A saída dos Estados Unidos da convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, um dos 66 organismos internacionais listados pelo secretário de Estado, Marco Rubio, como "ineficientes, prejudiciais ou que desperdiçam recursos", rendeu duras críticas de cientistas e especialistas em clima. A UNFCCC é o principal tratado global para coordenar e elaborar respostas para o aquecimento global — o Acordo de Paris foi criado na convenção.
"É um gol contra colossal, que prejudicará o país, deixando os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos", reagiu, em nota, o chefe da ONU para o Clima, Simon Stiell. Além da UNFCCC, a lista de cortes inclui o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), um importante consórcio internacional de cientistas que elaboram relatórios para subsidiar políticas públicas relacionadas ao clima. O órgão foi ganhador do prêmio Nobel da Paz em 1997.
Para a administração Trump, porém, "não é mais aceitável enviar a essas instituições o sangue, o suor e o tesouro do povo americano, sem quase nada em troca". Em um comunicado de imprensa, Rubio afirmou que "os dias em que bilhões de dólares do dinheiro dos contribuintes fluíam para interesses estrangeiros às custas do nosso povo acabaram".
O responsável por políticas climáticas da União Europeia disse, no Linkedln, que "a decisão da maior economia do mundo e do segundo maior emissor de gases de efeito estufa (...) é lamentável e infeliz". "Certamente continuaremos apoiando a pesquisa climática internacional como a base de nossa compreensão e de nosso trabalho. Também continuaremos trabalhando na cooperação climática internacional", escreveu.
Negacionismo
Outros organismos relacionados à ciência, como a ONU-Oceano, a União Internacional para a Conservação da Natureza, o Pacto de Energia Livre de Carbono 24/7, a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos e a Aliança Internacional Solar também foram descredenciados pelos Estados Unidos. "Isso, basicamente, significa negar a ciência. É fechar o olho, é uma estratégia negacionista para conduzir políticas internas que são, obviamente, contrárias aos que os relatórios da ONU e de outras entidades mostrarão", opina o professor da Universidade Federal de Goiás Rafael Loyola, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (REC).
Embora Marco Rubio tenha falado em "desperdício de recursos", Loyola destaca que os Estados Unidos serão extremamente prejudicados pela saída dos organismos internacionais. "Eles ficarão menos preparados para o enfrentamento dos efeitos que as mudanças climáticas trazem, principalmente em termos de adaptação. Assim, ficarão cada vez mais vulneráveis, inclusive em termos econômicos, porque isso trará menos investimento estrangeiro", diz o ecólogo, que também é diretor de Desenvolvimento na Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).
A norte-americana Rachel Cleetus, diretora sênior de políticas da União de Cientistas Preocupados, concorda que haverá prejuízo para os Estados Unidos. "As mentiras descaradas do governo Trump sobre as realidades científicas das mudanças climáticas, bem como seus ataques às políticas climáticas e de energia limpa e às agências federais, são profundamente prejudiciais aos interesses do povo dos Estados Unidos", diz a economista. "Esse governo permanece cruelmente indiferente aos fatos incontestáveis sobre o clima, enquanto cede aos interesses dos poluidores movidos a combustíveis fósseis."
No ano passado, a administração Trump abandonou o Acordo de Paris (pela segunda vez) e se retirou da Organização Mundial da Saúde (OMS), dando continuidade a uma campanha de negação de fatos científicos. Na segunda-feira, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) retirou seis vacinas infantis do calendário federal, incluindo as imunizações contra meningite, influenza e hepatite.
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