Oriente Médio em convulsão

Donald Trump aceita somente a rendição incondicional do Irã

Presidente dos Estados Unidos descarta qualquer chance de acordo com o regime teocrático islâmico e revela intenção de reconstruir o país arrasado pela guerra. Investigação aponta que EUA bombardearam escola para meninas, matando 150

Donald Trump está decidido a estender a guerra por mais quatro a seis semanas, até que o principal objetivo da Operação Fúria Épica seja cumprido: a rendição incondicional do Irã. "Não haverá nenhum acordo com o Irã, exceto uma rendição incondicional! Depois disso, e da escolha de um líder(es) grande(s) e aceitável(is), nós, e muitos de nossos maravilhamos e corajosos aliados e parceiros, trabalharemos incansavelmente para trazer o Irã de volta da beira da destruição, tornando-o economicamente maior, melhor e mais forte do que nunca", escreveu o presidente dos Estados Unidos em sua plataforma Truth Social. "O Irã terá um grande futuro. 'Tornem o Irã grande novamente (MIGA!)'", acrescentou, ao fazer um trocadilho com o seu slogan de campanha de governo. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, esclareceu que uma rendição será considerada quando os EUA perceberem que o Irã não representa mais uma ameaça. 

Uma investigação feita pelo jornal The New York Times concluiu que o bombardeio a uma escola iraniana para meninas, em Minab (sul), teria sido obra dos Estados Unidos. O alvo teria sido uma base naval iraniana próximo à escola primária de Shajarah Tayyebeh. O ataque deixou 150 mortos, em sua maioria, meninas, no sábado passado (28/2). Na noite desta sexta-feira (6/3), o Irã disparou mais uma salva de mísseis e drones contra Israel. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, alertou que a situação no Oriente Médio pode "sair do controle" e cobrou um cessar-fogo, a fim de abrir espaço para "negociações diplomáticas sérias". 

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Em uma semana de conflito, as forças norte-americanas anunciaram ter atacado mais de 3 mil alvos em território iraniano. No início da noite (madrugada deste sábado em Teerã, pelo horário local), Israel anunciou o lançamento de um ataque "em larga escala" contra a capital do Irã. Desde 28 de fevereiro, os israeleneses lançaram mais de 6.500 bombas sobre o Irã — média de 928 a cada 24 horas. No front do Líbano, a aviação de Israel seguia golpeando o sul de Beirute, depois de emitir uma ordem de fuga para cerca de 700 mil moradores. A região é considerada bastião do movimento fundamentalista islâmico Hezbollah.

No norte de Israel, oito soldados do Exército judeu ficaram feridos um ataque do grupo xiita, cinco deles gravemente. As Forças de Defesa de Israel (IDF) acusam o Exército iraniano de usar bombas de fragmentação. As armas, proibidas pelas convenções internacionais, explodem no ar e espalham submunições, o que agrava danos. 

Ocupação

Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, Roberto Goulart Menezes destacou ao Correio que, assim como Trump faz com o Irã, o presidente russo, Vladimir Putin, também exigiu a rendição incondicional da Ucrânia. "No entanto, passaram-se quatro anos do conflito e a guerra prossegue, entre altos e baixos. No caso do Irã, os EUA indicam que não aceitam nenhum tipo de negociação", afirmou. "A rendição incondicional tem um elemento importante: o derrotado aceita que o vencedor ocupe, com tropas, o seu país." 

Nesse sentido, Menezes acredita que a rendição incondicional do Irã está muito distante. "Os Estados Unidos atacam diariamente o país, com Israel, mas o Irã também tem revidado, da maneira que pode", lembrou. "Então, essa exigência dos EUA mostra que Trump começa a perceber a necessidade de pôr fim à guerra. Ele sabe que o Irã pode se tornar, para ele, o que o Iraque foi para George W. Bush (em 2003)", acrescentou o professor da UnB. 

Cristina Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), admitiu que os Estados Unidos podem se ver forçados a manter uma mobilização militar no Irã por mais tempo. No entanto, considera que, sob o viés político, seria por demais arriscado o envio de tropas ao território persa, ainda mais no contexto de um ano eleitoral — os EUA renovarão parte do Congresso em novembro. "Como as apostas de Trump sempre são altas, não se pode descartar uma escalada de envolvimento no Irã. O cenário ideal seria uma guerra curta, com uma transição para um regime mais enquadrado ao Ocidente, que permitisse a retomada da economia e do foco interno. À primeira vista, parece pouco provável", disse à reportagem. 

...e avisa que Cuba vai cair em breve

Depois de atacar a Venezuela e o Irã, em um intervalo de menos de dois meses, o presidente Donald Trump prenunciou a derrocada do regime cubano. "Cuba também vai cair. Eles têm muita vontade de chegar a um acordo", declarou o presidente dos EUA. "Eles querem fazer um acordo, então vou colocar (o secretário de Estado) Marco (Rubio) lá e veremos como isso termina", acrescentou, enquanto exaltava as façanhas militares de seu governo.

Após a captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por forças americanas, em 3 de janeiro passado, os Estados Unidos apoiaram Delcy Rodríguez, vice do ditador, como nova líder interina. Em troca, exigiram da Venezuela a paralisação das remessas de petróleo à sua aliada Cuba. O resultado foi uma crise energética sem precedentes na ilha caribenha. "Temos muito tempo, mas Cuba está pronta, depois de 50 anos", garantiu Trump à CNN, ao mencionar as décadas de governo comunista na ilha após a revolução liderada por Fidel Castro em 1959.

Yamil Lage/AFP - Morador de Havana na porta de casa, com a figura de Ernesto "Che" Guevara pintada na parede

Na quarta-feira, Trump tinha declarado que o retorno dos cubanos exilados à ilha é apenas "uma questão de tempo". O cubano Sebastián Arcos, professor de relações internacionais da Universidade Internaciional da Flórida e ex-prisioneiro político do regime castrista afirmou ao Correio que Cuba enfrenta uma "nova realidade estratégica". "A impunidade acabou, e o status quo tradicional, pelo qual os EUA esperavam pacientemente que o regime caísse por conta própria, evaporou", explicou. "Agora, os Estados Unidos são um agente ativo de mudança, disposto a negociar termos, mas não infinitamente. Se a negociação não funcionar, está aberto a usar a força militar."

Lição

Para Arcos, a guerra no Irã deve servir de lição para o regime cubano. "Ou saem do poder negociando, ou saem pela força", resumiu. O professor aposta na necessidade de uma ação militar para convencer o regime cubano de que seu tempo se esgotou. "Não será como no Irã, pois Cuba tem um território muito menor e menos armas. Não acho que será similiar à invasão de 1898, mas algo mais sofisticado e pontual", comentou, ao citar o ataque incitado pela explosão do navio de guerra USS Maine, no porto de Havana, o que levou os americanos — apoiados por rebeldes cubanos — a combaterem a Espanha.

Ao ser questionado sobre se crê em uma ação militar de Trump em Cuba, Arcos, diretor interino do Instituto de Pesquisa Cubano da universidade, respondeu: "Absolutamente". (Rodrigo Craveiro)

X/Reprodução - Pastores abençoam o presidente Donald Trump, durante culto na Casa Branca

Ungido no Salão Oval da Casa Branca

Na última quinta-feira, o presidente Donald Trump recebeu um grupo de líderes protestantes no Salão Oval da Casa Branca. Os pastores atenderam a um pedido do próprio republicano e se reuniram em torno dele, impondo as mãos na direção do anfitrião, durante uma oração. Os próprios religiosos publicaram, nas redes sociais, um vídeo no qual aparecem ao redor da mesa presidencial, pedindo a Deus para que oriente e proteja Trump, enquanto o número de mortos no Irã passava de 1 mil.  

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