Chovia na noite de 1º de abril de 2025 quando Mariana Veras de Oliveira Sales, 22 anos, estudante de administração da Universidade de Brasília (UnB), esperava pelo ônibus em uma parada perto do câmpus. Ao lado, outro universitário conversava com uma colega. Mariana riu de algo que ouviu, e os dois começaram a conversar. Ele disse que estudava engenharia de software. “Aí eu associei: ele faz software, a gente tá tentando criar um aplicativo”, conta. Antes de se despedir, fez uma afirmação que não sabia explicar: “Você vai ser meu sócio.”
O rapaz era Lucas de Oliveira Dias Marques Ferreira, também de 22 anos. Cinco meses depois, os dois fundaram a AETHRA Inova Simples para desenvolver o AMPIS (Apoio e Monitoramento para Proteção Integrada à Mulher), aplicativo que usa inteligência artificial para identificar sinais de violência e conectar mulheres à rede de proteção do Distrito Federal. Em 25 de agosto, a Câmara de Projetos da UnB aprovou um acordo de cooperação de cinco anos entre a universidade e a startup, em regime de cotitularidade. O processo aguarda a assinatura da reitoria.
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Da aula à startup
O AMPIS nasceu no primeiro semestre de 2025 na disciplina Gestão da Inovação, ministrada pela professora Josivania Silva Farias, do Departamento de Administração. O desafio era desenvolver uma proposta alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Mariana escolheu os ODS 5 (Igualdade de Gênero) e 16 (Paz e Justiça) e enfrentou resistência: uma colega perguntou se ela havia sofrido violência ao definir o tema. “A gente não precisa estar diretamente envolvido na violência para querer ajudar. Se a gente não trabalhar para melhorar as políticas públicas, quem é que vai?”, responde a estudante, que trabalhou em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) pelo programa Jovem Aprendiz.
Depois de conhecer Lucas na parada de ônibus, Mariana o convidou a construir o protótipo. Na véspera da entrega, os dois passaram a madrugada montando as telas. Ganharam o prêmio de melhor inovação da turma.
O problema
Embora o DF possua uma das redes de atendimento à mulher mais bem estruturadas do país, a capital registrou 28 feminicídios em 2025, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF), o que corresponde a uma taxa de 1,8 por 100 mil habitantes, acima da média nacional. No mesmo ano, foram 131 tentativas: uma mulher atacada a cada três dias, o que representa um aumento de 21,1% em relação a 2024.
O Policiamento de Prevenção Orientada à Violência Doméstica e Familiar (PROVID), da PM-DF, atendeu cerca de 115 mil mulheres desde 2019. O Viva Flor, do GDF, funciona como um botão de pânico para quem já tem medida protetiva. Esses serviços, porém, dependem de um passo anterior: a mulher precisa entrar no sistema formal. Segundo o Panorama de Violência Contra a Mulher do DF, 69,1% das vítimas de feminicídio na capital não haviam registrado ocorrência contra o agressor.
“A mulher que vive uma situação de violência muitas vezes não sabe a quem recorrer, quais serviços estão disponíveis ou mesmo como identificar determinadas condutas como formas de violência”, afirma, em nota, o PROVID do 1º Batalhão da PM-DF. É nesse intervalo, entre a percepção do risco e a decisão de buscar ajuda, que o AMPIS pretende atuar, com triagem por inteligência artificial, mapeamento atualizado da rede e encaminhamento para orientação jurídica e apoio psicológico.
O feedback
A primeira articulação institucional do grupo foi com o Provid, há pouco mais de um ano. A equipe considerava incluir funcionalidades relacionadas a tornozeleiras eletrônicas. Os policiais redirecionaram o foco. “Na internet há muitos dados desatualizados e muita dificuldade em encaminhar mulheres a outros locais de atendimento, de acordo com as necessidades de cada uma”, relata Lucas. O mapeamento da rede passou a ser uma das funcionalidades centrais do aplicativo.
A partir dali, o grupo foi encaminhado à Reunião de Redes do DF e convidado pela Secretaria da Mulher do DF para duas reuniões dedicadas ao projeto. A subsecretária Luana Maia e servidores da pasta contribuíram para o conceito do violentômetro, instrumento que classifica os níveis de agressão e foi incorporado à triagem do aplicativo.
Na UnB, além de Josivania, hoje vice-coordenadora do acordo, o projeto conta com o professor Antônio Nascimento Júnior, do Departamento de Administração, como coordenador, e a professora Carla Koike, do Departamento de Ciência da Computação, como supervisora técnica. O trabalho de conclusão de curso de Mariana, orientado por Nascimento Júnior, é um estudo de caso sobre o AMPIS. “É um exemplo de como uma atividade acadêmica pode ultrapassar a sala de aula e transformar-se em uma solução com potencial para gerar valor à sociedade”, avalia Josivania.
Como funciona
O AMPIS prevê quatro funcionalidades principais. A primeira é uma triagem por inteligência artificial que combina um questionário guiado com um diálogo em linguagem natural para ajudar a usuária a identificar o tipo e o nível de violência que pode estar vivenciando. A segunda é o mapeamento da rede de atendimento do DF, com dados atualizados de endereços, telefones e horários de funcionamento.
A terceira é o encaminhamento para orientação jurídica e apoio psicológico, com prioridade para a rede pública e para os núcleos de prática jurídica. A quarta é a arquitetura de privacidade, baseada no princípio de Privacy by Design e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O protótipo funciona no ambiente de desenvolvimento e roda em um emulador de celular. O modelo de inteligência artificial ainda não foi definido: a equipe avaliará opções de código aberto e ferramentas comerciais na fase final de testes. O aplicativo não está disponível nas lojas digitais. A previsão de lançamento é para o segundo semestre de 2027.
“Mais importante do que lançar rapidamente é construir uma solução segura, sustentável e efetivamente útil para as mulheres”, pondera Josivania.
O cenário
O AMPIS soma-se a iniciativas como o PenhaS (AzMina), o Maria da Penha Virtual (Direito Ágil/UFRJ) e o Todas por Uma. Em 29 de julho, o governo federal instituiu o Sistema Integrado Mulher Segura, plataforma para reunir dados sobre violência de todos os entes federativos, e regulamentou o monitoramento eletrônico de agressores.
“Nenhuma instituição, isoladamente, tem todas as respostas para um fenômeno tão complexo quanto a violência doméstica. A tecnologia, por si só, não resolve. Mas, quando construída a partir do diálogo com as instituições e com a realidade das vítimas, pode se tornar mais uma porta de acesso à informação e ao auxílio”, avalia, em nota, o PROVID do 1º Batalhão.
“Sentiu-se abraçada”
Após a aparição do grupo na TV Globo, a avó de Lucas ligou para contar o que sentiu ao ver o neto no telejornal. “Ela falou que se sentiu tão feliz ao saber que também havia um homem preocupado com a situação das mulheres. Naquele momento, disse que se sentiu muito abraçada”, relata o estudante. “Para mim, é um privilégio participar de um projeto desses. Eu tenho mãe, irmã, tia, prima e, de certa forma, contribuo para que a vida delas seja melhor”, completa.
Para Mariana, o incômodo é o motor. “Como mulher, eu me incomodo com a violência. Me incomodo ao assistir a um jornal e ver o que está acontecendo. Nós, como estudantes, ainda mais em uma universidade pública, temos que devolver um pouco do nosso conhecimento à sociedade”, conclui.
Como mulher, eu me incomodo coma violência. Eu me incomodo ao assistir um jornal e ver o que está acontecendo.Eu acho que nós, como estudantes, ainda mais em uma universidade pública, devemos devolver um pouco do nosso conhecimento. Mariana Veras de Oliveira Sales, aluna da UnB
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
