"Se as oliveiras conhecessem as mãos que as plantaram, seu azeite se transformaria em lágrimas." A frase do poeta e escritor palestino Mahmoud Darwish (1941-2008) sintetiza o sofrimento e a dor de um povo que luta há 58 anos contra a ocupação. Quase dois meses depois de um vislumbre de chance de paz, com a assinatura de um plano mediado pelos Estados Unidos, Egito, Catar e Turquia, em 9 de outubro passado, pouca coisa mudou na Faixa de Gaza. Os bombardeios israelenes prosseguem de forma esporádica, e a população convive com o trauma de uma guerra que deixou 70 mil mortos e mais de 170 mil feridos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que a reconstrução do enclave palestino custará em torno de US$ 70 bilhões (ou R$ 380 bilhões). A maior parte do território palestino foi reduzida a pilhas de escombros.
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O plano liderado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, previa a troca de todos os reféns do movimento islamita Hamas por prisioneiros palestinos, a devolução dos corpos de judeus mortos no cativeiro, a formação de um Conselho de Paz, o envio de uma Força Internacional de Estabilização ao enclave e a retirada gradual das tropas de Israel. Os dois primeiros pontos estão praticamente concluídos, e a expectativa de Trump era de que as próximas etapas tivessem início antes do Natal.
Morador do campo de refugiados de Jabalia, o repórter freelance Hassan Salem, 26 anos, admitiu ao Correio que a vida mudou por completo na Faixa de Gaza. "As pessoas estão lutando contra o deslocamento, e a falta de comida, de água potável e de cuidados médicos. As famílias vivem sob constante incerteza e trauma. Pessoalmente, a minha vida e a de minha família foram viradas de cabeça para baixo. Nós perdemos nossas casas, nossa estabilidade e o senso básico de segurança", desabafou. Pelo menos 2,3 milhões de moradores de Gaza enfrentam um "empobrecimento extremo e multidimensional", segundo a agência de comércio e desenvolvimento das Nações Unidas.
Reconstrução
Para Salem, quem vive em Gaza tem pela frente uma série de desafios. "Precisamos reconstruir nossas casas, garantir a obtenção de comida e água, ter acesso a tratamento médico, proteger nossas crianças dos traumas e simplesmente sobreviver ao inverno. As pessoas necessitam de abrigo, de estabilidade e do apoio internacional", comentou.
Hoje refugiado na parte norte da Cidade de Gaza, o também repórter fotográfico Ahmed Hassan Youssef Al-Saifi, 24, disse à reportagem que a população de Gaza experimenta um "período terrível, com absolutamente nenhuma segurança". "Nosso povo precisa da proteção internacional dessa ocupação criminosa", afirmou, por meio do WhatsApp.
Outro fotojornalista de Gaza, Abood Abusalama, 28, contou ao Correio que "nada mudou" no enclave palestino desde que o plano de paz foi assinado. "A Cidade de Gaza segue presa à dor, cercada pela perda e sobrecarregada pelo sofrimento. As casas não despertaram do silêncio da destruição, e os rostos ainda não conseguem esquecer o que o coração viu antes dos olhos. A dor é a mesma, como se estivesse profundamente enraizada a cada dia que passa", disse.
Segundo Abusalama, os cidadãos de Gaza se agarravam à esperança da mesma forma que um náufrago se agarra a um pedaço de madeira. "Elas esperavam pelo que viria depois do cessar-fogo, como se fosse o início de uma nova vida. Eles imaginavam que a escuridão terminaria, e que o amanhã traria algo diferente. As esperança os traiu."
Na última terça-feira, uma cena preencheu de esperança um cenário de destruição. Dezenas de jovens se casaram em meio às ruínas de Khan Yunis (sul). O matrimônio coletivo envolveu 54 casais, com direito a tapete vermelho e trajes palestinos bordados para as mulheres — os noivos usaram terno e gravata. "Precisávamos de algo que nos fizesse sentir que nossos corações ainda estão vivos", disse à agência France-Presse Karam Moussaaed, um dos recém-casados. Um pouco de poesia em meio ao luto e à incerteza em relação ao futuro.
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