Colômbia

Colômbia celebra cinco anos de paz com as Farc em ato simbólico

A Colômbia relembra, o pacto de paz que possibilitou o desarmamento da guerrilha das Farc, com um encontro entre protagonistas e críticos na presença do chefe da ONU

Agence France-Presse
postado em 24/11/2021 16:25
 (crédito:  AFP)
(crédito: AFP)

Um dos conflitos mais cruéis da América começou a se extinguir há cinco anos. A Colômbia relembra, nesta quarta-feira (24), o pacto de paz que possibilitou o desarmamento da guerrilha das Farc, com um encontro entre protagonistas e críticos na presença do chefe da ONU.


Pela primeira vez, estiveram no mesmo local os signatários da paz, o secretário da ONU, António Guterres, representantes das vítimas e o presidente Iván Duque, que tentou em vão modificar o acordo por considerá-lo benevolente com os guerrilheiros envolvidos em crimes hediondos.


A presença do presidente encheu de simbolismo o ato realizado na sede da Jurisdição Especial para a Paz (JEP), o tribunal que julga os piores crimes de um conflito que em meio século deixa nove milhões de vítimas entre mortos, mutilados, sequestrados e desaparecidos.


"Insistimos em pedir perdão às vítimas de nossas ações durante o conflito, a compressão de sua dor cresce diariamente em nós e nos enche de aflição e vergonha", disse Rodrigo Londoño, o ex-comandante das extintas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).


Também conhecido como Timochenko, Londoño renovou o compromisso da grande maioria dos 13.000 homens e mulheres que se mantêm fiéis aos acordos de paz após entregarem os fuzis, e apesar da violência contra os ex-combatentes. Quase 300 foram assassinados desde 2016.


"Nada nem ninguém poderá minar nossa convicção de que o caminho empreendido é o correto", defendeu o também presidente do "Comuns", partido de esquerda que surgiu do desarmamento.


Em seu discurso, o ex-presidente Juan Manuel Santos, que obteve o Prêmio Nobel da Paz por se sentar à mesa de negociações com uma guerrilha a qual havia atacado militarmente, ofereceu um balanço "positivo" dos cinco anos do acordo que assinou junto a Londoño.


"O trem da paz que tantos e tantas quiseram descarrilar ou deter segue seu caminho, segue avançando", afirmou Santos, antes de elogiar com "satisfação" o gesto de Duque, um de seus maiores adversários políticos.


"O presidente Duque subiu no trem da paz como vimos com muita satisfação recentemente", destacou.


Em essência, o acordo permitiu que uma força de origem camponesa armada sob influência do comunismo, em plena Guerra Fria, entregasse seus fuzis em troca de poder exercer a política.


Além disso, contém reformas políticas e agrárias - a propriedade da terra esteve na origem da guerra interna - e fórmulas contra o narcotráfico, que teoricamente deverão ser concluídas até 2031.

 

 Aviso da ONU 


Embora tenha reduzido significativamente a violência, o pacto com as antigas Farc não apagou completamente o conflito. O narcotráfico e a mineração ilegal alimentam novas ou antigas forças que, segundo estimativas independentes, reúnem cerca de 10.000 combatentes.


Ex-combatentes, indígenas e ativistas dos direitos humanos foram assassinados em pontos distantes das capitais.


E cinco anos depois, o acordo ainda é motivo de profunda divisão.


Pouco mais de 50% dos colombianos se opôs em um plebiscito ao texto negociado por quatro anos em Cuba, o que obrigou as partes a fazerem ajustes antes de assiná-lo, com o apoio das Nações Unidas.


Assim como fez no dia anterior, o chefe da organização voltou a alertar sobre os "riscos para a paz" representados pelos "grupos armados em conexão com o narcotráfico".


"Não é tarde para reverter essa tendência concentrando todos os esforços (...) nos lugares onde a violência é mais intensa", afirmou Guterres, renovando "o pleno apoio" da ONU.


Ao seu lado, o presidente Duque defendeu uma "verdade total" e "não adaptada" para as vítimas.


Alvo frequente das críticas da direita representada por Duque, a JEP prepara as primeiras sentenças contra o antigo comando rebelde por mais de 21.000 sequestros. Também julga militares por cerca de 6.400 execuções de civis que foram apresentados como mortos em combate para aumentar seus resultados na luta contra a guerrilha.


O acordo de paz estabelece que quem confessar seus crimes deve indenizar suas vítimas e se comprometer a nunca mais exercer a violência poderá receber penas alternativas à prisão. Caso contrário, pode enfrentar penas de até 20 anos.


"Todos os aqui presentes queremos ver uma justiça efetiva, oportuna, real", insistiu Duque.

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