Guerra Israel-Hamas

Oriente Médio: Irã ataca vizinhos e eleva a tensão regional

Disparo de mísseis iranianos contra grupo extremista no Paquistão provoca crise diplomática. Teerã adverte que "não vê limites à capacidade militar". Bombardeio à Síria alveja Estado Islâmico. EUA oficializam huthis, do Iêmen, como grupo terrorista

Outdoor em Teerã traz a imagem de míssil iraniano e a frase  -  (crédito: AFP)
Outdoor em Teerã traz a imagem de míssil iraniano e a frase - (crédito: AFP)
postado em 18/01/2024 06:00

O regime do Irã prometeu uma reação "proporcional, dura e decisiva" a qualquer um que ameaçar o país teocrático islâmico. O ministro da Defesa iraniano, general de brigada Mohammadreza Ashtiani, fez a advertência horas depois de seu país disparar mísseis contra os territórios do Paquistão, da Síria e do Iraque, em uma escalada de tensão que coloca em alerta todo o Oriente Médio. Teerã também alertou que "não vê limitas à capacidade militar" contra aqueles que o ameaçarem. Em retaliação aos assassinatos de 11 policiais na cidade de Rask e na província do Baloquistão, na fronteira iraniano-paquistanesa, o Irã bombardeou uma suposta base do grupo terrorista Jaish Al-Adl, que operava no país vizinho.

O Paquistão denunciou a morte de duas crianças na operação e adotou protesto diplomático: convocou o seu embaixador em Teerã e impediu a volta do representante diplomático de Teerã a Islamabad. Em nota, o governo de Islamabad disse que o ataque é "completamente inaceitável e pode ter consequências graves". 

Veja quais países foram atacados pelo Irã
Veja quais países foram atacados pelo Irã (foto: Ed. Arte/Correio Braziliense)
 

"Não toleramos que terroristas operem dentro dos territórios do Iraque e do Paquistão, representando uma ameaça à segurança do Irã. Nós respeitamos a soberania e a integridade territorial do Paquistão, mas não permitiremos que a segurança do Irã seja comprometida", declarou o ministro das Relações Exteriores iraniano, Hossein Amirabdollahian. "Consideramos que a segurança do Iraque e do Paquistão é a segurança do Irã", acrescentou o chanceler, citado pela agência de notícias estatal Irna. "Nós alvejamos o Jaish Al-Adl, não os cidadãos paquistaneses." Na terça-feira, Teerã atacou posições do grupo extremista Estado Islâmico perto da cidade síria de Harem e um suposto quartel-general da Mossad — o serviço secreto israelense — em Erbil, no Curdistão iraquiano. 

Em entrevista ao Correio, o iraquiano-americano Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York e especialista em Oriente Médio, explicou que o Irã não tem o costume de se engajar diretamente em ataques contra outras nações ou grupos percebidos por Teerã como inimigos, entre eles Paquistão, Iraque, Síria e Israel. "O Irã quis exibir seus músculos e demonstrar a capacidade de seus mísseis, ao atingir alvos em países vizinhos. No Paquistão, o regime iraniano acusou o governo de apoiar um grupo separatista em Baloquistão que lançou um ataque durante o aniversário de morte do general Qassem Soleimani, da Guarda Revolucionária. A ofensiva na Síria estava ligada ao Estado Islâmico, que tem investido contra forças iranianas ao longo da fronteira. A ação no Iraque foi dirigida à região curda, onde o governo de Teerã acusa separatistas de abrigarem um acampamento da inteligência israelense", comentou. 

Ben-Meir acredita que o Irã não se envolve diretamente com os EUA e com Israel por desejar prevenir uma escalada bélica na região. "O governo iraniano justificou os ataques porque, do ponto de vista de Teerã, não houve escolha, a não ser retaliar. Teerã também quis enviar uma mensagem a Israel de que, caso o governo de Benjamin Netanyahu ataque instalações nucleares ou mate cientistas iranianos, não hesitará em responder com mísseis. Na minha opinião, esses bombardeios são apenas uma demonstração de poder, para demonstrar que o regime teocrático islâmico é capaz de realizar tais ações, se necessário."

Ainda segundo Ben-Meir, o Irã é uma grande potência no Oriente Médio, com capacidades militares importantes, principalmente nas áreas de defesa e de mísseis. "Nem o Iraque bem a Síria o veem como uma ameaça, porque continuam a colaborar com Teerã em uma gama de assuntos. O ataque no norte do Iraque, no entanto, irritou Bagdá, que convocou seu embaixador no Irã para expressar sua ira."

O governo norte-americano fez um protesto formal contra os bombardeios iranianos. "Condenamos esses ataques; vimos o Irã violar as fronteiras soberanas de três de seus vizinhos apenas nos últimos dois dias", declarou Matthew Miller, porta-voz do Departamento de Estado. Ele acusou o Irã e de ser "o principal financiador do terrorismo na região". 

Iêmen

No Mar Vermelho, rebeldes separatistas huthis — apoiados pelo Irã — atacaram um barco dos EUA diante da costa da cidade iemenita de Áden, horas depois de Washington incluir o grupo separatista na lista de entidades terroristas. "As forças navais huthis atacaram um barco americano chamado Genco Picardy com vários mísseis", declarou o porta-voz militar Yahya Saree na televisão. A tripulação não sofreu ferimentos e seguiu viagem.

Mulheres iemenitas vestindo o keffiyeh, traje tradicional palestino, protestam contra Israel e EUA em Sanaa
Mulheres iemenitas vestindo o keffiyeh, traje tradicional palestino, protestam contra Israel e EUA em Sanaa (foto: Mohammed Huwais/AFP)

Muhammad Nasser Al-Bukhaiti, 50 anos, membro do gabinete político do Movimento Huthi, desqualificou a decisão dos EUA de congelar os fundos do grupo e de impedir seus membros de entrarem no país. "Não temos dinheiro para temermos o congelamento, nem temos vontade de visitar os EUA. Lutamos de acordo com as regras militares de combate oficiais", assegurou ao Correio

 

DUAS PERGUNTAS PARA...

Muhammad Nasser Al-Bukhaiti, 50 anos, membro do gabinete político do Movimento Huthi

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Muhammad Nasser Al-Bukhaiti, 50 anos, membro do gabinete político do Movimento Huthi (foto: Facebook/Reprodução)

Como vê a decisão dos EUA de declararem vocês como terroristas?

Esta decisão é uma prova de impotência e falência, pois estamos em guerra com eles. Além disso, o Ansar Allah (gabinete polítíco dos huthis) representa o Estado do Iêmen e goza de grande apoio popular em âmbito local, árabe e islâmico. Os EUA rapidamente se verão isolados e incapazes de se beneficiarem dessa decisão. Além disso, essa decisão desgasta a credibilidade dos EUA, pois é difícil convencer as pessoas de que alguém que busca deter um genocídio é um terrorista.

Os EUA acusam os huthis de terem fortes ligações com o Hamas. Isso ocorre?

Sim, temos fortes relações com todos os movimentos da resistência palestina, incluindo o Hamas, e isso é fonte de orgulho para nós. (RC)

  • Mulheres iemenitas vestindo o keffiyeh, traje tradicional palestino, protestam contra Israel e EUA em Sanaa
    Mulheres iemenitas vestindo o keffiyeh, traje tradicional palestino, protestam contra Israel e EUA em Sanaa Foto: Mohammed Huwais/AFP
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