ORIENTE MÉDIO EM CONVULSÃO

Irã mergulha na incerteza

Mesmo se a morte do líder supremo da teocracia xiita, o aiatolá Khamenei, for confirmada, especialistas afirma que é muito cedo para que se possa ter clareza sobre futuro do regime no país persa

Paloma Oliveto e Rodrigo Craveiro 

Comandado desde 1979 pelos aiatolás, o Irã enfrenta, agora, um momento de profunda incerteza política. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou, no fim da tarde de ontem, que o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, chefe absoluto do Estado, das Forças Armadas e do Judiciário, foi morto nos ataques deflagrados nesse sábado por EUA e Israel contra o país persa. Diversas autoridades do primeiro escalão do regime teocrático xiita também teriam perecido durante os bombardeios, abrindo um vazio no poder. 

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"Um novo líder provavelmente será escolhido em breve, mas o que acontecerá a seguir e como isso afetará a legitimidade do governo ainda é incerto”, opina Sean Foley, professor de história islâmica e de Oriente Médio da Middle Tennessee State University. “Guerras podem impactar a percepção do governo de maneiras imprevisíveis. Ele era líder espiritual do Irã e tinha grande influência nas políticas militares e externas."

Para Eduardo Galvão, doutor em relações internacionais e especialista em geopolítica e risco político do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), caso confirmada, a morte do aiatolá terá um impacto geopolítico profundo. “O líder supremo é o eixo de coesão do sistema iraniano, mas o regime foi estruturado para sobreviver a choques dessa magnitude. A tendência imediata seria demonstrar continuidade institucional, ativando rapidamente os mecanismos de sucessão e reforçando o aparato de segurança para evitar qualquer percepção de fragilidade”, afirma. 

Herdeiro

No caso de continuidade do regime, um dos nomes que surgem como possível herdeiro é Mojtaba Khamenei, segundo filho mais velho do líder supremo. Nascido em 1969, o clérigo é considerado uma figura política influente, com fortes laços com as guardas paramilitares — ele teria assumido o controle da milícia Basij, crucial para a repressão de dissidências internas e policiamento moral no Irã. O cientista político Michael Horowitz, da Universidade da Pensilvânia, ressalta que a sucessão não é certa. “O Irã deveria ter procedimentos em vigor para garantir uma sucessão estável, mas não está claro como as coisas vão se desenrolar. Há muita incerteza agora, e a estabilidade da região está por um fio.”

Segundo fontes do governo iraniano ouvidas pelo jornal The New York Times, Ali Khamenei expressou favoritismo por três nomes para o cargo de líder supremo. A reportagem cita o chefe do Judiciário, Gholam-Hossein Mohseni-Eje'i; o chefe de gabinete do aiatolá Khamenei, Ali Asghar Hejazi; e Hassan Khomeini, um clérigo moderado da facção política reformista e neto do aiatolá Khomeini.

Exilado nos Estados Unidos, e uma das principais vozes da diáspora iraniana, o filho do último xá do Irã, Reza Pahlavi, 65 anos, disse há duas semanas em Munique, na Alemanha, que estava “pronto para conduzir uma transição política no Irã”. Ontem, ele publicou um comunicado nas redes sociais, comemorando o anúncio da morte de Ali Khamenei. “Com sua morte, a República Islâmica chegou efetivamente ao fim e em breve será relegada ao esquecimento”, escreveu. “Qualquer tentativa dos remanescentes do regime de nomear um sucessor para Khamenei está fadada ao fracasso desde o início. Quem quer que seja colocado em seu lugar não terá legitimidade nem sobreviverá; e, sem dúvida, também será cúmplice dos crimes deste regime”, avisou.

Perigoso

Sanam Vakil, diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, um centro de análises políticas no Reino Unido, acredita que “o povo iraniano arcará com o maior custo” da instabilidade no país. “Essa nova fase do conflito diz respeito claramente à sobrevivência do regime”, diz, acrescentando que uma queda iminente dos líderes supremos é improvável. “A pressão militar externa pode enfraquecer um regime, mas não cria automaticamente uma alternativa viável. O período entre o colapso do regime e a consolidação democrática é historicamente a fase mais perigosa”, afirma Vakil. “O paralelo com a guerra do Iraque de 2003 é difícil de ignorar. Aquela guerra demonstrou que derrubar ou tentar derrubar um regime é muito mais fácil do que moldar o que vem depois.”

Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da organização não governamental Iran Human Rights (IHR), acredita que o fim da era dos aiatolás dependerá da vontade dos iranianos. “O regime deve colapsar por causa dos bombardeios, mas a mudança de regime somente ocorrerá de dentro para fora”, diz. “Os iranianos somente saem às ruas quando estão certos de que as forças do regime não dispararão contra eles. Acho que as pessoas ficarão mais cautelosas, mas estou certo de que desejam a mudança."


 

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Três perguntas para

Manuel Furriela, especialista em relações internacionais e reitor da Universidade Católica de Brasília (UCB) 

Os objetivos declarados pelos Estados Unidos para o ataque ao Irã, como impedir a aquisição de armas nucleares e libertar o povo iraniano, são realistas? 

Os ataques norte-americanos ao Irã têm, sim, relação com o projeto nuclear daquele país. O Irã tem enriquecido o urânio e vem desenvolvendo um programa que não é somente pacífico, como ele alega. Países que pretendem desenvolver projetos nucleares com essa finalidade, como, aliás, também é o caso do Brasil, não enriquecem urânio no percentual e na quantidade que tem feito o Irã. Além disso, esse tipo de armamento é muito perigoso, lembrando aqui que é o de maior potencial de destruição de toda a história da humanidade. Os Estados Unidos não estão atacando, obviamente, só por esse motivo. Existem outros interesses. Um deles é o de destituir o governo iraniano, que causa sérios problemas ao seu desenvolvimento internacional. O Irã tem sido um dos grandes obstáculos no desenvolvimento das relações dos Estados Unidos em todo o Oriente Médio. Além disso, o Irã apoia grupos insurgentes e terroristas dos mais variados, que atacam Israel constantemente, como é o caso do Hezbollah.

Como o ataque ao Irã pode alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio?

Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã têm potencial de trazer uma grande alteração geopolítica em todo o Oriente Médio. Mesmo com dificuldades de rivalizar com grandes potências internacionais, como é o caso dos EUA, o país persa ainda é uma grande potência regional. O Irã é um dos estados com maior extensão territorial, maior população e, mesmo com armamentos obsoletos, ainda tem uma capacidade regional representativa. Além disso, tem desenvolvido outras tecnologias bélicas — a de mísseis balísticos é uma das mais avançadas.

Do ponto de vista do direito internacional, os ataques são legais? 

Mesmo com tantas críticas que se possa fazer e se deve fazer ao governo iraniano relacionadas ao desrespeito em larga escala aos direitos humanos, à restrição aos direitos das mulheres, ao empobrecimento da população, à corrupção e até mesmo àquele Estado que efetivamente, indiscutivelmente, apoia grupos insurgentes e grupos terroristas internacionais, os ataques não têm respaldo internacional. Esse respaldo viria mediante decisão do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). De qualquer forma, muitos acabarão aceitando essa intervenção. Pois o Irã é governado por um regime que tem vários pontos que colocam efetivamente a sua população numa situação de ataques aos seus direitos mínimos e, também, mesmo que não se assuma ou não se aceite em esferas internacionais, sabe-se que o país apoia, sim, grupos que colocam em risco a segurança regional. (PO)