
Blefe, pressão ou recuo na retórica belicista? Depois de ordenar a retirada de pessoal não essencial da base militar de Al Udeid, no Catar, "em resposta às tensões regionais", o presidente dos Estados Unidos declarou ter sido informado por uma "fonte segura" de que as "execuções" pararam no Irã. "O massacre no Irã está parando. Parou... E não há plano para execuções", afirmou Donald Trump, ao ser questionado sobre planos de atacar o regime de Teerã. "Estou certo de que, se isso ocorrer, todos nós ficaremos muito chateados. O que chegou até mim é que não vão executar ninguém", acrescentou o republicano.
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Horas antes do discurso de Trump, o Judiciário iraniano tinha anunciado julgamentos "rápidos" de manifestantes. Havia a expectativa de que Erfan Soltani, 26 anos, fosse executado ainda nesta quarta-feira (14/1). A Anistia Internacional pediu aos aiatolás que "suspendam imediatamente todas as execuções". O destino de Soltani é incerto.
O Reino Unido fechou sua embaixada na capital iraniana. Espanha, Itália e Polônia recomendaram aos seus cidadãos que abandonem o país persa. Segundo a agência Reuters, Trump estaria decidido a levar adiante uma ação militar. Uma autoridade europeia chegou a dizer que a ofensiva ocorreria nesta quinta-feira (15). O comandante da Guarda Revolucionária avisou que Teerã está "preparado para responder com firmeza" aos EUA e a Israel. "A Guarda Revolucionária está no nível máximo de preparação", declarou Mohammad Pakpour. Na noite desta quarta-feira, o Irã fechou o espaço aéreo e cancelou todos os voos internacionais. Teerã ameaçou retaliar um bombardeio com ataques a bases militares americanas no Oriente Médio. Os EUA mantêm 40 mil soldados na região.
Adversários de Teerã, os governos de Arábia Saudita, Omã e Catar reforçaram os canais diplomáticos com Washington para demover a Casa Branca de uma iniciativa bélica. Abbas Araghchi, chanceler iraniano, assegurou que o regime teocrático islâmico tem "total controle" dos protestos. "Após três dias de operação terrorista, agora há calma", afirmou.
A organização Iran Human Rights (IHR), sediada em Oslo (Noruega), anunciou que 3.428 manifestantes foram mortos e 10 mil acabaram detidos. Pelo menos 100 militares também morreram em confrontos — alguns deles foram sepultados nesta quarta-feira.
Kamran Teymouri, ativista de direitos humanos curdo iraniano e membro da ONG Hengaw, colocou em xeque a declaração de Trump. "Ele diz coisas controversas e atacou instalações nucleares iranianas durante negociações com o regime. Talvez isso faça parte de sua operação de desinformação", afirmou ao Correio. "Trump muda de decisão de tempos em tempos, é uma tática. Um ataque é uma forte possibilidade, pois o próprio presidente disse que o regime cruzou uma linha vermelha."
"Imprevisível"
"Com o presidente Trump, nada é claro. Ele continua tão imprevisível como sempre. Mas considero o risco de conflito como perigosamente alto", admitiu ao Correio Ali Vaez, especialista em Irã do think tank International Crisis Group. Ele explicou que os vizinhos do Irã temem que mesmo um ataque de proporções limitadas os coloque em meio ao fogo cruzado. "Isso aconteceu com o Catar, em junho, quando Israel e EUA atacaram o território iraniano. Essas nações também temem que, se os americanos partirem para um ataque direto, isso possa transformar um país de 90 milhões de habitantes em mais um Estado falido, com instabilidade, radicalização e fluxo migratório intenso para seus territórios."
Para Majid Rafizadeh, especialista em Oriente Médio pela Universidade de Harvard, Trump pode ser visto como um incitador e, sob um senso político limitado, um líder simbólico dos protestos no Irã. "Apesar de não ser um líder operacional no terreno e de não organizar ou coordenar ações dentro do país, suas declarações vão além de simples comentário. Trump fornece direção política no nível narrativo, encoraja a escalada e a persistência dos protestos, assinala apoio internacional e enquadra a luta como parte de um confronto mais amplo com a República Islâmica do Irã", explicou ao Correio.
O estudioso de Harvard lembrou que regimes autoritários quase sempre reclamam, falsamente, controle sobre os protestos. "No Irã, 'controle' significa repressão pesada, prisões em massa, blecautes de internet, mobilização das Forças Armadas e das milícias Basij — grupo paramilitar subordinado à Guarda Revolucionária. A transformação dos protestos em grande revolta depende de três fatores: da continuidade das manifestações; da expansão para setores-chave do Irã (funcionários da indústria petrolífera e do setor de transportes, professores e comerciantes); e de fraturas entre a elite e o regime iraniano", disse.
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