Irã em convulsão

Israel e países do Golfo dissuadiram Estados Unidos de atacar Irã

Rivais do Irã, nações do Oriente Médio temem instabilidade regional ante ofensiva militar contra regime teocrático islâmico. Casa Branca garante que Teerã suspendeu 800 execuções de manifestantes, previstas para quarta-feira (14/1)

Pedidos feitos pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e por países do Golfo Pérsico demoveram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar o Irã. Netanyahu e seu principal aliado conversaram sobre o assunto na quarta-feira. Pouco depois, o titular da Casa Branca anunciou que o massacre de manifestantes iranianos "estava parando" e que Teerã não mais executaria pessoas envolvidas nos protestos. Com medo de um espalhamento do conflito por todo o Oriente Médio, os governos de Arábia Saudita, Catar, Omã e Egito, também aliados de Washington, fizeram coro ao apelo de Washington e instaram Trump a desistir de uma ofensiva militar contra o Irã. Apesar de ter suavizado a retórica belicista, a Casa Branca impôs sanções a figuras do regime e da economia iranianas.

Nos últimos dias, o regime iraniano ameaçou atacar bases militares dos EUA na região — pelo menos 40 mil soldados americanos estão de prontidão nessas instalações. Na quarta-feira, os Estados Unidos ordenaram a evacuação parcial da base de Al-Udeid, no Catar. A medida de precaução fomentou a expectativa de um ataque iminente. 

Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, anunciou que o Irã suspendeu 800 execuções previstas para anteontem. Ela advertiu que Donald Trump não descarta um ataque militar contra o regime teocrático islâmico. "O presidente entende que as 800 execuções que estavam programadas e que deveriam ocorrer ontem (quarta-feira) foram suspensas". (...) Todas as opções seguem sobre a mesa para o presidente", afirmou. Segundo ela, Trump advertiu as autoridades iranianas sobre "graves consequências", caso mais manifestantes fossem assassinados pelas forças de repressão.

"O fato de que o regime iraniano estava planejando executar 800 pessoas e agora não o farão não significa que os EUA e o resto da comunidade internacional devam esquecer os milhares de assassinados nas ruas", disse ao Correio o ativista Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da organização não governamental Iran Human Rights (IHR), sediada na Noruega. "Além disso, o próprio planejamento da execução de 800 pessoas pode ser considerado crime pelo direito internacional, mesmo que as execuções não sejam concretizadas." Teerã desmentiu, ontem, que Erfan Soltani, um manifestante de 26 anos detido no sábado, seria enforcado. Preso em Karaj, perto de Teerã, ele é acusado de propaganda contra o regime islâmico iraniano e de agir contra a segurança nacional.

Os Estados Unidos sancionaram as autoridades de segurança e bancárias iranianas, às quais acusam de planejar a repressão violenta, que custou mais de 3,4 mil mortes, e de lavar bilhões de dólares em receitas do petróleo. "Os EUA apoiam firmemente o povo iraniano em sua demanda por liberdade e justiça", declarou o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, é um dos sancionados. As autoridades de Washingtom acreditam que ele tenha coordenado pessoalmente o massacre de manifestantes e ordenado o uso de força contra manifestantes. 

Pragmatismo

Especialista em Oriente Médio pela Universidade de Harvard, o cientista político Majid Rafizadeh explicou ao Correio que o alerta feito pelos países do Golfo contra um ataque ao Irã tem menos a ver com a simpatia por Teerã e mais com um interesse próprio pragmático. "Países como Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã veem um ataque americano — especialmente se direcionado à mudança de regime — como altamente imprevisível e potencialmente catastrófico para a estabilidade regional", avaliou. "Embora vejam o Irã como um rival estratégico, eles entendem que a guerra não ficaria contida dentro das fronteiras iranianas e rapidamente se espalharia para o Golfo."

Para Rafizadeh, o temor das nações rivais do Irã se resume a uma questão prática. "Teerã poderia retaliar contra bases dos EUA e contra a infraestrutura de energia localizada em seus territórios, interromper o tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz e provocar um choque nos mercados globais de petróleo que prejudicaria diretamente as suas economias", advertiu. 

EU ACHO...

Arquivo pessoal - Majid Rafizadeh, cientista político iraniano-americano e professor da Universidade de Harvard

"Além do receio de ataques a bases americanas em seus territórios, os países do Golfo Pérsico se preocupam com o caos regional mais amplo, incluindo a escalada no Iraque ou no Iêmen e as pressões sobre a segurança interna. Em resumo, a mensagem deles para os EUA reflete gestão de riscos, não um alinhamento com Teerã — eles preferem um Irã hostil, porém previsível, a uma guerra regional cujos custos eles inevitavelmente arcariam primeiro."

Majid Rafizadeh, cientista político e especialista em Oriente Médio pela Universidade de Harvard

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