)
Por Ana Bispo Calisto*
Juliana Magalhães cresceu em um bairro de Codó, no Maranhão, ao lado da mãe, Maria Francisca Magalhães, que trabalhava como empregada doméstica. As duas viviam com poucos recursos e contavam com o apoio da avó de Juliana. Na infância, a realidade da família era distante da que ela vive hoje. “Eu cresci num bairro periférico. Daqui da cidade, a minha mãe era empregada doméstica, mãe solo. Nós morávamos só nós duas”, conta. 
O esporte foi uma das primeiras oportunidades que apareceram no caminho. Juliana estudava em escola pública e costumava jogar bola na rua com as amigas. O desempenho chamou a atenção e a levou a participar dos jogos escolares. No futsal, destacou-se e conquistou uma bolsa de estudos.
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A oportunidade permitiu que continuasse os estudos em uma escola particular. Posteriormente, outra bolsa garantiu sua permanência na instituição. Enquanto a filha avançava na vida escolar, Maria também buscava novas possibilidades e começou a estudar para concursos. 
A família, porém, ainda enfrentava dificuldades financeiras. Juliana lembra que a mãe precisava conciliar o trabalho doméstico com os custos da educação da filha. “A gente não tinha muitas condições. A bolsa da escola só cobria a mensalidade, ela tinha que pagar os livros”, relata. 

A opção pelo direito 

Depois de concluir o ensino médio, Juliana deixou Codó para estudar em São Luís. Sem condições de pagar um apartamento, morou em uma casa de estudantes e ingressou na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para cursar química. A graduação, entretanto, não correspondia ao que desejava. Posteriormente, conseguiu uma bolsa para cursar fonoaudiologia em uma instituição particular. “Porém, eu tinha que continuar nos dois. Na federal porque tinha o auxílio moradia. E fonoaudiologia, na tentativa de me formar em algo que fosse diferente daquilo que eu estava”, relata . 
A mudança veio depois de refazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Juliana conseguiu uma bolsa para estudar direito em Caxias, cidade próxima a Codó. O início da graduação foi marcado por outra dificuldade. Ela entrou quase dois meses depois do começo das aulas e chegou a ser alertada de que poderia perder o semestre. Decidiu, porém, recuperar o conteúdo perdido. “Graças a Deus deu tudo certo. Consegui recuperar tudo, todas as matérias”, afirma. A rotina incluía, aproximadamente, duas horas de viagem entre Codó e Caxias. Juliana saía de casa no fim da tarde e retornava próximo da meia-noite.  

Ajuda a outros estudantes 

Exemplo que vem da mãe: Maria estudou e largou a antiga profissão
Exemplo que vem da mãe: Maria estudou e largou a antiga profissão (foto: Arquivo Pessoal)

Ela afirma que sua mãe, Maria, foi sua inspiração. “Ela trabalhava de doméstica e começou  também a estudar para concurso”, conta. Maria Francisca Magalhães, que colocava os pés em balde de água gelada para se manter acordada estudando durante a madrugada, começou a carreira no  magistério, formou-se em pedagogia e hoje é concursada.
A dedicação de Juliana resultou na conclusão da graduação em direito e na aprovação em concurso público. Conquista que também despertou o desejo de ajudar outras pessoas que enfrentavam dificuldades semelhantes às suas. Juliana passou a compartilhar conteúdos e materiais preparatórios nas redes sociais, com foco em candidatos que não têm condições de pagar cursos e apostilas. “Eu sempre vendo os materiais bem barato porque eu sei como é difícil. Tem uma parte da população que não tem acesso justamente por isso”, explica. 
Hoje, além de atuar no serviço público, ela utiliza o Instagram para orientar concurseiros e compartilhar experiências sobre a preparação para as provas. A iniciativa busca ampliar o acesso aos estudos e auxiliar outras pessoas a conquistarem aprovação. Para Juliana, a mudança proporcionada pela educação ultrapassa sua própria trajetória. 
A menina que cresceu em bairro periférico, filha de empregada doméstica e sem referências familiares de pessoas aprovadas em concursos, hoje compartilha com outros candidatos os conhecimentos que adquiriu ao longo do caminho. “O conhecimento, o estudo, mudou totalmente a minha vida”, conclui. 
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá 

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