Entrevista Masih Alinejad, ativista iraniano-americana

'Khamenei transformou nossos corpos em campo de batalha'

Pioneira da luta contra o uso obrigatório do hijab (véu islâmico) celebra a morte do aiatolá e aposta em colapso do regime teocrático islâmico. Exilada em Nova York, ela homenageia as mulheres

A jornalista e ativista iraniano-americana Masih Alinejad, 49 anos, tornou-se um símbolo da luta das mulheres contra a opressão no Irã. Sem meias palavras, ela usou a rede social Facebook para criar uma campanha contra o uso obrigatório do hijab ("véu islâmico"), chamada de "Minha liberdade discreta". Conseguiu mobilizar 1 milhão de seguidores. A proposta era incentivar as iranianas a compartilharem fotos sem hijab. O movimento saiu do ambiente virtual e ganhou as ruas. Inspiradas por Alinejad, muitas mulheres enfrentaram a polícia da moralidade e gritaram palavras de ordem contra o regime, com os cabelos à mostra. Exilada em Nova York, a ativista sofreu ameaças de morte e não se silenciou. Na semana passada, dias antes da morte de Ali Khamenei, rasgou uma fotografia do aiatolá, ao discursar no Conselho de Direitos Humanos da ONU. O seu engajamento e sua coragem a colocaram como forte candidata a receber o Prêmio Nobel da Paz. Em entrevista ao Correio, por meio do WhatsApp, Masih Alinejad se disse aliviada pela eliminação do líder supremo iraniano, o qual considerava um ditador que declarou guerra às mulheres. Também defendeu a mobilização da sociedade para levar o regime teocrático islâmico ao colapso. "O que importa agora é proteger as pessoas e lutar por uma verdadeira liberdade, um futuro melhor sem o regime islâmico", declarou. No entanto, ela reconhece que não será uma tarefa fácil. "O regime pode tentar substituir uma figura por outra. O verdadeiro impacto (da morte de Khamenei) depende dos iranianos e de quando eles transformarem este momento em pressão organizada e constante", observou. A ativista admitiu que ela e seus compatriotas experimentam dor e esperança ao mesmo tempo, e lembrou das mães obrigadas a enterrar suas filhas, além das mulheres que perderam os olhos durante a brutal repressão das forças do regime. 

Qual o seu sentimento em relação à morte de Ali Khamenei?

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Sinto uma tempestade de emoções: alívio, tristeza e responsabilidade. Alívio, porque Ali Khamenei foi o símbolo e o arquiteto de décadas de opressão. Ele ordenou meu assassinato diretamente quando comparei o hijab obrigatório ao Muro de Berlim e convoquei as mulheres iranianas a derrubarem o muro de Ali Khamenei. Tristeza, porque nenhuma morte traz de volta as vidas que ele roubou. Mais de 32 mil pessoas foram mortas nas manifestações de janeiro, em apenas dois dias. E sinto responsabilidade porque o que importa agora é proteger as pessoas e lutar por uma verdadeira liberdade, um futuro melhor sem o regime islâmico. Para ser honesta, fui para a rua imediatamente quando soube da notícia. Comecei a gritar de alegria, abracei cada pessoa e disse a elas que o ditador do meu país havia desaparecido. Isso é justiça. E eu amo a justiça, porque ela é linda. Lembrei-me de cada pessoa e das mães que me procuraram ao longo dos anos e compartilharam a triste história de seus entes queridos que foram mortos no fim deste regime. Então, nós, iranianos, estamos experimentando dor e esperança ao mesmo tempo.

De que modo a eliminação do aiatolá poderá trazer mais liberdade para as mulheres iranianas?

A eliminação de um líder da República Islâmica pode rachar o sistema de medo. Em toda ditadura, o medo flui a partir do topo. Quando o topo treme, a rua começa a respirar. Na recente onda de violência, em janeiro, eles forçaram as pessoas a voltarem para casa, sob a mira de armas. Invadiram hospitais e executaram os feridos. Prenderam médicos e enfermeiros para impedi-los de tratar os manifestantes — milhares de baleados nos olhos e no corpo. As mulheres podem se sentir corajosas ao resistir ao uso obrigatório do hijab. Mas quero deixar claro: nossa luta não se resume mais a um pequeno pedaço de pano. Os iranianos não aguentam mais. Eles querem o fim deste regime.

Mas como isso seria possível?

A liberdade não é automática. Ela é paga com sangue. É isso que os iranianos estão fazendo: sacrificando suas vidas para se livrar dessa ditadura religiosa. Eles querem uma democracia psicótica. O regime pode tentar substituir uma figura por outra. O verdadeiro impacto depende dos iranianos e de quando eles transformarem este momento em pressão organizada e constante. Este pode ser o nosso momento Muro de Berlim. A Europa deve unir-se aos Estados Unidos e ao povo iraniano para derrubar este muro da ditadura. Um Irã sem a República Islâmica significa um Oriente Médio mais seguro e um mundo mais seguro.

Como as mulheres iranianas se lembrarão de Khamenei?

As mulheres no Irã se lembrarão dele como o homem que transformou seus corpos em um campo de batalha. Nunca nos esqueceremos de seus discursos, nos ameaçando, ordenando que a polícia da moralidade saísse às ruas, autorizando prisões e assassinatos, simplesmente porque nós dissemos 'não' à sharia (lei islâmica) forçada. As mulheres se lembrarão dos olhos cegos, das forças de segurança disparando diretamente em nossos rostos. Não foi algo acidental, mas sua política de criar medo entre a sociedade. Recebi uma chamada de vídeo de três mulheres que perderam seus olhos, que foram cegas sob esse regime. Quando Khamenei foi morto, elas choraram, riram, cantaram e se recordaram que ele foi um dos mais perigosos terroristas da Terra. Nós nos lembraremos das celas de prisão, da tortura, das vidas roubadas, das mães que enterraram suas filhas, das filhas que sepultaram suas mães. Quando mulheres foram estupradas na detenção, ele culpou as vítimas e disse-lhes que, se tivessem respeitado a lei islâmica, não teriam sido violentadas. Sob seu governo, extremistas se sentiram empoderados a lançar ácido no rosto de mulheres, e o sistema os protegeu. As mulheres não se lembrarão dele como o 'líder supremo', mas como ditador que declarou guerra às mulheres. 

A senhora vê sinais de que as iranianas poderiam remover o hijab e voltar às ruas?

Sim, as mulheres o humilharam enquanto ele estava vivo. As mulheres participaram da revolta e, em grande número, abandonaram seus empregos em público. O governo usou câmeras chinesas para identificar as mulheres a caminho do trabalho, mas as iranianas nunca se deixaram influenciar por elas. As iranianas já provaram que podem liderar uma revolução com seus cabelos, suas vozes e sua coragem, lado a lado com os homens. Veja como mães e filhos foram mortos em uma manifestação surpreendente, que transformou o funeral em um levante massivo. Em vez de chorar, elas cantavam e enviavam uma mensagem direta à República Islâmica, desejando a morte de Ali Khamenei. Mas, também devemos esperar represálias: intimidação, bloqueios de internet e violência para retomar o controle.  A questão não é se as mulheres estão preparadas. Elas estão. A questão é se o regime ainda consegue impor o medo. Eu acho que não. Por 47 anos, eles conseguiram incutir o medo em nossos corações, mas agora o medo se foi. Esta é uma revolução contra toda a região.

Que mensagem a senhora gostaria de enviar às suas compatriotas?

 Não tenho uma mensagem para as mulheres dentro do Irã, pois elas são corajosas o bastante para enviar sua própria mensagem aos ditadores e aos líderes do mundo livre. Estou aqui para ecoar suas vozes. Sou a continuação de suas vozes e quero passar a mensagem delas para o resto do mundo: unam-se a nós para pôr fim a esse regime bárbaro. Se vocês não se unirem ao povo do Irã para acabar com este regime terrorista, eles se unirão a outros ditadores e acabarão com a democracia em todos os lugares. Acabarão com a igualdade em todos os lugares. Expandirão sua ideologia por toda parte.

 

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