Venezuela em transe

EUA apresentam um plano vago para a Venezuela

Governo norte-americano afirma que o planejamento prevê três etapas: estabilização, recuperação e transição de poder. Embora o anúncio não revele prazos ou detalhes operacionais, secretário de Estado alega que "não é improvisação"

O governo dos Estados Unidos afirmou ter um plano de três etapas para a Venezuela, que inclui determinar as decisões do país por prazo indeterminado. Segundo a Casa Branca, Washington mantém "correspondência direta" com as autoridades venezuelanas e seguirá ditando os rumos do governo interino após a captura de Nicolás Maduro. Além disso, os EUA também anunciaram esperar que a presidente interina, Delcy Rodriguez, expulse do país assessores de Cuba, Rússia, China e Irã. 

"O plano não é improvisação", declarou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao apresentar a estratégia americana, composta por três fases: estabilização, recuperação e transição de poder. "O primeiro passo é a estabilização do país. Não queremos que ele desemboque em caos", frisou. Vago, o anúncio não continha prazos ou qualquer detalhe operacional dos próximos passos.

Rubio explicou apenas que a estabilização inclui uma espécie de "quarentena" da Venezuela no mercado internacional, com a manutenção de sanções e de apreensão de petroleiros. "Eles têm óleo que está preso na Venezuela. Eles não podem movê-lo por causa da nossa quarentena e porque está sancionado. Vamos tomar entre 30 e 50 milhões de barris de óleo. Vamos vendê-los no mercado, nas taxas de mercado, não nos descontos que a Venezuela estava recebendo", afirmou. 

De acordo com o secretário, os recursos obtidos serão controlados por Washington: "Esse dinheiro será, então, tratado de uma forma que nós vamos controlar como é distribuído, de uma forma que beneficie as pessoas venezuelanas, não a corrupção, não o regime".

A segunda fase do plano, chamada de recuperação, prevê a reabertura da economia do país às empresas estrangeiras. "O segundo passo é garantir que os americanos e outras empresas tenham acesso ao mercado venezuelano de uma forma justa", disse Rubio. Ele acrescentou que, paralelamente, os EUA pretendem incentivar um processo de reconciliação nacional, com anistia a forças de oposição, libertação de presos políticos e reconstrução da sociedade civil.

A última etapa, segundo o secretário de Estado, será a transição de poder. "E, então, a terceira fase, é claro, será a de transição", afirmou, mais uma vez sem qualquer informação adicional concreta. Rubio recusou-se a comentar sobre novas eleições, nomeação de um interventor ou a possibilidade de uma nova operação americana em território venezuelano, alegando que alguns pontos ainda são sensíveis. O papel da oposição da Venezuela nesse cenário também não foi mencionado.

As declarações ocorreram após críticas de que Washington não teria um plano claro para a Venezuela depois da prisão de Nicolás Maduro, no último sábado (3/1). Desde então, o país tem sido governado interinamente por Delcy Rodríguez, um dos principais nomes do chavismo. Na terça-feira (6/1), Rodríguez afirmou que não havia "agente externo" governando o país.

Exigências

Em uma reunião secreta realizada na segunda-feira com importantes líderes do Congresso americano, Rubio listou algumas exigências que teriam sido feitas pelo governo Trump à gestão de Delcy. Segundo informações do The New York Times, os representantes dos EUA, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a discutir o assunto publicamente, afirmaram que "espiões" e militares de Cuba, Rússia, China e Irã seriam forçados a deixar o país, enquanto alguns diplomatas teriam permissão para permanecer na Venezuela.

Horas depois das falas de Rubio, a Casa Branca reforçou a posição de que os EUA influenciam diretamente o governo venezuelano. "Os Estados Unidos trabalham com a Venezuela, a administração Trump mantém uma correspondência direta com as autoridades interinas. Suas decisões continuarão a ser ditadas por nós", declarou a porta-voz de Trump, Karoline Leavitt. Ela também afirmou que discutir um calendário eleitoral é "muito prematuro".

Para Ricardo Caichiolo, professor de relações internacionais e diretor do Ibmec Brasília, a viabilidade do plano é incerta e envolve riscos elevados, pois mesmo com avanços no enfraquecimento do núcleo do poder chavista, a governabilidade do país depende do comportamento das Forças Armadas, de lideranças regionais e do controle de grupos armados. "Além disso, a gestão externa de ativos petrolíferos já provoca questionamentos jurídicos e políticos, inclusive dentro dos EUA, o que pode prolongar a instabilidade e transformar a primeira fase prevista para estabilização em um processo mais longo do que o inicialmente previsto."

O especialista destaca que a reação internacional frente à estratégia norte-americana tende a ser fragmentada, com, de um lado, aliados ocidentais sinalizando apoio cauteloso à transição, mas demonstrando desconforto com o uso explícito de instrumentos militares; de outro lado, Rússia e China rejeitam a iniciativa, classificando-a como violação da soberania venezuelana e do direito internacional. "Na América Latina, o sentimento é misto. Enquanto governos de direita tendem a celebrar o enfraquecimento do regime, cresce na região o receio de um retorno do intervencionismo militar direto dos EUA, agora com uma formulação que não prevê somente a contenção de potências extracontinentais, mas que também autoriza a adoção de ações unilaterais em nome da segurança, da energia e da estabilidade política hemisférica."

No cenário político interno, a oposição venezuelana contesta a legitimidade do governo interino. A líder opositora María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz no ano passado, defende que Edmundo González, candidato oposicionista, deveria assumir o poder. Para a oposição ao chavismo, González foi o vencedor real das últimas eleições, e só não foi alçado ao poder no país por fraudes generalizadas patrocinadas pelo regime.

ENTENDA O PLANO DE TRÊS ETAPAS

Primeira fase: estabilização

Isola a Venezuela no mercado internacional, com sanções e apreensão de petroleiros ligados ao país, o óleo fica preso, em quarentena. Entre 30 e 50 milhões de barris serão comercializados pelos EUA, com os recursos obtidos pela venda sendo administrados por Washington. 

Segunda fase: recuperação 

Prevê a reabertura da economia venezuelana para empresas estrangeiras. Segundo Marco Rubio, nesta etapa, os EUA pretendem incentivar um processo de reconciliação nacional, com anistia a forças de oposição, libertação de presos políticos e reconstrução da sociedade civil.

Terceira fase: transição de poder

Trata da reorganização do poder político. Marco Rubio, contudo, não falou sobre novas eleições, evitou comentários a respeito do papel da oposição chavista e não deu qualquer prazo para as mudanças. O secretário de Estado também não citou a possibilidade de uma nova operação em território venezuelano.

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Arquivo pessoal - Frederico Afonso, mestre em direito internacional

"Oposição é vital"

"Do ponto de vista do direito internacional, a fase de transição é a mais sensível, pois envolve o reconhecimento de autoridades, a legitimidade do processo eleitoral e o respeito aos princípios democráticos. A ausência de um cronograma claro reforça a necessidade de cautela, uma vez que transições conduzidas sem base jurídica sólida tendem a gerar instabilidade e contestação internacional. A participação da oposição aqui será vital. Em síntese, embora o plano seja apresentado como uma iniciativa para restaurar a estabilidade e a democracia na Venezuela, ele coloca em tensão princípios centrais do direito internacional, como soberania, não intervenção e autodeterminação dos povos. Sua legitimidade jurídica dependerá, em grande medida, do grau de multilateralização do processo, do respeito às normas internacionais de direitos humanos e da efetiva devolução do protagonismo político ao povo venezuelano."

Frederico Afonso, mestre em direito internacional

Marco Rubio vira peça central na nova ordem trumpista

Com ações dos Estados Unidos cada vez mais fortes e drásticas em diversas frentes, o secretário de Estado, Marco Rubio, vive um momento crucial, com grande destaque mundial, sobretudo após a deposição e prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro. 

Segundo informações da agência de notícias France-Presse (AFP), quando convocou uma coletiva de imprensa para falar do ataque militar à Venezuela, o presidente dos EUA, Donald Trump, se voltou a Rubio diversas vezes, solicitando respostas sobre os próximos passos. Para especialistas, essa posição acrescenta uma carga extra para o político de 54 anos, que, além de chefiar a diplomacia americana, também é conselheiro de Segurança Nacional na Casa Branca — e agora terá a responsabilidade de guiar a relação entre o governo norte-americano e a Venezuela.

Para João Vitor Cândido, internacionalista e comunicólogo internacional e político, o protagonismo de Marco Rubio não é casual. “Ele ocupa um espaço central na formulação e, principalmente, na venda política dessa estratégia, traduzindo ações duras em um discurso de democracia, segurança regional e combate a ilícitos, algo que a literatura mostra ser fundamental para obter apoio doméstico e reduzir custos reputacionais internacionais. Já Donald Trump, ao permitir que Rubio lidere essa narrativa, reforça sua própria imagem de força e decisão, sem necessariamente assumir sozinho os riscos políticos de longo prazo.”

Diplomatas e especialistas latino-americanos em Washington afirmam que Rubio domina os assuntos da região, tendo passado mais de uma década em cargos de política externa e inteligência no Senado. O foco do secretário sempre foi contra o que ele considera uma "ameaça esquerdista" excessiva na América Latina, e seu momento chegou com a reeleição de Trump. (Isabella Almeida)

As duas vítimas dos EUA: Maduro e a oposição

RODRIGO CRAVEIRO

Horas depois de atacar a Venezuela e depor Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descartou entregar à ex-deputada María Corina Machado o cargo mais alto do Palácio de Miraflores. De quebra, alijou a oposição de qualquer influência nos processos decisórios. Edmundo González Urrutía, o ex-diplomata que reivindicou a vitória nas eleições presidenciais de 28 de julho de 2024, fugiu para Madri. Outras lideranças opositoras, como o ex-prefeito de Caracas António Ledezma; o advogado Leopoldo López; e o presidente autodeclarado da Venezuela, Juan Guaidó; viram-se forçados ao exílio.

Para Trump, a ascensão de María Corina ao governo aumenta o risco de uma guerra civil no país sul-americano, ante a justificativa de que a opositora não contaria com amplo apoio popular. "Seria muito difícil para ela liderar o país", declarou o republicano. "Não inspira respeito", avaliou. Em várias ocasiões, a ex-deputada e Edmundo González apelaram, em vão, à Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) para que se rebelasse contra o regime chavista. 

Nos últimos anos, com a escalada repressiva de Maduro, a oposição venezuelana fragmentou-se. "Na Venezuela, não existe uma oposição, mas uma maioria democrática que ganhou as eleições em 2024. A maioria da população segue contra o chavismo e contra Maduro. O que existe é um deslocamento no tempo, à espera de uma situação de maior estabilidade para entrar no processo político de transição", explicou ao Correio José Vicente Carrasquero Aumaitre, professor de ciência política da Universidad Simón Bolívar (USB), em Caracas. "Acredito que essa maioria democrática pode começar a se organizar para o processo de assunção ao poder." 

"Duro golpe"

A venezuelana María Isabel Puerta, professora de ciência política da Universidade do Colorado (EUA), admitiu ao Correio que a ofensiva dos EUA para derrubar Maduro foi um "duro golpe para María Corina e para toda a oposição". "A decapitação não se limitou a Maduro. Por ora, a aspiração de Machado de liderar uma transição democrática na Venezuela parece inviável", comentou. Ainda segundo Puerta, Edmundo González, na condição de presidente eleito, tem a liderança política associada à de María Corina. "Os outros nomes da oposição têm menos possibilidades. Além da falta de reconhecimento de Machado, há o argumento do governo Trump de que a oposição está ausente na Venezuela, uma vez que seus membros vivem no exílio."

Por sua vez, Imdat Oner — ex-diplomata turco que residiu em Caracas entre 2014 e 2016 e analista político da Universidade Internacional da Flórida — reconhece que a oposição foi claramente relegada ao segundo plano. "A saída de Maduro não se traduziu em uma passagem de poder para as forças democráticas. Pelo contrário, o controle permaneceu dentro do aparato do Estado e da segurança, agora encabeçado por Delcy Rodríguez. O que vemos é uma transição gerida a partir do interior do regime e não liderada por figuras opositoras que reclamam legitimidade democrática", afirmou à reportagem. 

 

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