
O cancelamento do tradicional Festival del Habano, um evento que expõe e comercializa charutos cubanos há 27 anos, soou como um termômetro da grave crise econômica que assola Cuba. Em 2025, o leilão de charutos e estojos de luxo permitiu arrecadar 16,4 milhões de euros (cerca de R$ 101,44 milhões). No entanto, são os 9,6 milhões de cubanos que sofrem o impacto mais devastador do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos, sob o comando do republicano Donald Trump.
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"O número de pessoas que buscam e comem diretamente do lixo é muito alarmante. Não são somente sem-teto, mas profissionais aposentados, que não tiveram escolha", relatou ao Correio o professor de educação física Mário Bermúdez (nome fictício), morador de Havana. "Nós nascemos em meio à resignação, à desesperança e ao cansaço. Aqueles que alguma vez saíram de Cuba têm dificuldade em acreditar que a vida pode ser vivida de outra forma", acrescentou.
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Ao estrangulamento energético levado a cabo pelos EUA, soma-se o embargo de Washington contra a ilha comunista desde 1962. No ano passado, a economia cubana encolheu cerca de 5%, segundo dados do Centro de Estudos da Economia Cubana. Trump ameaçou punir com tarifas qualquer país que abasteça Havana com petróleo. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, determinou uma série de medidas para tentar impedir uma reação em cadeia na sociedade: o fechamento de escolas e hotéis, a redução laboral para meia jornada semanal, a adoção da modalidade de ensino remoto para as universidades, a restrição sobre o comércio de combustível e uma diminuição nas viagens rodoviárias e ferroviárias entre províncias.
Bermúdez explicou que a crise energética tem impossibilitado a refrigeração de alimentos e inviabilizado o funcionamento de hospitais. "Radiografias, cirurgias e exames são alguns dos serviços mais afetados. Nas casas, por não podermos usar ventiladores, as doenças por picadas de mosquitos explodiram. Há anos, a vida por aqui deixou de ser sustentável. No entanto, a decadência acelerou-se desde 2024. O povo não vê a luz no fim do túnel. Pior, não existe nem túnel", assegurou. Para tentar se alimentar, as pessoas mais vulneráveis dependem do apoio de familiares, vizinhos e da igreja. Em relação ao fornecimento de energia elétrica, o morador de Havana reconhece que a situação melhorou na última semana. "Desde setembro de 2025, o normal era termos apenas oito horas diárias de eletricidade. Isso nos torna privilegiados, porque, no resto do país, o blecaute durava até 22 horas."
Nos últimos dias, alguns países desafiaram os Estados Unidos e enviaram ajuda humanitária para Cuba. O México, única nação a não cortar relações com a ilha desde sua expulsão da Organização dos Estados Americanos (OEA), em 1962, mandou 814t de leite líquido e em pó, produtos cárneos, biscoitos, feijão, arroz e itens de higiene pessoal. A organização não governamental Va por Cuba criou a campanha "De cidade em cidade, vamos acabar com o bloqueio" e receberá donativos até 22 de fevereiro na Praça do Zócalo, no centro da Cidade do México. O Chile confirmou a intenção de repassar US$ 1 milhão por meio de um fundo do Unicef. Por sua vez, a Rússia prepara um carregamento de petróleo.
Contração
Quando questionado se Cuba está à beira do colapso econômico, o britânico Stephen Wilkinson, professor de política e relações internacionais da Universidade de Buckingham (Reino Unido), respondeu ao Correio que depende de como se define o termo. "Na prática, a contração econômica provocada pela escassez crônica de combustível levou ao colapso grande parte da economia. Isso significa que o sistema está à beira do colapso? Não, porque o governo tomou medidas deliberadas para paralisar as atividades, visando poupar recursos e distribuir a escassez. Trata-se de uma contração controlada, em meio a uma guerra econômica, explicou Wilkinson, também editor do International Journal of Cuban Studies.
O estudioso acusa o governo do presidente Donald Trump de violar todas as leis internacionais, em sua abordagem sobre Cuba. "É um crime e precisa ser chamado assim", destacou Wilkinson. Ele defende que os cidadãos norte-americanos impeçam a Casa Branca de cometer um genocídio em seu nome. "Uma catástrofe humanitária está em curso, e a mancha desse pecado jamais será apagada. Cuba somente cairá após imenso sofrimento, e nesse processo os Estados Unidos perderão sua alma", advertiu. O britânico também acredita que os EUA desejam provocar uma rebeldia civil que levaria ao isolamento do regime. "Isso não ocorreu. O povo cubano não se renderá."

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