O mundo entra no segundo quarto do século 21 sob a sombra de uma reedição da corrida armamentista que marcou a segunda metade dos anos 1900, dominada pela Guerra Fria entre os Estados Unidos e a hoje extinta União Soviética. Atualmente, Washington e Moscou têm a companhia das demais potências nucleares oficiais. E, ao fim de duas décadas de esforços declarados para reduzir os arsenais atômicos, cada qual trata não apenas de modernizá-los, mas de reforçá-los com novas gerações de mísseis, aviões, drones e outros vetores capazes de levar explosivos aos alvos potenciais de ataque.
"Acabou a era da redução das armas nucleares no mundo, que durou desde o fim da Guerra Fria", sentencia Hans Kristensen, pesquisador associado ao Institudo Internacional para Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (Sipri) e diretor da área de informações sobre armas atômicas na Federação dos Cientistas dos EUA. "Ao contrário, o que vemos é uma tendência crescente para a ampliação dos arsenais, a radicalização dos discursos e o abandono dos acordos sobre controle do armamentismo".
Preocupa também os estudiosos do Sipri a opção dos EUA, uma das cinco potências atômicas reconhecidas oficialmente pelas Nações Unidas, de recorrer à força militar para conter a proliferação das armas não convencionais — embora, e principalmente, por se tratar de esforço concentrado contra adversários geopolíticos que, como o Irã, ainda não dispõem de ogivas, e ignorando Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, todos com capacidade nuclear bélica.
"A combinação de ataques a infraestruturas ligadas às armas nucleares com a desinformação a respeito cria o risco de transformar conflitos armados convencionais em uma crise nuclear", adverte Matt Korda, do Sipris. "Isso deveria funcionar como um forte alerta para os países que buscam assentar sua segurança crescentemente nas armas atômicas."
Em meados dos anos 1980, quando chegou ao ápice a corrida armamentista entre EUA e URSS, o mundo acumulava 64 mil ogivas nucleares. Hoje, elas são 12.241, mas essa redução está em vias de ser revertida, adverte Dan Smith, diretor do Sipri, que aponta essa nova tendência como "o aspecto mais inquietante" do momento. Desse total, atualizado no início de 2025, 3.912 ogivas estavam instaladas em mísseis e aviões. Delas, cerca de 2.100 eram mantidas em estado de alerta operacional, e as demais, em estoque. Quase todas (cerca de 90%) pertencem às duas superpotências.
Sem controle
Preocupa especialmente ao Sipri — e a seu diretor — que tenham sido desmontados, nos últimos anos, os mecanismos de controle estabelecidos entre EUA e URSS no período final do confronto ideológico-militar. Smith se refere particularmente ao acordo Start 2, de redução de arsenais nucleares, denunciado inicialmente por Donald Trump, em seu primeiro mandato (2017-2021), e, em resposta, também por Vladimir Putin. O texto tem vigência até 2026, sem perspectivas de que possam ser renegociados, ou mesmo que qualquer das partes tenha interessem em fazê-lo.
"Os sinais que temos são de que está em marcha uma nova corrida armamentista, e ela apresenta muitos riscos e incertezas mais do que a antiga", adverte o diretor do Sipri. Entre os fatores adicionais de alarme, ele menciona o rápido desenvolvimento e aplicação da inteligência artificial, de recursos cibernéticos, sistemas de defesa antimísseis e as tecnologias espaciais.
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"Estamos no meio de uma revolução nos assuntos militares — e isso acontece de tempos em tempos —, com a introdução dos drones e, logo mais, da inteligência artificial e acredito também que de robôs. Isso está revolucionando até mesmo o papel das forçar convencionais", concorda o professor de relações internacionais Gunther Ruzit, da ESPM. Em entrevista ao Correio, ele aponta impactos desse processo, inclusive, no papel reservado às forças militares ditas convencionais, ou não nucleares. "Para onde isso caminha, exatamente, não sabemos. Elas ainda vão existir, nesse novo formato, com um papel mais ativo dos drones — isso é certeza. Mas qual será o tamanho necessário para cada força, isso ainda não se sabe."
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