O enviado especial de Donald Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff, deve se reunir no fim da semana, na Turquia, com o chanceler do Irã, Abbas Aragshi, para retomar negociações diretas sobe o programa nuclear desenvolvido pelo regime islâmico. De acordo com o site de notícias norte-americano Axios, o encontro estaria previsto para a sexta-feira, em Istambul. A agência iraniana de notícias Fars confirmou que o presidente Masoud Perzeshkian "ordenou a abertura de negociações diretas com os Estados Unidos".
O aceno ao diálogo abre parênteses em uma escalada de tensão que vem da virada de ano, quando eclodiu nas principais cidades iranianas uma onda de manifestações contra a crise econômica. Os protestos se alastraram pelo país, nas últimas semanas, assumiram um caráter de contestação aberta ao regime e foram reprimidos com dureza inédita nas quase cinco décadas desde a revolução islâmica de 1979. Os conflitos teriam resultado em ao menos 6 mil mortes, segundo organizações pró-direitos humanos baseadas nos EUA e na Europa, que contabilizam ainda milhares de presos.
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A abertura de Teerã ao diálogo, aparentemente aceita por Washington, se segue a uma troca de ameaças que coincidiu com a chegada ao Golfo Pérsico, nos limites da costa iraniana, do grupo naval liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln. Paralelamente, os EUA reforçaram a presença de aviões de combate nas bases que mantêm na Jordânia, nos Emirados Árabes Unidos e em outros países vizinhos ao Irã. No domingo, porém, Trump afirmou que "espera chegar a um acordo".
"Estamos examinando e finalizando os detalhes de cada etapa do processo diplomático, que esperamos concluir nos próximos dias", informou Baqaei. O porta-voz, no entanto, frisou que seu governo não toma em conta algum prazo que possa ter sido fixado para a conclusão de um acordo sobre o programa nuclear — uma noção que foi colocada em pauta, no fim de semana, pelo presidente dos EUA. Trump não foi explícito sobre uma data, mas afirmou que "eles (os iranianos) sabem" qual seria o limite para que aceitem o acordo proposto. "O Irã nunca aceita ultimatos", garantiu o funcionário.
Região em alerta
A escalada de tensão incluiu uma intensa troca de ameaças, em que ambos os lados prometeram empregar "força máxima" em caso de ataque pelo adversário. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, advertiu que, ao contrário do que ocorreu nos ataques dos EUA a instalações nucleares do país, no ano passado, desta vez uma ofensiva contra seu país deflagraria "uma guerra regional". Vizinhos como a Arábia Saudita e mesmo Israel, inimigo frontal da República Islâmica, teriam intercedido com Trump para que não precipite uma investida. A Jordânia, também aliada dos EUA, comunicou formalmente a Teerã que não permitirá o uso de seu espaço aéreo por aviões norte-americanos, num ataque ao Irã.
A imprensa dos EUA publicou ontem informações atribuídas a fontes bem colocadas no governo Trump segundo as quais comandantes militares israelenses teriam se reunido com contrapartes, em Washington, para discutir opções, prazos e outras variáveis relacionadas a uma ação militar contra o Irã. No auge da repressão aos protestos contra o regime dos aiatolás, há duas semanas, o presidente dos EUA chegou a convocar os iranianos a "tomar de assalto" órgãos do poder e prometeu que "o socorro está a caminho". O governo israelense, assim como os aliados árabes, teria insistido com a Casa Branca por mais tempo para preparar-se para a esperada — e anunciada — represália militar iraniana.
Desde então, Washington optou por moderar o tom e mudar o foco de sua abordagem. Em lugar das ameaças de uma intervenção em apoio aos manifestantes contrários ao regime, colocou sobre a mesa a retomada de negociações sobre um acordo pelo qual o Irã renuncie formalmente a desenvolver armas atômicas. Teerã parece ter aceitado a abertura, nos termos do que chegou a ser discutido em 2025, antes dos bombardeios dos EUA contra algumas das principais instalações ligadas ao programa nuclear.
"O presidente Trump diz 'não às armas nucleares', e estamos totalmente de acordo com esse ponto", disse ontem o chanceler Abbas Araghchi. (...) Claro, em troca, esperamos um levantamento das sanções", disse Araghchi no domingo. "Portanto, esse acordo é possível. Não estamos falando de coisas impossíveis", acenou.
Risco calculado
Na avaliação do professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, Dionald Trump e seus estrategistas parecem planejar os próximos lances segundo um cálculo pormenorizado dos riscos envolvidos — começando por uma estimativa quanto à possível resposta do regime islâmico. "O Irã tentaria atacar bases e interesses norte-americanos no Oriente Médio inteiro. Isso poderia trazer uma desestabilização maior ainda na região mais importante fornecedora de petróleo do mundo", observou o estudioso, em entrevista ao Correio.
Rudzit vê na recente escalada retórica de Washington, e mesmo nos preparativos militares colocados em marcha, um movimento cujo objetivo é atrair novamente Teerã à mesa de negociações sobre o programa nuclear. Com eleições legislativas marcadas para novembro, e de olho em qualquer impacto mais significativo sobre a economia, Trump trata de evitar uma disparada nas cotações do petróleo. O professor da ESPM acrescenta ao espectro das preocupações da Casa Branca "o histórico de que, quando o Irã é atacado externamente, seja pelos EUA ou por Israel, a população se volta contra o atacante" e a oposição direta ao regime arrefece. "É por isso que eu acredito que seja uma pressão para fazer o Irã negociar outro acordo sobre o programa nuclear", arrisca.
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