Uma coleção de moda apresentada recentemente em Nova York, nos Estados Unidos, chamou atenção por causa da matéria-prima. As 37 peças da coleção “I Wool Survive” (um trocadilho com I will survive), criada pelo estilista Michael Schmidt em parceria com o Grindr, foram feitas com lãs do primeiro rebanho de ovelhas gays do mundo.
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A matéria-prima vem de uma fazenda chamada Rainbow Wool, em Löhne, na Alemanha. A propriedade é administrada por Michael Stücke, agricultor e ativista assumidamente gay. Ele resgata carneiros que demonstram orientação sexual por outros machos — animais que, segundo a própria Rainbow Wool, costumam ser abatidos em fazendas tradicionais por não cumprirem sua função reprodutiva. Estudos científicos apontam que até 8% dos carneiros apresentam comportamento homossexual.
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“A lã dos carneiros não é apenas um material — é uma mensagem tecida a partir de animais que vivem livres e são amados”, afirmou o agricultor em comunicado.
A fazenda de Stücke também se destaca pelo compromisso ambiental. O projeto adota uma agricultura holística e sustentável, em parceria com ambientalistas e autoridades locais. As ovelhas desempenham papel central na preservação da biodiversidade: o esterco é o único fertilizante utilizado nas áreas verdes, servindo de base para insetos que alimentam aves migratórias e espécies raras.
Além disso, os animais atuam como “cortadores de grama naturais” em áreas protegidas de difícil acesso, ajudando a preservar plantas ameaçadas de extinção na reserva natural Enger Bruch, vizinha à fazenda. A tosquia anual é aberta ao público, garantindo transparência quanto ao bem-estar animal.
Nada se perde: até o excesso de gordura da lã é reaproveitado na produção de protetor labial vendido localmente. Visitas guiadas também ajudam a manter o projeto, com toda a renda revertida para o cuidado dos animais.
Qualquer pessoa também pode apadrinhar um carneiro gay com doações a partir de US$ 35 (R$ 190), garantindo simbolicamente “mais um dia de vida feliz na fazenda” para animais com nomes como Horny, Franz Kafka e Wollie Wonka. Na página da fazenda, é possível ver fotos de cada um dos 21 carneiros que fazem parte do projeto.
Após a tosquia, que é feita sem nenhum dano aos animais, a lã é lavada, escovada e enviada a um parceiro em Barcelona, onde é combinada com fios acrílicos para se tornar adequada à produção industrial das peças.
Toda a renda da venda dos produtos da Rainbow Wool, que incluem bonés e patches, é destinada à LSVD+, organização não-governamental que apoia comunidades LGBTQIA+ em países onde ser queer ainda é ilegal ou perigoso.
Moda e ativismo
A coleção apresentada em Nova York mistura fantasia, fetiche e crítica social. Entre os looks, surgem arquétipos clássicos da cultura gay reinterpretados em lã: uma releitura sensual de Adão, cavaleiros, figuras greco-romanas e personagens inspirados em marinheiros, atletas e trabalhadores braçais. As peças equilibram humor, sensualidade e discurso político.
Michael Schmidt, conhecido por vestir nomes como Madonna, Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga e Lil Nas X, afirmou que a proposta vai além do impacto visual. “É uma coleção descontraída, mas que aborda um tema muito sério: o preconceito — tanto contra animais homossexuais quanto contra pessoas LGBTQIA+. Mostrar que a homossexualidade existe em todo o reino animal ajuda a desmontar a ideia falsa de que ser gay é uma escolha”, destacou em comunicado.
Todas as peças serão leiloadas. Essa não é a primeira vez que a fazenda faz uma ação do tipo. Em abril de 2025, a coleção 'Rainbow Wool Drama', assinada pelos estilistas de Kilian Kerner e Danny Reinke, foi leiloada em prol dos direitos das pessoas LGBTQIA+. As peças eram feitas com a lã das ovelhas do projeto e estrearam em tapetes vermelhos na Europa.
