Oriente Médio

Exército de Israel faz retirada estratégica de Khan Yunis, no sul de Gaza

Israel remove as tropas de Khan Yunis e descarta ligação com pressão dos EUA. Netanyahu revela que manobra visa preparar invasão a Rafah. Seis meses depois do massacre, familiares de reféns do Hamas pressionam governo

Palestinos caminham por entre prédios destruídos durante a chegada a Khan Yunis, após recuo das tropas de Israel  -  (crédito:  AFP)
Palestinos caminham por entre prédios destruídos durante a chegada a Khan Yunis, após recuo das tropas de Israel - (crédito: AFP)
postado em 08/04/2024 06:00

A decisão das Forças de Defesa de Israel (IDF) de retirar suas tropas de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, ocorreu exatamente seis meses depois do massacre de 7 de outubro cometido pelo grupo extremista Hamas — mais de 1,1 mil israelenses morreram no atentado que deflagrou a guerra. O Ministério da Defesa anunciou que a medida teria sido estratégica: uma forma de reagrupar os soldados e de preparar as próximas missões, o que incluiria uma invasão massiva à cidade de Rafah, onde 1,5 milhão de palestinos estão refugiados. O premiê Benjamin Netanyahu assegurou que está "a um passo da vitória" e reafirmou a determinação de eliminar o movimento fundamentalista de toda a Faixa de Gaza, cuja capacidade operacional teria sido desmantelada.

"A 98ª Divisão das IDF concluiu sua missão em Khan Yunis. Ela deixou a Faixa de Gaza para se recuperar e se preparar para futuras operações", explicou ao Correio o major Rafael Rozenszajn, porta-voz das IDF. Ele confirmou que uma força significativa, liderada pela 162ª Divisão e pela Brigada Nahal, seguirá operando na Faixa de Gaza, preservando a capacidade do exército de conduzir operações precisas baseadas em informações de inteligência.

Mulheres palestinas choram enquanto os corpos de parentes feridos e mortos são retirados de prédio em Rafah
Mulheres palestinas choram enquanto os corpos de familiares são retirados de prédio, em Rafah (foto: Mohammed Abed/AFP)

Palestinos que se abrigavam em Rafah começaram a retornar para Khan Yunis, sem saber o que encontrarão. Pelo caminho, o cenário era de destruição quase total. Segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, órgão controlado pelo Hamas, a guerra deixou mais de 33 mil palestinos mortos, incluindo 14.500 crianças e 9.560 mulheres. Os números não podem ser confirmados de forma independente.

Raeed Shakshak, 26 anos, desempregado, viveu sob uma tenda, em Rafah, por quatro meses, depois que parte de sua casa em Khan Yunis foi destruída. Na última quarta-feira (3/4), viajou para o Cairo. "Não podemos confiar nas forças de ocupação israelense. Elas se preparam para algo catastrófico, como invadir Rafah ou o centro da Faixa de Gaza", desabafou à reportagem, por meio do Twitter. Segundo Raeed, Khan Yunis está inabitável, e os palestinos apenas retornam à cidade para verificar o que restou. "Teremos que esperar e ver o rumo das coisas. Se o genocídio continuará após seis meses ou se a pressão dos EUA surtirá em um cessar-fogo."

Familiares de reféns israelenses protestam contra o governo Netanyahu, em frente ao Knesset (Parlamento), em Jerusalém
Familiares de reféns protestam contra Netanyahu, em frente ao Knesset (Parlamento), em Jerusalém (foto: Menahem Kahana/AFP)

No dia em que o conflito entrava no sétimo mês, milhares de israelenses intensificaram a pressão sobre Netanyahu e protestaram diante do Knesset, o prédio do Parlamento, em Jerusalém. "Vivos e vivos e não em caixões"; "Todos livres agora, um acordo agora!" e "Libertem os reféns!", gritavam. Agam Goldstein, 17 anos, uma das reféns libertadas pelo Hamas, subiu ao palco e fez um apelo para aqueles que continuam em poder dos extremistas, em Gaza. "Para vocês que ainda estão lá, resistam", disse.

Futuro

O Correio conversou com especialistas sobre o futuro das relações israelo-palestinas e as perspectivas de um acordo de paz que leve a uma solução baseada em dois Estados. O israelense Barak Medina, professor de direito na Universidade Hebraica de Jerusalém, explicou que é precioso fazer uma avaliação a curto e a longo prazos. "No curto prazo, os dois lados estão com raiva, medo e desconfiança, e indispostos a uma conversa. Para o longo prazo, em dois ou três anos, ambos podem perceber que estão fracos demais para manter o ciclo de violência e mostrar uma vontade de costurar um compromisso."

Soldados israelenss visitam memorial no local da festa rave atacada pelo Hamas, no kibbutz Re'im
Soldados israelenses visitam memorial no local da festa rave atacada pelo Hamas, no kibbutz Re'im (foto: Gil Cohen-Magen/AFP)

Barak crê que levará tempo para a superação do trauma. "Existe uma ruptura. A maioria dos palestinos não deseja combater ao lado do Hamas, mas expressa apoio às políticas (do grupo). A maioria dos israelenses não confia nos palestinos e se sente traída pelo mundo liberal. Será preciso uma abordagem mais matizada. A ideia de boicotar Israel e atribuir-lhe toda a culpa não é apenas moralmente errada, mas também contraproducente", observou. A construção de um futuro melhor, na opinião dele, passa pelo reconhecimento de princípios de ambos os lados, em relação ao direito de cada povo ter o seu Estado.

Para o libanês Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute), após o horror de 7 de outubro, todo e qualquer diálogo sobre uma solução baseada em dois Estados está "morta". "Francamente, não se recompensa terroristas dando-lhes um Estado. Também não se deve compensar o terror negociando os reféns. Israel permitiu que essa dolorosa tragédia prejudicasse as suas operações e prolongasse a guerra", disse. "Por mais brutal que possa parecer, reféns civis são danos colaterais em uma situação de guerra. As prioridades de segurança nacional devem se sobrepor a quaisquer outras considerações."

A pressão internacional tem crescido para que a trégua seja mantida pelo maior tempo possível
Dezenas de carros carbonizados em estacionamento, durante o massacre de 7 de outubro, no sul de Israel (foto: Jack Guez/AFP)
 

Professor de estudos israelenses na Universidade de Maryland, Ilai Saltzman concorda que o 7 de outubro foi um grande golpe para uma resolução pacífica do conflito. "Se muitos em Israel e nos territórios palestinos estavam céticos, o ataque do Hamas e a resposta israelense reduziram o apoio a uma solução baseada em dois Estados."

  • Dezenas de carros carbonizados em estacionamento, durante o massacre de 7 de outubro, no sul de Israel
    Dezenas de carros carbonizados em estacionamento, durante o massacre de 7 de outubro, no sul de Israel Foto: Jack Guez/AFP
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