Oriente Médio em convulsão

Sob bombardeios, iranianos começam a preparar transição de poder

Regime teocrático islâmico anuncia a formação de um conselho, composto por três autoridades, incumbido de organizar a escolha do sucessor de Ali Khamenei. Guarda Revolucionária promete vingança. Trump prevê ofensiva militar por quatro semanas

Em desafio aos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel, uma multidão de iranianos tomou a Praça Enghelab (Revolução), no coração de Teerã, ostentando bandeiras do país e fotografias do aiatolá Ali Khamenei, morto em bombardeio ao seu complexo residencial, no sábado (28/2). O regime teocrático islâmico decretou luto de 40 dias e sete feriados, em memória de seu líder supremo, e começou a acelerar a transição. Um triunvirato — composto pelo presidente Mahsoud Pezeshkian; pelo chefe do Poder Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei; e por Alireza Arafi, funcionário do conselho jurídico do país — foi incumbido de organizar o processo para a escolha do próximo aiatolá. A Assembleia de Experts, um órgão de 88 clérigos seniores eleitos pela população a cada oito anos, apontará o sucessor de Khamenei.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse à emissora CNN que o novo líder poderá ser anunciado em até 48 horas. "Vocês poderão ver a escolha do líder supremo em um ou dois dias. Portanto, tudo está em ordem, de acordo com nosso sistema legal e com a Constituição", declarou. O jornal The New York Times informou que a Agência Central de Inteligência (CIA) soube que Khamenei participaria de uma reunião, na manhã de sábado, em Teerã, o que facilitou o ataque dos EUA e de Israel. Segundo a publicação, a CIA vinha acompanhando os movimentos do aiatolá há vários meses e conhecia seus locais de residência e seus hábitos.

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A sobrevivência do regime teocrático islâmico é uma incógnita. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que 48 líderes iranianos morreram, "até o momento", na Operação Fúria Épica. Além de Khamenei, foram eliminadas importantes figuras do país persa, como Mohamaad Pakpour, chefe da Guarda Revolucionária; Ali Shamkhani, assessor próximo do aiatolá e chefe do Conselho Nacional de Defesa; e o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad. A morte de Ahmadinad, 69 anos, o homem que governou o Irã entre 2005 e 2013, foi anunciada pelo site iraniano da agência estatal de notícias Ilna e teria ocorrido durante bombardeio à sua casa, em Narnak, a nordeste de Teerã.

Em novo pronunciamento, de seis minutos, Trump anunciou as mortes de três soldados americanos e reforçou que mais baixas podem acontecer nos próximos dias. Outros cinco militares dos EUA ficaram gravemente feridos. Segundo ele, a Operação Fúria Épica é "uma das maiores, mais complexas e mais avassaladoras ofensivas militares que o mundo já viu". Mais cedo, o republicano estimou que a campanha bélica no Irã durará cerca de quatro semanas. Trump declarou que "conversará" com os dirigentes iranianos, sem especificar quando ou quem seriam os interlocautores. "Eles querem conversar, e eu aceitei conversar, então conversarei com eles. Deveriam ter feito isso antes", disse à revista The Atlantic.

Vingança

A Guarda Revolucionária Iraniana, no entanto, emitiu sinais contrários e prometeu "a ofensiva mais feroz da história" do Irã contra Israel e EUA. Também avisaram que preparam uma "punição severa" aos assassinos de Khamenei. "A mão vingativa da nação iraniana não os deixará em paz até ter infligido aos assassinos do imã da Umma (nação muçulmana) uma punição severa e decisiva que eles lamentarão", afirmou, por meio de um comunicado. As forças de Teerã mantiveram bombardeios a países aliados dos Estados Unidos, como Emirados Árabes Unidos e Bahrein. 

Vantor/AFP - Imagem de satélite mostra cratera no local onde ficava o complexo residencial de Khamenei, na capital iraniana

Ali Vaez, diretor do Programa Irã do centro de análise International Crisis Group, disse ao Correio que a designação do conselho de transição iraniano de três integrantes, responsável por impulsionar a transição, foi desenhada para garantir continuidade e evitar o vácuo de poder. "Na prática, porém, é difícil imaginar a Assembleia agindo com rapidez, enquanto o país permanece mergulhado em guerra e incerteza. O sistema político tende a se consolidar antes de passar por uma transição", explicou. Ele acredita que o poder real provavelmente se deslocará para outros lugrares. "O centro de gravidade parece estar se movendo em direção a Ali Larijani, em sua função de conselheiro de segurança nacional, e Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento — dois veteranos com amplas redes institucionais e um apurado senso de preservação do regime", acrescentou. 

"Linha vermelha"

Pesquisador do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton, o iraniano Seyed Hossein Mousavian afirmou que, seguindo a Constituição do Irã, antes de a morte do líder supremo completar 48 horas, um conselho de liderança foi formado. "O sucessor de Ali Khamenei será apontado pela Assembleia de Experts", comentou. "Ao matar o aiatolá, os Estados Unidos cruzaram uma linha vermelha do sistema atual de governança iraniano. Os norte-americanos oficialmente declararam que seu objetivo é o colapso do governo do Irã; por isso, a resposta de Teerã é ilustrada como a defesa de sua própria existência. Diante de todo esse cenário, estava claro que o conflito se regionalizaria. Seria melhor para Trump tomar a iniciativa de anunciar um cessar-fogo, a fim de prevenir mais catástrofes." 

Arash Azizi, historiador da Universidade de Yale, explicou que o próximo líder supremo não sairá do conselho de liderança. "Provavelmente, o conheceremos em breve, nos próximos dias. Se for o clérigo Hassan Rouhani, será um líder supremo poderoso", disse ao Correio. Rouhani, 77 anos, exerceu o cargo de presidente do Irã entre 2013 e 2021. Azizi alerta que o risco de caos aumentará, à medida que os EUA e Israel prosseguirem com os bombardeios e com os assassinatos seletivos de lideranças militares e políticas. "Isso poderá levar a um Estado falido e a uma guerra civil. Milícia étnicas, em áreas como o Curdistão, no oeste, e o Baloquistão, no sudeste, poderão ser ativadas. A Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano (Mujaheddin-e-Khalq ou KEK), um movimento odiado pela maioria dos iranianos, também poderia conduzir atividades armadas no território persa. Apesar de ser uma situação perigosa, Israel saudaria tal cenário, pois isso significaria que o Irã deixou de ser uma ameaça." 

EU ACHO...

Arquivo pessoal - Seyed Hossein Mousavian, pesquisador do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton

"As consequências do assassinato do aiatolá Ali Khamenei vão além da eliminação de um chefe de Estado. Ele era uma das autoridades religiosas (maraji) no mundo xiita. A ação dos Estados Unidos poderia ser interpretada como uma declaração de guerra contra as autoridades religiosas xiitas. Consequentemente, alguns clérigos xiitas emitiram fatwas (decretos religiosos) de jihad e convocararam os muçulmanos ao redor do mundo para vingarem Khamenei atingindo os Estados Unidos e Israel."

Seyed Hossein Mousavian, pesquisador do Programa sobre Ciência e Segurança Global da Universidade de Princeton

FÚRIA XIITA NO PAQUISTÃO E NO IRAQUE

AFP - Policiais caminham ao lado de jipe blindado em chamas, do lado de fora do consulado americano, em Karachi

Menos de 24 horas depois do anúncio da morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo iraniano, xiitas em fúria protestaram no Paquistão e no Iraque. Em Karachi, a principal cidade paquistanesa e centro financeiro do país, uma multidão em fúria tentou invadir o complexo fortificado do consulado dos Estados Unidos. Forças de segurança reagiram e dispararam contra manifestantes, matando ao menos 10 e ferindo 30. Em Gilgit-Baltistan (norte), outras dez pessoas morreram durante protestos; duas mortes também fora registradas na capital, Karachi. "Estamos incendiando o consulado americano em Karachi. Se Deus quiser, estamos vingando o assassinato do nosso líder", afirmou à agêmcia um manifestante enquanto filmava outros que tentavam iniciar um incêndio.

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Arquivo Pessoal - Crédito: Arquivo Pessoal. Seyed Hossein Mousavian, especialista em Oriente Médio pela Universidade de Princeton.
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