As relações entre o ex-príncipe britânico Andrew Mountbatten-Windsor — ex-duque de York e filho predileto e caçula da rainha Elizabeth II — e o financista e pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein podem custar-lhe a pena perpétua. O irmão do rei Charles III foi detido, na manhã desta quinta-feira (19/2), sob a suspeita de "má conduta no exercício do cargo público" no dia do seu 66º aniversário. Charles sinalizou que não iria interferir no curso do processo. Andrew foi detido e interrogado por quase 12 horas na delegacia de Aylsham, antes de ser solto sob investigação. Um fotógrafo da agência de notícias Reuters registrou o momento em que ele, com o semblante assustado, deixou o local no banco traseiro de um carro. "Na quinta-feira, prendemos um homem de sessenta e poucos anos de Norfolk sob suspeita de má conduta em cargo público. O homem preso foi liberado sob investigação. Também podemos confirmar que nossas buscas em Norfolk foram concluídas", declarou a polícia de Thames Valley. Os agentes inspecionaram também a antiga residência em Windsor.
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Até então, a última prisão de um membro da família real tinha ocorrido durante a guerra civil da Inglaterra, em 1647: o rei Charles I foi capturado por forças alinhadas ao Parlamento, condenado por traição e executado dois anos depois. Especialistas britânicos admitem impacto desastroso para a monarquia britânica, enquanto vítimas de abusos sexuais cometidos por Epstein celebraram a notícia e externaram a esperança de que abusadores da rede de tráfico sexual montada por Epstein e recrutadores de garotas sejam levados à Justiça. Alguns súditos da família real também comemoraram a detenção de Andrew. "Estou satisfeita. Ele deveria ter sido preso há muito tempo", disse à agência France-Presse Emma Carter, uma advogada de 55 anos, no centro financeiro da capital britânica. "Pensavam que eram intocáveis, é bom saber que não estão acima da lei, isso mostra que a Justiça britânica funciona", reagiu Maggie Yeo, uma aposentada de 59.
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Quando atuou como representante especial do Reino Unido para o Comércio Internacional, entre 2001 e 2011, Andrew teria repassado informações sensíveis e confidenciais a Epstein, durante troca de e-mails (veja quadro). A detenção sem precedentes na história da família real ocorreu na mansão do ex-príncipe em Sandringham. Apesar de não estar diretamente envolvida com o caso Epstein, a prisão abre a possibilidade de que Andrew enfrente uma investigação pelas denúncias de violação sexual e envolvimento com os crimes do bilionário norte-americano.
"Profunda preocupação"
"Recebi com profunda preocupação as notícias sobre Andrew Mountbatten-Windsor e a suspeita de má conduta em cargo público. O que se segue agora é o devido processo legal, justo e adequado", declarou o rei Charles III, por meio de um comunicado. O monarca do Reino Unido reforçou a disposição em colaborar com as autoridades de forma irrestrita e completa. "Deixe-me ser bem claro: a lei deve seguir seu curso", acrescentou. Charles III manteve a agenda e visitou o London Fashion Week. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não mencionou Epstein, com quem manteve laços no passado, mas classificou a detenção de Andrew de "uma pena". "Acho uma pena. Muito triste e péssimo para a família real. É muito, muito triste para mim. É muito triste ver isso", comentou.
Professor emérito da Universidade de Buckingham, o britânico Anthony Glees reconheceu um "golpe devastador para o rei Charles, para a Casa de Windsor e para o Reino Unido como um todo". "É a primeira prisão de um membro da família real em mais de 300 anos e isso tem o potencial de minar a monarquia", admitiu ao Correio. "É verdade que Andrew agora é simplesmente o senhor Mountbatten-Windsor e não mais o duque de York. No entanto, ele é filho da rainha Elizabeth II, irmão do rei e o oitavo na linha de sucessão ao trono. Essas são, na verdade, posições que Andrew adquiriu por nascimento e ele não pode 'desnascer'; tecnicamente, ainda é um príncipe, porque a monarquia é uma instituição baseada em linhagem sanguínea, não em votos."
Glees não descarta que Andrew seja acusado por outros crimes, inclusive supostas violações sexuais de vítimas de Epstein. "Há centenas de milhares de documentos do caso Epstein e examinar todos eles, mesmo com a ajuda da inteligência artificial, levará muitos meses. No entanto, é comum que alguém acusado de um delito seja posteriormente acusado de outros. "Não devemos nos esquecer que, em 2013, a amizade de Andrew com um espião chinês, Yang Tengbo, impedido de entrar no Reino Unido, levou muitas pessoas a questionarem o que Andrew teria ganhado com sua estreita relação com tal homem. Andrew foi preso por causa dos arquivos Epstein, mas as alegações, até o momento, não têm relação com sexo. Suspeita-se que o Andrew tenha se beneficiado, de modo consciente, de uma 'quadrilha' de tráfico sexual comandada por Epstein e sua namorada, Ghislaine Maxwell, e que possa ter infringido a lei norte-americana sobre sexo com menores", disse.
Premiê
O professor de Buckingham não vê graves consequências para o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, que rejeitou a ideia de renunciar ao cargo. "Na verdade, a instabilidade da monarquia e da política britânica podem fazer com que a população se una em torno de seu premiê eleito. Starmer está em maus lençóis por causa de seus próprios erros, mas o problema envolvendo Andrew não é culpa dele." Horas antes da operação policial de ontem, o premiê disse que "ninguém está acima da lei".
Estudioso sobre a família real, o também britânico Richard Fiztwilliams concorda com Glees em relação aos danos provocados pela detenção de Andrew. "O impacto será considerável, pois a monarquia não consegue controlar a narrativa, apesar de declarações do rei Charles e do príncipe Williams. Isso pode se prolongar por meses e a família real precisa demonstrar transparência. A monarquia não desaparecerá, afinal, existe há mil anos. Ela se adaptará, mas a curto prazo isso será difícil", afirmou ao Correio, por e-mail.
EU ACHO...
"A monarquia foi profundamente prejudicada pela detenção de Andrew, possivelmente até de forma irreparável. Desde a sua coroação, o rei Charles III tem se esforçado ao máximo para liderar e guiar a instituição que chefia em uma nova direção positiva. Primeiro, teve que lidar com a imprudência egocêntrica de seu filho mais novo, o príncipe Harry. Depois, recebeu o diagnóstico de câncer, assim como sua nora Kate Middleton. E agora, Andrew. Seus deslizes sexuais têm sido um problema para o rei há mais de uma década. Até então, a ideia de que Andrew era desleal ao país, e não à sua família, jamais fora sequer cogitada, muito menos discutida."
Anthony Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham
TROCA DE MENSAGENS COM UM CRIMINOSO
E-mails enviados por Andrew a Epstein seriam a causa da prisão do membro da família real
7 de outubro de 2010
Andrew teria enviado a Epstein relatórios de suas visitas ao Vietnã, Cingapura, China e Hong Kong, quando ocupava o posto de representante especial do Reino Unido para o Comércio Internacional. Na ocasião, o então príncipe estava acompanhado de sócios do traficante sexual.
30 de novembro de 2010
Ao retornar a Londres, Andrew muniu Epstein com relatórios oficiais sobre essas visitas. Os dados foram enviados por Amit Patel, secretário especial do então duque de York, apenas cinco minutos depois de tê-los recebido. Os documentos indicam que Andrew transmitiu infromações a Epstein sobre oportunidades de investimento em ouro e urânio no Afeganistão.
