Contingenciamento do GDF pode travar os concursos da educação, da PM e do metrô?
Seleções somam quase 13 mil vagas. O TCDF diz que as vedações fiscais não estão em vigor. Professores avaliam que o risco é de atraso, não de perder a vaga
postado em 11/10/2026 06:00 / atualizado em 11/10/2026 06:00
. - (crédito: Maurenilson)
Valéria Nunes, 48 anos, estuda há sete meses, seis horas por dia. A psicóloga mira o cargo de analista em políticas públicas e gestão educacional, na área de apoio administrativo, no concurso da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF), com salário inicial de R$ 5.382,91. Gasta cerca de R$ 300 por mês com a preparação. Com a autorização do concurso, “a rotina de estudos ficou mais intensa”, conta. O que está em jogo vai além do salário: “Tem a estabilidade e a possibilidade de melhorar a vida da família.
Valéria está na fila de um dos três concursos que o DF prepara. O da Educação, com 10.604 vagas, e o da Companhia do Metropolitano do DF (Metrô-DF), com 224 vagas, foram autorizados por portaria. O da Polícia Militar (PMDF), para o qual a corporação estuda abrir 2.050 vagas, ainda depende de autorização. Nenhum tem edital, e todos esbarram na mesma dúvida: as contas do governo vão permitir que os aprovados sejam chamados?
A resposta passa pelo artigo 167-A da Constituição, que veta reajustes, a criação de cargos e a realização de concursos, salvo para repor vagas abertas, quando as despesas correntes ultrapassam 95% das receitas correntes. Segundo o Tribunal de Contas do DF (TCDF), o índice ficou em 94,62% no acumulado de julho de 2025 a junho de 2026, abaixo do limite, e as vedações não estão em vigor hoje no DF. Na apuração anterior, o indicador havia sido de 96,39%. O tribunal diz ainda que, mesmo nos períodos em que o limite foi superado, o GDF nunca acionou as restrições facultativas, como a suspensão de concursos, decisão que cabe ao governador. O TCDF ressalva que estuda uniformizar o método de cálculo, porque divergências sobre quais receitas e despesas entram na conta geram resultados distintos. João Leles: tradição do GDF é nomear os aprovados
(foto: Arquivo Pessoal)
EEm nota publicada em 30 de maio, no site da Secretaria de Economia, o governo afirmou que o acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dois dias antes, para socorrer o Banco de Brasília (BRB), reforça regras fiscais preexistentes. O empréstimo do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) previsto no acordo, porém, ainda não foi liberado, e o caso retornou ao STF.
Os professores ouvidos pelo Correio apostam que os aprovados serão chamados, ainda que com atraso. João Carlos Alves Leles, professor de direito financeiro e orçamento público do IMP Concursos, diz que “a praxe no DF tem sido a absorção contínua dos aprovados”. Segundo ele, o governo costuma recorrer também ao cadastro reserva, quando o espaço fiscal permite. A velocidade das posses depende dos limites de gasto e da arrecadação, pondera, mas “a necessidade prática do governo é a maior garantia de que as chamadas vão se concretizar”.
Luis Henrique: Risco de um pequeno atraso
(foto: Gui Carsan)
Luís Henrique de Morais Alves, 31, professor do QConcursos, faz a leitura jurídica. “Os aprovados dentro das vagas têm direito à nomeação durante a validade do concurso”, afirma. O STF admite exceção em caso de crise grave e superveniente, explica, mas o GDF teria dificuldade em usá-la, porque “a situação fiscal já era conhecida”. Uma lei distrital de fevereiro, a 7.843/2026, também suspendeu, até 31 de dezembro, a contagem da validade dos concursos que estavam em vigor, o que impede que o prazo corra contra quem aguarda nomeação. “O risco é de um pequeno atraso, não de perder a vaga”, resume.
Thiago Medeiros, 38 anos, professor do IMP Concursos, vai na mesma linha. Para ele, o acordo do BRB “pode trazer algumas limitações e exigir mais planejamento do GDF, mas não significa, por si só, que os aprovados nesses concursos deixarão de ser chamados”
A aprovação, porém, não garante uma nomeação rápida. A portaria que autorizou o concurso da Educação, de outubro de 2025, obriga o governo a preencher, nos 12 meses seguintes ao resultado, ao menos 10% das vagas. O restante pode ser convocado ao longo da vigência do concurso, conforme a necessidade e o orçamento.
Enquanto as contas não se resolvem, o calendário avança. Thiago projeta as três provas para 2027. Para ele, a Educação deve sair na frente, com edital ainda neste ano e prova nos primeiros meses do próximo; o Metrô viria ao longo do primeiro semestre e a PM, entre o fim do primeiro semestre e o segundo. O conselho dele vale para as três seleções: “Quem começa antes do edital ganha tempo de maturação e chega ao período pós-edital em condições de aprofundar e ajustar a preparação, em vez de aprender todo o conteúdo às pressas”.
Seleções e ritmos
Valéria está na fila de um dos três concursos do GDF
(foto: Arquivo Pessoal)
No concurso de Valéria, o próximo passo tem data. Ao Correio, a assessoria de comunicação da SEEDF informou que a banca organizadora deve ser divulgada em 28 de outubro e que o edital tem previsão de publicação em dezembro. Segundo a secretaria, são 2.650 vagas de nomeação imediata e 7.954 de cadastro reserva, todas de nível superior
A maior parte é para professor: 1.879 vagas imediatas e salário inicial de R$ 6.749,10, o mesmo do pedagogo-orientador, que tem 50 vagas. O cargo que Valéria disputa, o de analista, tem 550 vagas, incluindo as de analista-monitor, e paga R$ 5.382,91. O analista-monitor, de 30 horas, recebe R$ 4.037,17. O gestor tem 171 vagas e salário de R$ 6.108,54. O termo de referência da contratação, publicado no site da secretaria, antecipa o formato da prova: 120 itens de certo ou errado, com desconto por resposta errada, uma redação e, para professores e gestores, um estudo de caso.
A rede pública tem, hoje, 25.028 professores da carreira e 16.692 temporários, de acordo com a assessoria: quatro em cada dez docentes não são efetivos. Com a lotação dos 2.681 professores do concurso de 2022 nomeados em 2 de setembro, iniciada em 6 de outubro, a secretaria prevê que os contratos temporários caiam para cerca de 14 mil.
O TCDF cobra a recomposição do quadro. Em processo motivado por representação do Ministério Público de Contas, o plenário concluiu, em 13 de maio, que as vagas dos últimos concursos não foram suficientes para repor as saídas de efetivos. As secretarias de Educação e de Economia têm 180 dias, a partir de 22 de maio, para apresentar um cronograma. Segundo o tribunal, apenas a Economia se manifestou. A SEEDF diz que o prazo termina em novembro e que, com as nomeações feitas desde o edital de 2022, as vagas de professores efetivos apontadas pelo tribunal foram recompostas.
No Metrô-DF, a autorização veio na Portaria nº 690, publicada no Diário Oficial do DF em 15 de setembro: 224 vagas em seis carreiras, de operador de transporte a analista metroferroviário, além de cadastro reserva. Segundo Thiago, o último concurso da companhia foi em 2013.
Em nota ao Correio, o Metrô-DF informou que o edital para a contratação da banca sai até 31 de dezembro. A distribuição das vagas, os salários e o início das nomeações ainda não estão definidos, segundo a assessoria. O Sindicato dos Metroviários do DF (SindMetrô-DF) considera o número insuficiente. Para Amanda Souza, secretária de Comunicação e Mobilização da entidade, seriam necessários ao menos 600 novos trabalhadores apenas para a operação.
A PMDF fez o caminho inverso: tem banca, mas não tem autorização. A corporação contratou o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), conforme extrato publicado no Diário Oficial do DF, e confirmou que a banca vai organizar a seleção de soldado. Ao Correio, o Centro de Comunicação Social da PMDF disse que estão em estudo 2 mil vagas para praças combatentes e 50 para músicos da Banda de Música. Não há cronograma nem ato formal, afirma a corporação, apenas o anúncio do comandante-geral, coronel Flávio Mendonça Palhares, e trâmites internos. O processo aguarda parecer jurídico e deve seguir até o fim de outubro para a Secretaria de Economia, que autoriza o concurso.
Quem mira a farda precisa ter até 30 anos, diploma de nível superior em qualquer área e altura mínima de 1,60 m para homens e de 1,55 m para mulheres, segundo a PMDF. A carteira de habilitação deve ser exigida porque algumas disciplinas do curso de formação, que dura de seis a oito meses, dependem dela. De acordo com a corporação, o soldado de 2ª classe começa com R$ 6.802,04 brutos e passa para R$ 9.100,34 após a progressão para a 1ª classe. Com os auxílios moradia e alimentação, que não estão incluídos nesses valores, o ganho inicial chega a R$ 8.004,53 por mês para quem não tem dependentes e a R$ 8.709,51 para quem tem.
Como usar a espera
Para os candidatos da Educação, a primeira dúvida é de aritmética. O termo de referência da SEEDF prevê desconto por resposta errada, mas o tamanho dele só sai no edital. “Quando a penalização é menor, há mais espaço para arriscar”, explica Thiago. No último concurso de efetivos, em 2022, uma errada anulava uma certa e, nesse modelo, segundo ele, quem não tem nenhum elemento para julgar o item faz melhor em não marcá-lo. “Quando o edital esta- belecer o valor desse desconto, será possível calcular com precisão quando vale a pena arriscar e quando é melhor deixar a questão em branco.”
Para a PM e o Metrô, Thiago indica o edital anterior como mapa. O da PM, diz ele, é recente, e o conteúdo dos concursos para soldado costuma mudar pouco de uma seleção para outra. O do Metrô tem 13 anos e precisa ser lido à luz das leis que mudaram desde então.
Para a parte discursiva, que inclui o estudo de caso, novidade deste concurso, Thiago recomenda conteúdo antes da técnica. Não adianta treinar dezenas de situações práticas, explica, se o candidato ainda não sabe qual norma, princípio ou conhecimento pedagógico aplicar. Pelo termo de referência, só tem a discursiva corrigida quem fica entre os mais bem classificados na prova objetiva. “Neste momento, o melhor treino para essa etapa é dominar o conteúdo que servirá de base para a resposta mais adiante.”
Thiago aponta, ainda, um núcleo previsível: a Lei Distrital de Concursos (Lei nº 4.949/2012) obriga os editais, como o da Educação, a cobrar a realidade do DF e do Entorno, o Plano Distrital de Políticas para Mulheres, a Lei Orgânica do DF, o regime jurídico dos servidores e noções de primeiros socorros. Com essa base, dá para estudar para mais de um concurso, desde que as carreiras sejam afins. Quem mira a PM, destaca, aproveita boa parte da preparação para agente policial de custódia da Polícia Civil, carreira que, segundo ele, também está no radar de novos concursos. “Estudar ao mesmo tempo para áreas muito diferentes costuma dividir demais a atenção do candidato e tirar profundidade”, alerta.
O erro mais comum, para Thiago, é estudar sem método: abrir uma disciplina hoje, outra amanhã, ficar com as que agradam e pular as difíceis. Ele propõe uma sequência: aprender a base, avançar no conteúdo, resolver muitas questões, revisar e acompanhar o próprio desempenho para saber em quais pontos precisa melhorar. Outra armadilha, segundo ele, é estudar só o que se domina, quando a classificação também depende das matérias em que se é mais fraco. E desconfia das promessas de atalho que circulam na internet. “A aprovação em concurso depende muito menos de uma fórmula mágica e muito mais de consistência.
Ansiedade
Luísa Jobim Santi, 28 anos, conhece essa maratona. Estudava ouvindo a própria voz: gravava áudios sobre as matérias e os escutava no caminho para o trabalho, no retorno para casa e até na academia. A psicóloga cumpria uma jornada de 35 a 40 horas semanais, entre a residência em psicologia jurídica no Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) e os atendimentos clínicos, e estudava nas brechas: de manhã cedo, antes do expediente; nos intervalos, com questões e flashcards; à noite, após o jantar.
Deu certo. Luísa foi a primeira colocada geral no concurso do Ministério Público da União (MPU) para o cargo de analista de psicologia. Ela mesma admite que aquela rotina não se sustentaria por muito tempo.'
Método, para Luísa, não basta. Mesmo conhecendo a teoria sobre ansiedade, ela sentiu o peso da prova. “O conhecimento técnico não me blindou do nervosismo. Fiquei muito nervosa”, conta. O que a sustentou foram a psicoterapia e uma lista de inegociáveis: ir à academia pelo menos três vezes por semana e ter pelo menos um encontro semanal com uma amiga. Na terapia, ela trabalhou a ideia de que, se não passasse, a trajetória não terminaria ali. “Lidar bem com a ansiedade não significa necessariamente deixar de senti-la.”
Os sinais de alerta, segundo ela, são pensamentos catastróficos, sensação de impotência, dificuldade persistente para dormir, irritabilidade e queda na concentração, sobretudo quando deixam de ser pontuais e passam a afetar outras áreas da vida. Nesse ponto, a psicóloga recomenda rever o ritmo, apoiar-se na família e nos amigos e, se o prejuízo persistir, buscar ajuda profissional. “Gosto muito de pensar na ansiedade como um mensageiro. A gente não precisa matar o mensageiro nem se revoltar contra ele; precisa entender o que ele quer comunicar.”
A pressão, para Luísa, tem um componente brasileiro. Num mercado de trabalho instável, a aprovação promete renda previsível, direitos e estabilidade e vira projeto de vida. É a conta que Valéria faz quando fala de estabilidade e família. “O desafio é reconhecer a importância daquela aprovação sem transformar uma prova na única chance de a sua vida dar certo”, diz Luísa.
Durante a preparação, ela anotava na agenda as horas de estudo. Não para se cobrar, e sim para olhar e pensar: “Estou fazendo o possível dentro da minha realidade”. É o conselho que ela deixa para quem está começando e se sente longe da lista de aprovados: “Você não precisa estar perto da aprovação hoje; precisa continuar avançando.”
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