Entrevista // Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília 

Narrativa de Trump não deve servir para outros países da região, diz especialista

Governo brasileiro reassume uma postura pragmática na relação com os Estados Unidos, diz Manuel Furriela, reitor da UCB e especialista em relações internacionais

Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB) -  (crédito: Arquivo pessoal )
Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB) - (crédito: Arquivo pessoal )

Sem respaldo no direito internacional, a intervenção norte-americana na Venezuela serve de recado para a Rússia e a China, aliadas de Nicolás Maduro: os Estados Unidos querem retomar o controle na região e não pretendem dividi-lo com outras potências. Apesar das críticas que os dois países fizeram à retirada forçada do presidente venezuelano do poder, porém, o advogado Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB), não acredita que Moscou e Pequim tomem alguma medida prática contra Washington.

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Em entrevista ao Correio, Furriela, mestre em direito internacional pela Universidade de São Paulo (USP) e em International Legal Studies pela American University, de Washington, afirma também que, apesar de um longo histórico de agressões verbais a governantes latinos, Donald Trump não deverá tentar outras ocupações na região. "Nem na Colômbia. Lá, não há uma ditadura, então seria muito mais difícil sustentar qualquer tipo de medida extrema."

O presidente Donald Trump falou que "o domínio dos Estados Unidos na América Latina nunca mais será questionado". O que ele quis dizer com isso?

A frase mencionada diz respeito à influência que potências como a Rússia e, principalmente, a China tinham e têm na Venezuela. A Rússia tinha uma relação própria com o governo de Nicolás Maduro, o apoiava, vendeu diversos equipamentos militares, aviões de ataque e vários outros tipos de armamentos com contratos muito importantes para a Rússia na região. Contratos esses que Moscou não teria sem essa relação próxima. E a China importa petróleo venezuelano em condições favoráveis, abastecendo seu apetite por recursos naturais, tendo em vista o seu amplo crescimento econômico. Além disso, a China é credora da Venezuela em cerca de US$ 60 bilhões. Por fim, Cuba, mesmo não sendo uma potência, é um país que se beneficiava do petróleo subsidiado vindo da Venezuela para exportar a preços mais altos. A mensagem de Donald Trump com essa frase é de que essas influências de outras regiões serão afastadas da América Latina pela derrubada de Nicolás Maduro, restabelecendo uma relação próxima da Venezuela com os Estados Unidos e não propriamente com esses Estados.

Pode-se esperar uma resposta contundente da Rússia e da China? 

Tanto a Rússia quanto a China e outros estados serão críticos da invasão americana, não só porque têm seus interesses na região prejudicados, mas também porque sempre tiveram um discurso contra as atuações norte-americanas. De qualquer forma, a Rússia está muito ocupada no seu conflito com a Ucrânia. Além disso, ela não quer perder eventual apoio norte-americano na composição ou no futuro das guerras com a Ucrânia, numa tentativa de restabelecimento de paz, com interesses territoriais seus atendidos. Então, a Rússia está muito mais focada nesse tipo de interesse, não quer azedar sua relação com os Estados Unidos. Da mesma forma, a maior preocupação chinesa em relação à Venezuela vai ser continuar sendo abastecida pelo petróleo venezuelano e ter garantido o recebimento da dívida externa de cerca de US$ 60 bilhões que a Venezuela tem com o país. Se houver uma composição nesse sentido, é o que mais vai interessar. E como a China tem pretensões de retomar o território de Taiwan em algum momento, podendo originar uma nova guerra, o país prefere focar-se mais nesse aspecto do que fazer mais do que criticar a intervenção americana.

O que deve acontecer imediatamente?

A derrubada de Nicolás Maduro é parte do processo que os Estados Unidos imaginam para a Venezuela, pois ainda terão que constituir um governo na região. Provisoriamente, Donald Trump afirmou na sua declaração de que assumirá ele mesmo o governo do país com a retomada da exploração de petróleo por empresas norte-americanas, o que vai favorecer o abastecimento do mercado internacional, e na sequência a constituição de um governo a seu favor, a favor dos Estados Unidos, ao contrário do governo de Nicolás Maduro.

Trump já associou o presidente colombiano ao narcotráfico, como fez com Nicolás Maduro. Há um risco iminente para Gustavo Petro? 

Perante o direito internacional, as justificativas de Donald Trump não subsistem, elas não se sustentam, pois só seriam duas as que justificam um Estado, um país invadir o outro. Uma seria em caso de agressão, resposta a um ataque; e a outra com autorização do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A narrativa construída por Donald Trump foi a de que grupos de narcotráfico internacional muito importantes atuariam na Venezuela, depois ele os identificou como grupos terroristas que desafiam e colocam em risco a segurança dos norte-americanos, e de que Nicolás Maduro seria o grande líder desses grupos, ou pelo menos de um deles. Essa foi a construção adotada para justificar a intervenção. Não acredito que o mesmo sirva para outros países da região, nem ao menos a Colômbia, até mesmo porque o governo colombiano foi eleito legitimamente. Na Colômbia, não há uma ditadura, então seria muito mais difícil sustentar qualquer tipo de medida extrema, conforme aconteceu na Venezuela. Na Colômbia, há um governo independente e o problema do narcotráfico não está associado ao governo local. Justificativas de fraca atuação no combate ao narcotráfico na Colômbia não significam envolvimento direto do presidente. Então não é uma ditadura, não há desgaste e não há essa identificação direta, cenário da Colômbia diferente do da Venezuela.

O presidente Lula começou um movimento de aproximação do governo Trump recentemente. Como ele deve se comportar em relação à intervenção norte-americana na Venezuela?

O governo brasileiro reassumiu uma postura pragmática na relação com os Estados Unidos, puramente de interesses produtivos, afastando viés ideológico, pois sabemos que o governo Trump e o governo Lula não têm a mesma identidade sobre aspectos políticos. A reaproximação entre ambos foi interessante para o Brasil, que retomou as suas exportações, ou pelo menos parte delas. Acho que essa questão da Venezuela vai fazer com que o governo brasileiro critique a intervenção norte-americana sob a justificativa de não ter guarida no direito internacional, o que inclusive já fez, mas essa agenda deve ficar por aí. Vai se manter o pragmatismo e o Brasil deve tentar — e eu acho que é o nosso papel — apoiar a redemocratização da Venezuela.

 

 

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postado em 04/01/2026 05:02 / atualizado em 04/01/2026 16:12
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