Groenlândia

Trump sobe o tom com a União Europeia e insiste na anexação da Groenlândia

Irritado com decisão dos aliados de cerrar fileiras com a Dinamarca e responder à ameaça de sobretaxas comerciais, o presidente dos EUA insiste na anexação do território dinamarquês e "desaconselha" qualquer reação dos atingidos

Cartaz exibido no cenário glacial de Nuuk repele as pretensões de Trump sobre o território:
Cartaz exibido no cenário glacial de Nuuk repele as pretensões de Trump sobre o território: "A Groenlândia não está à venda" - (crédito: Jonathan Nackstrand/AFP)

Um dia depois de ameaçar os parceiros europeus com a imposição de sobretaxas comerciais, caso insistam em agir contra sua pretensão de anexar aos Estados Unidos a Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca, o presidente Donald Trump desaconselhou os eventuais afetados pela represália de adotarem algum tipo de retaliação — passo cogitado por alguns governos de países-membros da União Europeia, que discutiram no domingo a crise com o aliado que lidera a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pacto militar ao qual a maior parte deles é filiada. O governante norte-americano chegou a se endereçar nominalmente à Noruega, relacionando sua pretensão ao fato de ter sido preterido na outorga do prêmio Nobel da Paz.

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Trump não esconde seu interesse pelo acesso do setor norte-americano de mineração às cobiçadas reservas de terras raras e outros minerais estratégicos presentes na ilha. A Groenlândia, situada entre Europa e América do Norte, nos limites do Círculo Polar Ártico, é a maior ilha do mundo. O presidente dos EUA alega que a superpotência "precisa" controlar o território para evitar que as rivais China e Rússia consolidem uma posição de hegemonia no Ártico. De início, oito países europeus formalizaram oposição frontal aos planos da Casa Branca e enviaram na última semana ao território uma "missão militar de exploração".

"A Dinamarca não é capaz de proteger (a Groenlândia) da Rússia ou da China", reiterou Trump em meio ao debate com os sócios da Otan e outros governos europeus — como o da Noruega, que, embora não integre a Otan, está entre os que mobilizaram efetivos para a visita ao território dinamarquês. Em mensagem endereçada ao premiê norueguês, Jonas Gahr Store, o presidente dos EUA insistiu na afirmação de que apenas o poderio militar norte-americano poderá evitar que russos e chineses se estabeleçam e controlem na prática a ilha. "O mundo não estará seguro a menos que tenhamos (os EUA) um controle total e completo sobre a Groenlândia", escreveu.

Nobel da Paz

Passados três meses desde que o comitê norueguês que outorga o Nobel da Paz anunciou a escolha da líder oposicionista venezuelana María Corina Machado para receber o prêmio relativo a 2025, Trump retomou o assunto na comunicação com Store. Voltou a questionar a escolha e a enaltecer as próprias credenciais, para ao fim sugerir que sua vocação conciliatória está "aposentada", ao menos temporariamente. "Tendo em conta que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz por ter detido oito guerras ou mais, já não me sinto obrigado a pensar apenas na paz", diz o texto, reproduzido largamente na mídia internacional. "Acredito que seja uma completa bobagem o presidente fazer isto por causa do Nobel", respondeu o premiê.

No exercício de equilíbrio entre prestar solidariedade a um parceiro na União Europeia (UE) e na Otan, sem entrar em rota de colisão com a principal potência econômica e militar do planeta, os governos de Reino Unido, Alemanha e França se somaram à Noruega e outros países nórdicos na empreitada de estabelecer mecanismos conjuntos de defesa da Groenlândia contra "qualquer" ameaça. Autoridades dinamarquesas e da administração autônoma do terrritório visitaram ontem Bruxelas para discutir a crise com altos dirigentes da UE, em especial a representante do bloco para Política Externa e Segurança, Kaja Kallas.

"Insensatez"

Em Davos, na Suíça, onde participa da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, o secretário norte-americano do Tesouro, Scott Bessent, reforçou o recado do presidente e classificou como "muito insensato", da parte dos europeus, recorrer a qualquer tipo de retaliação contra eventuais medidas tarifárias adotadas por Washington. A UE terá na quinta-feira em sua sede, na capital belga, uma reunião de cúpula extraordinária para discutir a crise aberta pelas pretensões de Trump em relação à Groenlândia. Na véspera, o tema será tratado pelos ministros de Finanças dos países do G7, que agrupa as maiores economias do mundo — inclusive os EUA.

A Comissão Europeia (CE), braço executivo o bloco, se antecipou aos encontros dos próximos dias e conclamou as partes a optar "pelo diálogo", em lugar de deixar-se arrastar por uma "escalada". No mesmo tom, o chanceler (chefe de governo) da Alemanha, Friedrich Merz, insistiu na urgência de "evitar, na medida do possível" uma guerra tarifária — tanto mais depois que muitos países, inclusive  Brasil, conseguiram reverter a sobretaxas anunciadas por Trump ao longo do ano passado, unilateralmente. Merz anunciou que tentará se reunir amanhã, em Davos, com o presidente dos EUA, à margem da reunião anual do Fórum Econômico Mundial.

No fim de semana, Trump anunciou que, a partir de 1º de fevereiro, Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia estariam sujeitos a uma tarifa de 10% sobre todos os produtos enviados aos EUA. Os oito alvos são os países que se uniram à missão militar enviada à Groenlândia. De acordo com o ministro alemão das Finanças, Lars Klingbeil, a eventual resposta a um novo tarifaço de Trump poderia se desdobrar em três direções. Em primeiro lugar, a suspensão dos acordos tarifários fechados com os EUA, seguida pela efetivação de contratarifas sobre importações com origem nos EUA, congeladas até fevereiro. Por fim, a UE poderia lançar mão de mecanismos comunitários para se contrapor à "chantagem econômica".

 

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postado em 20/01/2026 05:00
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