
Um pequeno espaço sobre o colchão, caminhos estreitos e sinuosos em meio à confusão e precárias pilhas de jornais. Este é apenas um vislumbre dos bastidores de uma pessoa que sofre com transtorno de acumulação.
Jess (nome fictício) teve uma infância turbulenta que, segundo ela, se manifestou na idade adulta como uma "ansiedade paralisante" ao enfrentar situações difíceis.
"Sentia que meu entorno estava sempre fora de controle e isso é parte do problema", explica ela. "É uma incapacidade de lidar com as coisas."
Jess mora no norte de Bristol, no Reino Unido. Ela conta que seus problemas como acumuladora começaram inocentemente, quando ela passou a acumular livros. Era uma tentativa de se tornar mais "autoconfiante", depois de se mudar para a universidade para escapar da sua difícil vida doméstica.
Com o passar dos anos, sua coleção atingiu um volume "opressivo" e impossível de confrontar. Todos os quartos do seu apartamento estavam superlotados de caixas de papel, comida, embalagens e roupas.
Certa vez, seus pais apareceram sem avisar na porta da casa de Jess para uma visita surpresa. Mas ela não conseguiu deixar que eles entrassem.
"Fiquei completamente apavorada, eu estava muito constrangida", relembra ela.
"Naquele momento, senti a dor de não conseguir ser quem eu gostaria de ser."
Jess, agora, está na casa dos 70 anos de idade. Até hoje, quando toca a campainha, ela entra em "modo pânico" e não permite que ninguém entre na sua casa, por vergonha e medo de ser julgada.
Ela descreve o "terror" de fazer novos amigos e eles esperarem ser convidados para visitar sua casa. E escolhe as palavras cuidadosamente, para evitar expor o "caos" que ela chama de lar.
"É uma condição extremamente estressante e limitadora", explica Jess. "Tem um impacto imenso sobre todos os aspectos da minha vida."
"Alguém que vem de fora e não tem conhecimento pode achar que sou preguiçosa, suja ou mesquinha. Mas não é uma escolha de estilo de vida, é um problema de saúde mental."
O que é o transtorno de acumulação?
A acumulação foi reconhecida como uma condição complexa de saúde mental em 2013.
Estima-se que 2% a 5% da população do Reino Unido seja afetada pelo transtorno de acumulação, o que representa cerca de 1,2 milhão de pessoas.
A condição é definida como o impulso de adquirir quantidades de objetos incomumente grandes e a incapacidade de se livrar deles, mesmo quando não têm mais uso prático ou valor financeiro.
O NHS (serviço público de saúde do Reino Unido) afirma que a acumulação passa a ser um problema sério quando prejudica a qualidade de vida da pessoa, causa estresse significativo e interfere com a vida diária.
O terapeuta cognitivo-comportamental James Hicks, do Serviço Nacional de Apoio à Ansiedade do Reino Unido (Nosa, na sigla em inglês) em Bristol, afirma que, muitas vezes, o transtorno se origina em uma "intensa conexão emocional" com os objetos.
"Quando você examina mais profundamente o passado das pessoas, muitas vezes, irá descobrir que eles foram tratados de forma pouco desejável por pessoas importantes nas suas vidas", explica ele.
"Como você se sentiria se tivesse valor e significado, mas alguém simplesmente o rechaçasse? Seria horrível, não seria?"
"Eles acreditam que são responsáveis pelo bem-estar dos seus pertences e, se os descartarem, estarão prestando um desserviço", prossegue Hicks.
"Se, toda vez que levasse o lixo para a rua, você se sentisse como se estivesse se desfazendo de um familiar querido, poderia ter alguma ideia de como é sofrer do transtorno de acumulação."
Horace (nome fictício) também tem transtorno de acumulação.
Ele conta que sua "sensação de perda" se originou quando seu pai jogou fora sua coleção de discos dos anos 1920 sem consultá-lo, quando era adolescente.
"Fiquei totalmente arrasado, muito zangado e perturbado", relembra ele. "A questão é que ele estava me impondo sua vontade. Aquilo permaneceu comigo, no meu subconsciente."
"Não sei se aquilo se tornou um gatilho para guardar as coisas e ter certeza de que ninguém as jogasse fora, mas suspeito que, provavelmente, sim."
'Miniluto'
Uma "sede de conhecimento" inata acabou levando Horace a empilhar livros e jornais, com a intenção de recortar trechos interessantes mais tarde.
Ele chegava a examinar as caixas de material reciclável dos vizinhos, com a ideia de que desperdiçar informações valiosas era intolerável.
"Eu tinha uma montanha de jornais, quase da minha altura, bloqueando meu hall de entrada e minha escada", ele conta.
"Eu precisava escalar a pilha para chegar a outro cômodo. Havia sacos e sacos de livros e jornais empilhados que eu havia coletado por 20 anos."
"É ridículo pensar em como entrei naquela situação, mas aconteceu", relembra ele.
Horace afirma que reduziu drasticamente sua coleção ao longo do tempo, mas descreveu o ato de se desfazer das suas coisas como um "miniluto". Ele observava os objetos que ele adorava desaparecerem, sabendo que nunca mais iria vê-los de novo.
Jess e Horace entraram para um grupo de voluntários chamado Making Space, financiado pelo Conselho Municipal de Bristol. A organização ajuda a fornecer apoio prático e emocional para as pessoas que sofrem da condição.
Voluntários recebem treinamento sobre como trabalhar individualmente com os moradores e devem poder oferecer duas horas do seu tempo por semana.
A gestora de casos Naomi Morgan descreve como é "imensamente recompensador" se tornar "parte integrante da transformação da vida das pessoas", aumentando sua confiança e seu bem-estar.
Jess afirma que a experiência individualizada não só a ajudou a abrir espaço, mas a "construir um lar". Agora, ela está ansiosa em busca de "um futuro mais sociável e menos obstruído pela ansiedade".
'Desvendando as origens'
Jess, agora, compreende melhor as causas das suas tendências acumuladoras. Mas ela conta que "foi uma longa jornada".
"É muito difícil para as pessoas com transtorno de acumulação compreender por que fazem o que fazem, por que vivem desta forma", explica ela. "Não faz sentido e é difícil desvendar as origens."
Horace incentiva as pessoas a terem "gentileza, paciência, respeito e empatia" com pessoas que sofrem da condição, permitindo que elas mantenham o controle.
"Mesmo se você não conseguir entender, não julgue", ele pede. "Tente apoiá-los incentivando, sem dizer simplesmente 'isso não é forma de se viver'."
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