CUBA

Após proibição de protestos, EUA pedem a Cuba que respeite direitos dos cidadãos

Autoridades da ilha socialista vetam manifestação de opositores marcada para 15 de novembro e acusam os organizadores de pretenderem mudar o regime. Ativistas mantêm as passeatas

Rodrigo Craveiro
postado em 13/10/2021 06:00
 (crédito: Yamil Lage/AFP)
(crédito: Yamil Lage/AFP)

Na noite de ontem, era impossível se comunicar com o dramaturgo Yunior García Aguilera, líder do grupo Archipiélago e responsável por organizar, em Havana, as manifestações que estavam agendadas de 15 de novembro e ocorreriam em várias cidades de Cuba. “Eles retiraram a internet de Yunior, da esposa dele e dos sogros”, contou ao Correio a ativista e empreendora Saily González Velázquez, 30 anos, coordenadora dos protesto em Santa Clara, a 260km da capital.

Horas antes, uma carta assinada por Alexis Acosta Silva, intendente do Conselho da Administração de Havana Velha, e endereçada a Yunior, anunciava a proibição dos atos de 15 de novembro e determinava o seu “caráter ilícito”.

O governo do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, justificou que a marcha teria “fins desestabilizadores” e visava uma mudança no regime. Também acusou os organizadores de terem vínculos com Washington. A mesma carta foi enviada a Saily e a representantes do grupo Archipiélago em cinco províncias diferentes: Holguín, Cienfuegos, Pinar del Río, Las Tunas e Guantánamo.

O Departamento de Estado norte-americano condenou o veto às passeatas e fez um pedido expresso às autoridades cubanas. “É a liberdade de expressão, é a liberdade de reunir pacificamente que o governo negou ao seu povo”, declarou Ned Price, porta-voz da chancelaria de Washington.

“Pedimos ao governo de Havana que respeite as liberdades e os direitos fundamentais do povo cubano.” Antes de se tornar incomunicável, Yunior disse à agência France-Presse que “qualquer cubano sensato deseja que em Cuba haja mais democracia, mais progresso e mais libedade, em todos os sentidos”.

Desafio

Às 19h25 de ontem (hora de Brasília), o grupo Archipiélago anunciou, no Facebook, a decisão de “marchar, cívica e pacificamente, pelos nossos direitos”. “Frente ao autoritarismo, responderemos com mais civismo”, afirmou. Saily González garantiu ao Correio que manterá os protestos em Santa Clara.

“A proibição das manifestações é uma demonstração a mais do caráter totalitário do governo. Também vejo essa negativa como uma falta de respeito para com o povo cubano. Eles alegaram que temos vínculos com organizações subversivas financiadas pelos EUA. Isso me parece extremamente desrespeitoso, pois usam o argumento de que a sociedade civil se mostra incapaz de pensar por si mesma e sempre precisa responder aos interesses estrangeiros. Somos pessoas que se deram conta da necessidade de direitos e liberdades em Cuba”, desabafou.

Por telefone, de Havana, a cubana Yoani Sánchez — jornalista dissidente e diretora do diário independente 14ymedio.com — afirmou à reportagem que a resposta das autoridades “mostra a fragilidade e a debilidade do regime de Cuba”.

“Ao dizer ‘não’ à marcha programada para 15 de novembro, uma manifestação pacífica, organizada com antecedência por pessoas que cumpriram as exigências legais, vemos que o castrismo se encontra em um ponto de extremo nervosismo. O oficialismo preferiu mostrar-se rígido e inflexível. Optar por essa estratégia é como disparar contra o próprio pé”, ironizou.

“Não é segredo que este sistema se encontra em seus estertores. Os protestos de 11 de julho passado mostraram que o modelo político-econômico perdeu a ascendência e o apoio maioritário dos cidadãos cubanos.”

Para Yoani, a proibição terá “custos inimagináveis” para o castrismo. “Isso vai criar mais solidariedade e mais paixão popular pelo exercício do direito cívico ao protesto pacífico. A resposta oficial foi muito desacertada e pode levar a ilha a um conflito civil de proporções inimagináveis”, advertiu. A dissidente admitiu ter “ilusões e esperanças” de que a nova geração cubana siga a natureza cosmopolita e libertária. “São pessoas que não sentem conexão emocional com a ideologia que impera em Cuba”, disse Yoani.

As justificativas para o banimento

A carta enviada a Yunior García Aguilera, líder do grupo Archipiélago, e assinada por um representante do regime cubano, afirma que “os promotores e suas projeções públicas, assim como os vínculos de alguns deles com organizações subversivas e agências financiadas pelo governo dos EUA, têm a intenção clara de promover uma mudança de sistema político em Cuba”. Segundo o texto, a passeata de 15 de novembro “recebeu apoio público de congressistas norte-americanos, operadores políticos e meios de comunicação que encorajam ações contra o povo cubano, tentam desestabilizar o país e instam à intervenção militar”.

Divulgação
Divulgação (foto: Divulgação)

Vozes da oposição

“Durante décadas, cada vez que alguém em Cuba criticou o modelo político, econômico e social, foi rotulado como mercenário, como uma pessoa paga por uma potência estrangeira ou a serviço dos EUA. As respostas de hoje (ontem) do governo sobre a marcha pacífica não surpreendem a ninguém. É o velho argumento de afirmar que os conflitos não são internos ou que as pessoas não estejam inconformadas com o regime, mas que se trata se algo fora da ilha.”
Yoani Sánchez, jornalista e blogueira dissidente, diretora do diário independente 14ymedio.com, moradora de Havana

 

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal (foto: Vladimir Rodas/Divulgação)

“As consequências reais da proibição de nosso protesto são um sinal de que as autoridades poderiam arremeter contra a sociedade civil, contra as pessoas que marcharão. Nós manteremos os protestos de 15 de novembro. Esperamos repressão. Eles se sentem com todo o direito de reprimir a nossa iniciativa.”
Saily González Velázquez, 30 anos, organizadora dos protestos em Santa Clara, a 260km de Havana

 

  • Arquivo Pessoal
    Arquivo Pessoal Foto: Vladimir Rodas/Divulgação
  • Divulgação
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As justificativas para o banimento

 (crédito: Divulgação)
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A carta enviada a Yunior García Aguilera, líder do grupo Archipiélago, e assinada por um representante do regime cubano, afirma que “os promotores e suas projeções públicas, assim como os vínculos de alguns deles com organizações subversivas e agências financiadas pelo governo dos EUA, têm a intenção clara de promover uma mudança de sistema político em Cuba”. Segundo o texto, a passeata de 15 de novembro “recebeu apoio público de congressistas norte-americanos, operadores políticos e meios de comunicação que encorajam ações contra o povo cubano, tentam desestabilizar o país e instam à intervenção militar”.

 

Vozes da oposição

 (crédito: Vladimir Rodas/Divulgação)
crédito: Vladimir Rodas/Divulgação


“Durante décadas, cada vez que alguém em Cuba criticou o modelo político, econômico e social, foi rotulado como mercenário, como uma pessoa paga por uma potência estrangeira ou a serviço dos EUA. As respostas de hoje (ontem) do governo sobre a marcha pacífica não surpreendem a ninguém. É o velho argumento de afirmar que os conflitos não são internos ou que as pessoas não estejam inconformadas com o regime, mas que se trata se algo fora da ilha.”
Yoani Sánchez, jornalista e blogueira dissidente, diretora do diário independente 14ymedio.com, moradora de Havana

 

“As consequências reais da proibição de nosso protesto são um sinal de que as autoridades poderiam arremeter contra a sociedade civil, contra as pessoas que marcharão. Nós manteremos os protestos de 15 de novembro. Esperamos repressão. Eles se sentem com todo o direito de reprimir a nossa iniciativa.”
Saily González Velázquez, 30 anos, organizadora dos protestos em Santa Clara, a 260km de Havana

 

Rainha Elizabeth II aparece com bengala

 (crédito: Frank Augstein/AFP)
crédito: Frank Augstein/AFP

Rainha Elizabeth II aparece com bengalaAos 95 anos, a rainha Elizabeth II foi fotografada, ontem, caminhando com uma bengala — é a primeira vez desde 2004 que a monarca utiliza o acessório. Naquele ano, ela tinham sido submetida a uma cirurgia no joelho. Vestida com um conjunto azul combinando, Elizabeth II compareceu a uma celebração na Abadia de Westminster, em Londres, para marcar o centenário da Royal British Legion, uma organização de apoio aos soldados e veteranos do Exército. Para poupar esforços e caminhar menos, ela entrou na igreja por uma entrada secundária. Na saída da abadia, a rainha, muito sorridente, caminhou carregando um buquê de flores na mão direita e empunhando a bengala com a esquerda. O Palácio de Buckingham não quis comentar o motivo do uso do acessório. Rainha desde os 25 anos, Elizabeth II está no trono há quase sete décadas. Seu marido, o príncipe Philip, morreu em 9 de abril passado, aos 99 anos.

Congresso aprova acordo e evita calote

 (crédito: Anna Moneymaker/AFP)
crédito: Anna Moneymaker/AFP

Por 219 votos a favor e 206 contra, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, controlada pelos democratas, aprovou, na noite de ontem, uma legislação que aumentará o teto da dívida até o início de dezembro. A medida adia a ameaça de um primeiro calote do governo Joe Biden e evita uma crise financeira de enormes proporções. O teto da dívida foi elevado para US$ 480 bilhões (ou R$ 2,6 trilhões) até 3 de dezembro. Até o fechamento desta edição, havia expectativa de que a lei fosse imediatamente sancionada por Biden. Caso o Legislativo não sinalizasse positivamente ao acordo, os Estados Unidos entrariam em um inédito default na próxima segunda-feira — o país não poderia mais pedir dinheiro ou pagar empréstimos, o que provocaria recessão e impactaria os mercados globais.

Antes da votação, a presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, fez um apelo aos republicanos. “O que vocês têm contra a própria economia? Onde essa catástrofe de proporções incalculáveis terá impactos pelos próximos 100 anos? Vocês não se importam com isso?”, questionou. Mais cedo, Biden usou as redes sociais para defender sua agenda econômica, com foco no pacote de infraestrutura. “O mundo está acompanhando, mas, como eu disse: nunca foi uma boa ideia apostar contra o povo americano. Temos que aprovar minha agenda ‘Reconstruir melhor’, aproveitar este momento da história e mostrar ao planeta que a nossa democracia funciona.”

Também ontem, Pelosi instou os colegas de partido a cortarem o pacote de impostos e gastos, estimado em US$ 3,5 trilhões (ou R$ 19,35 trilhões). A deputada ressaltou que “importantes decisões” deverão ser tomadas. Segundo o The New York Times, a prorrogação do acordo era necessário porque os republicanos bloquearam uma legislação apresentada pelos democratas para fornecer um crescimento do teto da dívida de longo prazo. A Câmara chegou a aprovar duas legislações, nas últimas semanas, para suspender o limite do teto da dívida até dezembro de 2022, o que daria fôlego ao governo. Os textos esbarraram na resistência do Partido Republicano em apoiar medidas para evitar o calote.

 

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