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Economia em crise, a prioridade na eleição presidencial no Irã

Com 83 milhões de habitantes, é o país do Oriente Médio mais afetado pela covid-19, que causou 81.000 mortes, segundo dados oficiais

Agência France-Presse
postado em 10/06/2021 10:45
 (crédito: Isabel Fleck/CB)
(crédito: Isabel Fleck/CB)

O Irã, atingido pelas sanções dos Estados Unidos, sofre uma dramática crise social para a qual a recuperação econômica é anunciada como prioridade do presidente que será eleito nas eleições de 18 e 25 de junho.

O comerciante do grande bazar de Teerã, Fakhredin, de 80 anos, quase sente falta do "tempo da guerra com o Iraque" (1980-1988): "Pelo menos tínhamos trabalho".

"Estamos enfrentando a mais grave crise macroeconômica no Irã desde a revolução de 1979, uma profunda crise social marcada pelo colapso do poder de compra de grande parte dos iranianos", diz Thierry Coville, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais (IRIS) de Paris.

A República Islâmica havia recuperado o crescimento após o acordo internacional sobre seu programa nuclear, assinado em Viena em 2015, e com a consequente suspensão gradual das sanções internacionais.

Mas mergulhou em uma recessão violenta em 2018 com o restabelecimento das sanções americanas, depois que o pacto foi abandonado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB do Irã caiu mais de 6% em 2018 e outros 6,8% no ano seguinte, embora tenha se estabilizado em 2020.

A inflação, que o governo do ex-presidente Hassan Rohani conseguiu reduzir para menos de 10%, disparou ao mesmo tempo que a moeda nacional, o rial, despencava, e deve chegar a 39% este ano, segundo projeções do FMI.

O desemprego ficará em torno de 20%, segundo Coville.

Sem projetos 


Nas lojas de Teerã, as conversas giram em torno da escassez de carne, ovos e leite.

E os estudantes, por sua vez, desistem dos projetos de estudos no exterior, por falta de meios.

Em março, no Noruz, o Ano Novo iraniano, as imagens de longas filas em frente a lojas subsidiadas para tentar obter frango ou peixe a preços acessíveis chocaram a opinião pública.

Além disso, desde o restabelecimento das sanções de Washington, a maioria dos investidores estrangeiros deixou o Irã, temendo retaliação dos Estados Unidos.

O país está, portanto, isolado do sistema financeiro internacional e perdeu vários de seus clientes de petróleo, privando o governo de recursos essenciais.

Sem esses recursos, e "para continuar pagando as despesas correntes, os salários dos funcionários públicos, o governo é forçado a parar de investir", explica Coville.

Mas "essa política de baixo investimento perdura, e não é por acaso que começamos a ver cortes de energia elétrica no Irã", acrescenta, aludindo à intensificação das sanções internacionais e ocidentais, iniciadas em 2010, para tentar parar o polêmico programa nuclear iraniano.

"Desde 2011, cerca de 80 milhões de pessoas da classe média caíram para a classe média baixa e quatro milhões aumentaram as fileiras dos pobres", escreve o economista Djavad Salehi-Isfahani em um estudo recente.

A covid-19 "ampliou o impacto recessivo das sanções americanas" e "o governo simplesmente não tem dinheiro para compensar" as consequências sociais, enfatiza Coville.

O Irã, com 83 milhões de habitantes, é o país do Oriente Médio mais afetado pela covid-19, que causou 81.000 mortes, segundo dados oficiais.

Para sair da crise, os sete candidatos à presidência, incluindo os cinco conservadores que criticam o acordo de Viena, concordam que a prioridade é obter o fim das sanções americanas por meio de negociações em curso, para que Washington volte ao acordo.

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