O futuro de Portugal começará a ser decidido, hoje, quando 11.039.672 eleitores irão às urnas para escolher, entre 11 candidatos, quem será o próximo presidente da República. Apesar de favorito no primeiro turno, André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega, tem poucas chances de conquistar a principal cadeira do Palácio de Belém, em Lisboa, e suceder o atual presidente, o conservador Marcelo Rebelo de Sousa. Com Ventura praticamente garantido na nova rodada eleitoral, em 8 de fevereiro, segundo as pesquisas de opinião pública, a incógnita fica por conta de quem será o seu adversário. As sondagens colocam o socialista António José Seguro e o direitista Luís Marques Mendes, apoiado pelo premiê Luís Montenegro, com chances reais de disputar o segundo turno com Ventura. Mesmo que o candidato da extrema-direita não chegue ao poder, é praticamente certo que o pleito de hoje consolide a ascensão eleitoral de seu partido.
Na sexta-feira passada, último dia de campanha, Ventura demonstrava otimismo. "Continuamos a liderar todas as sondagens. Vamos lá vencer isto no domingo. Socialismo nunca mais!", escreveu em seu perfil na rede social X. Ele pediu que o Partido Social Democrata (PSD), de Montenegro, e o Iniciativa Liberal (IL), de João Cotrim de Figueiredo, não criem um obstáculo a uma eventual vitória sua que "impeça o socialismo" de retornar ao poder. "Se, como os números indicam, o segundo turno for entre mim e Seguro, o que eu espero do líder do PSD, da Iniciativa Liberal e de outros movimentos e de apoios mais conservadores e de direita, é que não sejam um obstáculo", declarou o líder do Chega, citado pelo jornal Diário de Notícias.
Mendes encerrou a campanha com um almoço com mulheres, em Lisboa, e uma caminhada em Sintra. "Quero ser presidente de todos, com moderação e independência, para unir Portugal e defender a nossa estabilidade democrática", declarou. Por sua vez, Seguro fez um alerta ao eleitorado: "Não basta ter o voto no coração e na cabeça. É necessário colocar a cruzinha no quadrado à frente da fotografia do Seguro". "Só serei presidente se a maioria dos portugueses votar em mim. Tenho essa confiança, muita confiança", acrescentou o socialista, que escolheu a cidade de Porto para finalizar a campanha.
Professor de ciência política da Universidade Nova de Lisboa, João Cancela explicou ao Correio que as probabilidades de André Ventura chegar à Presidência de Portugal são baixas. "Isso por ser necessário ter mais da metade dos votos, e Ventura é o candidato com taxas de rejeição mais elevadas. Ainda assim, somente a chegada ao segundo turno, que neste momento parece uma forte possibilidade, seria uma vitória em si mesmo (para a extrema-direita). Tal resultado consolidaria, definitivamente, a normalização do Chega e de Ventura na política portuguesa", observou. O segundo turno somente será evitado se um candidato obtiver maioria absoluta dos votos. O estudioso vê o liberal de direita João Cotrim Figueiredo também com chances de encarar Ventura em fevereiro. Contra ele pairam acusações de assédio feitas por uma ex-colaboradora.
Cancela credita ao fenômeno de crescimento da extrema-direita o fato de o Chega ter ocupado o espaço deixado por partidos tradicionais percebidos como distantes, pouco responsivos e incapazes de dar resposta a sentimentos de abandono. "O Chega começou a ser mais bem-sucedido entre jovens do sexo masculino de áreas periférias, muitos deles sem educação superior e que estavam essencialmente desligados da política. A desconfiança nas instituições e a mobilização de 'outsiders' internos como foco de ressentimento funcionaram neste público. Além disso, erodiram as barreiras normativas que antes estigmatizavam o tipo de discurso feito pelo Chega — mesmo que as atitudes anti-imigração e anti-elites estivessem presentes no eleitorado português antes da emergência do partido", acrescentou.
Rejeição
Marco Lisi, professor do Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (em Lisboa), concorda com Cancela em relação às chances de Ventura. "As probabilidades são praticamente nulas. No segundo turno, qualquer candidato terá, facilmente, a maioria absoluta dos votos. Existe uma forte rejeição em relação ao Chega por parte do eleitorado moderado e, sobretudo, de esquerda", afirmou ao Correio. Ele compartilha da ideia da existência, em Portugal, de uma grande adesão à crítica contra o sistema. "Há uma insatisfação em relação ao sistema político e uma elevada perda de afeição em relação ao establishment, sobretudo entre os grupos mais jovens."
Lisi destacou que o tema da imigração tornou-se nevrálgico nos últimos anos. "O crescimento exponencial da imigração não europeia (sobretudo asiática) tem sido associado a vários problemas em Portugal, tanto econômicos quanto sociais", comentou. O partido de André Ventura também se beneficia da crise de credibilidade das principais legendas portuguesas, afetadas por uma série de escândalos ao longo da última década, o que prejudicou a imagem desgastada da elite política. "Finalmente, o Chega teve sucesso por causa do sucesso da liderança populista de Ventura, que adotou outro tipo de linguagem e outro tipo de comunicação — baseado fortemente nas redes sociais."
