
A diplomacia brasileira subiu ostensivamente o tom em sua intervenção no Conselho de Segurança sobre o ataque norte-americano à Venezuela e a detenção do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores. "O Brasil rejeita de maneira categórica e com a maior firmeza a intervenção armada em território venezuelano, em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional", afirmou o embaixador do país na ONU, Sérgio Danese. Ele repetiu os termos da nota emitida ainda no sábado pelo presidente Lula para classificar a ofensiva determinada por Donald Trump: "Os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável".
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O diplomata alertou que a ausência de resposta às ações de Washington, por parte da comunidade internacional coloca o mundo sob o risco de "um cenário marcado pela violência, pelo desordenamento e pela erosão do multilateralismo". Danese situou a posição do Brasil no âmbito da política externa imprimida pelo governo Lula desde seu retorno ao Planalto, em 2023. "O mundo multipolar do século 21, que promova a paz e a prosperidade, não se confunde com áreas de influência", argumentou o embaixador brasileiro, para adiante reforçar que a ação unilateral dos EUA "carece de legitimidade e abre a possibilidade de conceder aos mais fortes o direito de definir o que é justo ou injusto, correto ou incorreto, e até mesmo de ignorar as soberanias nacionais, impondo decisões aos mais fracos."
No discurso de ontem para o Conselho de Segurança, onde o Brasil não ocupa atualmente uma cadeira, o embaixador brasileiro lembrou que os governos da América Latina e do Caribe fizeram na virada do século "a escolha pela paz", e protestou contra o retorno a um passado em que intervenções extrarregionais, inclusive pela força, resultaram em um ciclo de regimes ditatoriais que deixou marcas nas sociedades. "O recurso à força em nossa região evoca capítulos da história que acreditávamos superados, e coloca em risco o esforço coletivo para preservar a América Latina como uma zona de paz e cooperação, livre de conflitos armados, respeitosa do direito internacional e do princípio da não ingerência", declarou.
A crise deflagrada pelo ataque do último sábado produziu uma inflexão no tratamento adotado por Lula em relação à Venezuela desde a contestada reeleição de Maduro, em 2024 — até aqui, não reconhecida formalmente pelo Brasil. Diplomatas de países cujos governos se alinham com Caracas, falando reservadamente ao Correio, disseram compreender as razões do presidente para evitar um choque frontal com a Casas Branca, em especial considerando a aproximação pessoal que conseguiu com Trump, da qual resultou a revogação do tarifaço aplicado ao país em julho. (SQ)
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