Pandemia

Após descoberta de nova variante da covid-19, países fecham portas para a África

EUA, Canadá, União Europeia, Israel e Reino Unido impõem veto à entrada de viajantes provenientes da parte sul do continente, após a descoberta de cepa do Sars-CoV-2. Biden pede que mais nações doem vacinas contra a covid-19

Rodrigo Craveiro
postado em 27/11/2021 06:00
Médicos embarcam pacientes com a covid-19 em um Airbus A310-900, em Memmingen, no sul da Alemanha: hospitais lotados -  (crédito: Christof Stache/AFP)
Médicos embarcam pacientes com a covid-19 em um Airbus A310-900, em Memmingen, no sul da Alemanha: hospitais lotados - (crédito: Christof Stache/AFP)

Ante o perigo de propagação da nova cepa do Sars CoV-2 (coronavírus) identificada na África do Sul, várias nações anunciaram a proibição da entrada de viajantes provenientes de países da chamada África Austral — a parte sul do continente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu que a nova variante descoberta é "preocupante" e a nomeou como ômicron. Os Estados Unidos restringiram viagens aéreas da África do Sul, Botsuana, Zimbábue, Namíbia, Lesoto, Essuatíni (ex-Suazilândia), Moçambique e Malauí.

O presidente norte-americano, Joe Biden, divulgou um comunicado no qual explicou que os vetos terão início na segunda-feira. "As notícias sobre a nova variante devem deixar mais claro do que nunca que a pandemia não acabará até que tenhamos imunizações globais. Os EUA já doaram mais vacinas a outras nações do que todos os outros países juntos. É hora de outros países se igualarem à velocidade e à generosidade da América", declarou.

O democrata pediu aos líderes mundiais que renunciassem às proteções de propriedade intelectual para destravar a fabricação de vacinas em diferentes regiões do planeta. O Canadá também proibiu os viajantes dos mesmos países do sul da África, exceto Malaui, de ingressarem em seu território. 

Membros da União Europeia (UE), Áustria, França, Itália, Holanda e Malta também fecharam as portas para passageiros que tenham entrado na África do Sul e em seis países nas duas últimas semanas. O Reino Unido tomou medidas idênticas às adotadas pelos EUA. A agência de saúde do bloco advertiu que o risco de a nova cepa se espalhar pela Europa é de "alto e muito alto".

Enquanto isso, violentos protestos contra medidas de restrição social foram registrados, pela terceira noite consecutiva, na ilha francesa de Martinica, no Caribe. A Holanda anunciou que, a partir de amanhã, bares, restaurantes e comércio não essencial serão fechados às 17h (13h em Brasília), apesar das manifestações que sacudiram o país no último fim de semana. A Bélgica, por sua vez, confirmou o primeiro caso da ômicron na Europa. 

Depois da detecção de uma infecção pela nova variante em Israel, o premiê Naftali Bennett comandou uma reunião de emergência e proclamou todas as áreas do sul e do centro da África como "bandeira vermelha" — os israelenses estão proibidos de viajar para lá, e nenhum estrangeiro terá permissão para entrar em Israel a partir dessas regiões. A variante também foi encontrada em Malauí e Hong Kong. 

Joe Phaahla, ministro da Saúde da África do Sul, reagiu com indignação à proibição de entrada de sul-africanos em outros países e a classificou como "injustificável" e "sem sentido". "A covid-19 é uma emergência sanitária global. Nós devemos trabalhar juntos, não punir uns aos outros", comentou. "Uma caça às bruxas não beneficia ninguém. A África do Sul quer ser um ator honesto no mundo, a fim de compartilhar informações de saúde que não sejam benéficas apenas aos sul-africanos, mas a todos os cidadãos do planeta."

Especialistas

Para Danny Altmann, professor de imunologia do Imperial College London, a decisão de nações da União Europeia e dos Estados Unidos é "extremamente dura" em relação a países do sul da África, mas "absolutamente necessária". "As mutações da ômicron ainda não foram totalmente caracterizadas e não foram obviamente associadas a uma maior gravidade ou a mais mortes. No entanto, a lista de modificações no vírus é extensa, incluindo muitos locais da proteína spike (do coronavírus) que afetam tanto a transmissão quanto a evasão à resposta imunológica", explicou ao Correio.

Diretor do Instituto Rosalind Franklin da Universidade de Oxford, James Naismith admite que vacinas provavelmente deem menos proteção contra a ômicron. "A proibição de viagens representaria um ganho de tempo de algumas semanas. Mas tal medida não interromperá a propagação, se a ômicron for mais infecciosa do que a delta. Nós deveríamos apoiar os países da África e outras nações emergentes com vacinas". 

 

  • James Naismith, diretor do Instituto Rosalind Franklin da Universidade de Oxford,
    James Naismith, diretor do Instituto Rosalind Franklin da Universidade de Oxford, Foto: Arquivo pessoal
  • Dann Altmann, professor de imunologia do Imperial College London
    Dann Altmann, professor de imunologia do Imperial College London Foto: Fotos: Arquivo pessoal
  • Médicos embarcam pacientes com a covid-19 em um Airbus A310-900, em Memmingen, no sul da Alemanha: hospitais lotados
    Médicos embarcam pacientes com a covid-19 em um Airbus A310-900, em Memmingen, no sul da Alemanha: hospitais lotados Foto: Christof Stache/AFP
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