
No Distrito Federal, a covardia contra as mulheres tem sido uma constante: em menos de 15 dias, três homens, em diferentes regiões, as mataram de forma brutal. No caso mais recente, ocorrido na madrugada desta quinta-feira (10/9), o corpo de uma mulher, ainda não identificada, foi encontrado despido e parcialmente queimado na AR 18, Conjunto 01, Sobradinho II. O suspeito fugiu e ainda não foi localizado.
Apesar de a investigação estar em fase inicial, sabe-se que o crime seguiu um padrão conhecido em casos de violência de gênero: excesso de brutalidade, golpes direcionados a rostos, seios e genitais — indicando a destruição de traços de feminilidade —, arma branca, tentativa de ocultação do cadáver e fuga. Neste último feminicídio, o suspeito teria colocado um colchão sobre o corpo da vítima e ateado fogo.
E, ainda que não haja uma confirmação de que este crime foi, de fato, um feminicídio, toda morte violenta de mulher é, no DF, inicialmente registrada desta forma. A diretriz, estabelecida por meio da Norma de Serviço n.º 004/2017 da Polícia Civil do DF (PCDF), visa evitar a subnotificação e garantir que os investigadores partam do princípio de que a motivação envolveu violência doméstica ou discriminação de gênero desde o início.
Oficialmente, 15 mulheres foram assassinadas por serem mulheres neste ano, conforme dados da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios (CTMHF), da Secretaria de Segurança do DF (SSP-DF). O painel, que detalha onde, quando e de que forma os homens as mataram, ainda não contempla os dois crimes mais recentes deste mês. A última atualização é de 3 de setembro.
Os outros crimes
Na segunda-feira (7), Flávia Gomes, 36 anos, voltava do supermercado com a filha de 4 anos no colo, no Itapoã, quando foi esfaqueada por Anderson Gonçalves, 44, com quem mantinha uma relação de mais de nove anos. Ela foi ferida no peito, no abdômen e nas costas. “A menina permaneceu próxima à cena do crime até o momento em que uma vizinha a pegou e levou para dentro de casa”, contou uma testemunha ao Correio.
Pessoas próximas a Flávia sabiam que a relação era marcada por violência psicológica e física. Em uma das ocasiões, Anderson já havia agredido a companheira na frente de toda a família. Ela era perseguida e ameaçada. Era também, segundo testemunhas, uma mulher trabalhadora, "só pensava em dar o melhor para os filhos", disse uma das irmãs. Apesar dos episódios de violência, a vítima não tinha registrado boletim de ocorrência contra o autor. “Dependência emocional”, acrescentou a irmã.
Em 29 de agosto, João Alberto Mesquita da Silva, 44, matou a ex-esposa, Jussiara Ferreira dos Santos, 42, em uma kitnet na QR 504 de Samambaia. As investigações apontam que uma "amiga" da vítima, Gisele Moreira Silva, 44, teria ajudado o feminicida nas facadas. Os golpes atingiram a região do dorso e provocaram uma perfuração no intestino. Ela foi levada ao hospital, mas morreu dois dias depois. João Alberto e Gisele foram presos.
Recorde
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde a criação da tipificação penal do crime, em 2015. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizaram 1.571 feminicídios ao longo do ano passado, um aumento de 4% em relação aos 1.504 casos registrados em 2024. O número representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia em razão da condição de gênero.
Os feminicídios têm rosto e modus operandi. De acordo com o relatório, 96,4% dos crimes de autoria identificada foram cometidos por homens, sendo 79,8% parceiros ou ex-parceiros da vítima — 60,9% parceiro íntimo e 18,9% ex-parceiro —, e 12,1% é familiar. Entre as vítimas, 62,5% foram mortas dentro de sua residência, 65,1% eram negras e 56,5% tinham faixa etária entre 25 e 44 anos.
Este crime acontece raramente de forma repentina. Em regra, o feminicídio é precedido por sucessivos episódios de violência física, moral, sexual, psicológica ou patrimonial. São sinais de alerta. A prevenção, segundo especialistas, passa pela identificação precoce dos casos de maior risco, pela fiscalização efetiva das medidas protetivas, pela resposta imediata ao seu descumprimento e pela atuação integrada entre polícia, Ministério Público, Judiciário e rede de assistência.
Onde pedir ajuda:
» Ligue 190: Polícia Militar (PMDF);
» Ligue 197: Polícia Civil (PCDF);
» Ligue 180: Central de Atendimento à Mulher (Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres). Por esse canal, também podem ser feitas denúncias de forma anônima, 24 horas por dia, todos os dias.
Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (Deam):
Deam 1: EQS 204/205, Asa Sul (atende todo o DF, exceto Ceilândia)
Deam 2: St. M QNM 2, Ceilândia (atende Ceilândia)
» Ouvidoria das Mulheres (Conselho Nacional do Ministério Público): para encaminhamento de denúncias diretamente ao Ministério Público.
WhatsApp: (61) 9366-9229
Telefones: (61) 3315-9467 / 3315-9468
» Ouvidoria Nacional da Mulher (Conselho Nacional de Justiça): para questões e denúncias sobre o andamento de processos judiciais.
Telefone: (61) 2326-4615

Cidades DF
Cidades DF
Cidades DF