
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou ontem uma mudança na cúpula do setor militar, tido há anos como coluna vertebral do regime chavista. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, um dos braços direitos do presidente Nicolás Maduro, capturado em Caracas por forças especiais dos Estados Unidos e levado a Nova York para ser julgado por "narcoterrorismo", cede o posto para o general Gustavo González, segundo anúncio do Palácio Miraflores.
"Agradecemos ao general-em-chefe Vladimir Padrino López por sua entrega, sua lealdade à pátria e por ter sido, durante todos esses anos, o primeiro soldado na defesa de nosso país", escreveu a presidente em sua conta no Telegram. "Estamos certos de que assumirá com o mesmo compromisso e honra as novas responsabilidades que lhe serão confiadas", acrescentou, sem detalhar quais seriam. Padrino, de 62 anos, estava no cargo desde 2014 e era considerado a peça de Maduro dentro da cúpula militar.
Poucos dias após a queda de Maduro e a nomeação de Delcy como interina, o novo titular da Defesa tinha sido designado como chefe da guarda presidencial e da temida direção de contra-inteligência. Nos dias e semanas que se seguiram, multiplicaram-se versões dando conta de suposta deslealdade de setores das Forças Armadas, que teriam facilitado a incursão norte-americana e a captura de Maduro.
Por constar entre as peças-chaves do setor militar, hoje visto como pilar fundamental de sustentação do chavismo, Padrino poderia ter sido removido da Defesa como parte das difíceis tratativas entre o governo da presidente interina e os EUA. Desde a incursão fulminante de 3 janeiro, Delcy Rodríguez equilibra-se entre o discurso de resistência e a opção pragmática por algum tipo de entendimento com Washington.
A ação foi precedida pela imposição de um bloqueio naval no Mar do Caribe. Na prática, os EUA assumiram o controle das exportações de petróleo da Venezuela. Segundo explicado pelo próprio presidente Donald Trump, todo carregamento partido do litoral venezuelano é interceptado pela Marinha norte-americana. Washington administra as transações e transfere as receitas para um fundo, do qual são destinados valores determinados ao governo de Caracas.
Desde então, foram impedidas remessas para países como a China. Em especial, a diretiva de Trump impede o fornecimento de petróleo venezuelano a Cuba, que depende das remessas para alimentar não apenas os transportes. Todo o sistema elétrico da ilha é baseado em usinas termelétricas movidas a óleo diesel. A interrupção do abastecimento agravou a crise energética cubana e provocou nos últimos dias um apagão de alcance nacional.
Padrino era um dos poucos aliados próximos de Maduro que permaneciam no governo interino. Tarek William Saab renunciou em fevereiro à Procuradoria-Geral, após quase uma década de uma atuação que especialistas classificam como subserviente ao chavismo. O poderoso ministro do Interior, Diosdado Cabello, permanece no cargo.
Batizada como bolivariana pelo falecido presidente Hugo Chávez (1999–2013), a Força Armada venezuelana não esconde sua politização. Já teve entre seus lemas "Pátria, socialismo ou morte!". Atualmente, o que vale é "Chávez vive!". A Constituição aprovada em referendo 1999, sob o governo de Chávez, deu direito de voto aos militares, que passaram a ocupar cargos-chave em instituições do Estado.

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