Argentina

Eleições para o Congresso da Argentina serão teste crucial para Fernández

Resultado das eleições para a renovação parcial do Congresso vai determinar as condições de governabilidade. Pesquisas indicam novo revés, a exemplo do que ocorreu nas primárias, com perda da maioria no Senado

Correio Braziliense
postado em 13/11/2021 06:00
Outdoor de campanha da Frente Para Todos com as imagens de Alberto Fernández e da candidata Victoria Tolosa Paz vandalizadas, em Buenos Aires: cenário desfavorável    -  (crédito:  AFP)
Outdoor de campanha da Frente Para Todos com as imagens de Alberto Fernández e da candidata Victoria Tolosa Paz vandalizadas, em Buenos Aires: cenário desfavorável - (crédito: AFP)

Num momento socioeconômico dos mais delicados, a Argentina realiza amanhã eleições de meio de mandato para a renovação parcial do Congresso. Os resultados da votação, assinalam analistas, terão um impacto crucial no governo do presidente Alberto Fernández, com repercussão direta na continuidade de sua administração.

Estão em jogo um terço dos assentos do Senado e metade das vagas da Câmara de Deputados. Fernández não arrisca sua cadeira na votação, mas, sim, a possibilidade de governar com um maior apoio parlamentar. Pesquisas indicam que os eleitores podem eliminar a maioria de décadas dos peronistas no Senado.

O ocupante da Casa Rosada sofreu um revés nas primárias obrigatórias (Paso), há dois meses, quando a coalizão governista Frente de Todos (peronista de centro-esquerda) obteve 33% dos votos em nível nacional. A aliança de centro-direita Juntos, do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), obteve 37%.

O governo, agora, busca evitar que um resultado adverso o impeça de obter a maioria na Câmara dos Deputados ou coloque em risco a que tem no Senado. Na primeira, o partido no poder tem 120 das 257 cadeiras. E detém a maioria absoluta entre os senadores — 41 dos 72.

"Se os resultados da Paso se repetirem, o partido no poder pode perder a maioria que tem no Senado e não só não alcançaria a maioria dos deputados, mas também perderia cadeiras", diz Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria.

Desdobramentos

O analista político Gabriel Puricelli considera que "a composição do Congresso determinará as condições de governança" até 2023, quando termina o mandato de Fernández. Mas também opina que o resultado será "um teste da viabilidade das duas principais coalizões como veículo para as próximas eleições presidenciais", referindo-se à Frente de Todos e Juntos.

Puricelli destaca que outro fator a ser levado em conta envolve quanto poder a oposição terá no Congresso. "Se conseguir o poder de bloqueio, é mais provável que o use", alerta o analista político.

Para o cientista político Carlos Fara, uma derrota do governo "travará o kirchnerismo nas duas Câmaras e pode dificultar questões institucionais no Senado, como a nomeação de juízes".

As primárias de setembro abriram uma crise na coalizão governista. Após críticas da vice-presidente Cristina Kirchner, Fernández renovou parte de seu gabinete. Mas mesmo que ganhe na estratégica província de Buenos Aires — a mais populosa com quase 40% do eleitorado — não será suficiente para reparar o estrago político, ressaltaram os analistas.

Na avaliação de Rosendo Fraga, o problema político central será, "seja qual for o resultado", a divisão do partido no poder entre o presidente e a vice-presidente. "Essa disputa vai continuar e pode até piorar. Será um problema de governança", observa.

Acadêmico da Universidade Austral, o cientista político Mario Riorda assinala que a Frente de Todos caiu 19 pontos em todo o país desde as eleições presidenciais de 2019 e "não tem mais núcleos imbatíveis", enquanto a oposição praticamente não mudou.

A Argentina vai votar abalada por uma inflação de 40% até agora este ano, uma das mais altas do mundo. O governo lançou um congelamento de preços por três meses para 1,5 mil itens da cesta básica, além de auxílio social para enfrentar a pobreza, que atinge 40% dos 45 milhões de habitantes.

Em meio a essa situação, o país busca um novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que substitua o stand-by por US$ 44 bilhões em 2018 e cujos vencimentos de capital de mais de US$ 19 bilhões começam no próximo ano.

Diante desse cenário, Alberto Fernández fez um apelo aos argentinos, na quinta-feira, no encerramento da campanha. "No domingo, peço a vocês que me ajudem a construir o sonho de viver na Argentina que queremos", pediu o presidente, que teve Cristina Kirchner a seu lado. "O principal é estarmos unidos", declarou o ocupante da Casa Rosada, cuja imagem foi muito arranhada pela gestão da pandemia da covid-19. 

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