Ataque ao Irã divide congressistas dos EUA

Democratas e até alguns republicanos contestam poder de Donald Trump para ordenar ação sem consulta ou autorização do Parlamento. Constituição estipula que guerras só podem ser deflagradas com aval do Congresso

O ataque deflagrado pelos Estados Unidos e seu parceiro Israel ao Irã, sem consulta ao Congresso, explicitou a divisão entre políticos norte-americanos sobre os poderes de guerra do presidente. Democratas e até alguns parlamentares republicanos defendem a votação urgente de uma resolução que limita a atuação bélica de Donald Trump se não houver autorização explícita do Congresso.

A ação militar no Irã ocorreu às vésperas do início das primárias no país, quando os eleitores escolherão os candidatos que disputarão as vagas na Câmara dos Representantes e no Senado nas eleições gerais de novembro. Embora a maioria dos congressistas republicanos tenha apoiado os bombardeios, Thomas Massie, do partido do presidente, criticou o ataque. "Eu me oponho a essa guerra. Isso não é 'Estados Unidos primeiro'", escreveu Massie, no X, em referência a um dos lemas de Trump. "A Constituição exige uma votação, e seu representante precisa se posicionar publicamente, seja a favor ou contra essa guerra."

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O democrata Jack Reed, principal membro do partido na Comissão de Forças Armadas no Senado, ressaltou que, além de não ter a aprovação do Congresso, Trump colocou o país "em uma guerra sem ter nenhum plano quanto ao seu desfecho". "Os norte-americanos não querem outra guerra custosa e interminável no Oriente Médio quando há tantos problemas em casa", declarou o líder da minoria, senador Chuck Schumer, democrata de Nova York. 

A Resolução sobre Poderes de Guerra foi apresentada, pela segunda vez, em 8 de janeiro deste ano, pelos deputados Jim McGovern (democrata de Massachussets), Thomas Massie (republicano de Kentucky) e Joaquin Castro (democrata do Texas), que buscavam evitar qualquer novo ataque dos Estados Unidos à Venezuela. A medida foi proposta logo após a incursão militar dos EUA que terminou com a deposição e prisão de Nicolás Maduro. No fim de 2025, a medida foi rejeitada no Congresso por apenas dois votos.

Quando os rumores de ataque norte-americano ao Irã se intensificaram, com o envio de muitas unidades da Marinha, do Exército e da Força Aérea, os congressistas anunciaram que a resolução seria votada na próxima semana. Não deu tempo. Trump ordenou a ação contra o regime dos aiatolás nesse sábado.

"Conta do açougueiro"

O republicano Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, divulgou um comunicado no X aplaudindo a ação bélica. "Hoje (ontem) o Irã enfrenta as graves consequências de seus atos funestos", escreveu. Tom Cotton, presidente do Subcomitê de Inteligência do Senado, também se manifestou a favor do ataque. "O Irã travou uma guerra contra os Estados Unidos durante 47 anos (...). A conta do açougueiro finalmente chegou para os aiatolás", disse. 

Para Katherine Thompson, pesquisadora do Instituto Cato, organização de análise política em Washington, a autorização do uso da força militar ofensiva contra o Irã por Donald Trump "representa um claro e flagrante abuso do Poder Executivo". A especialista destaca que, segundo a Constituição, cabe ao Congresso autorizar a entrada dos Estados Unidos a uma guerra, e a ação de ontem direciona o país a esse caminho. 

"A decisão do presidente coloca as forças e bases norte-americanas na região na mira de uma retaliação", argumenta Thompson. "A guerra não é abstrata. Ela custa vidas e recursos americanos. Os Fundadores atribuíram ao Congresso o poder de iniciá-la precisamente para garantir que esses custos sejam enfrentados e debatidos antes que o país entre em guerra", diz, referindo-se aos líderes políticos que participaram da redação da Constituição, no século 18.

Colheita

Por meio da assessoria de imprensa do instituto de análises Atlantic Council, na capital norte-americana, o ex-secretário adjunto para Política Antiterrorista do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos Thomas S. Warrick afirmou que "essa guerra terá uma frente interna". "O povo norte-americano, por uma ampla maioria, queria que Trump concentrasse seu segundo mandato em assuntos internos, sobretudo na economia. Como ele não buscou o apoio do Congresso e do povo antecipadamente, as consequências serão de sua responsabilidade", diz. O especialista acredita que, se a operação for bem-sucedida, culminando no fim do programa nuclear iraniano, o presidente poderá receber um impulso político. "Mas corre o risco de sofrer um revés significativo em sua agenda interna se fracassar."

 

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