O advogado de extrema direita José Antonio Kast assumiu nesta quarta-feira (11/3) a presidência do Chile e se tornou o chefe do Executivo conservador mais radical no país desde a ditadura de Augusto Pinochet.
"Sim, juro", declarou Kast em uma cerimônia solene diante do plenário do Congresso na cidade de Valparaíso, a 110 km de Santiago, na qual substituiu o presidente esquerdista Gabriel Boric, que esteve no poder nos últimos quatro anos.
Kast, de 60 anos, chega à Presidência do Chile com a promessa de instaurar um "governo de emergência" para enfrentar com mão dura a criminalidade e a imigração irregular, as duas maiores preocupações dos chilenos.
"As coisas vão mudar", disse a jornalistas minutos antes de assumir, ao condenar o ataque a tiros contra um policial no sul do país durante a madrugada.
Diante de um Congresso com maioria de direita, Kast foi empossado entre os aplausos de seus aliados. "Chi, chi, chi! Le, le, le! Viva Chile!", ouviu-se ao final da cerimônia.
Seu primeiro ato como presidente foi a tomada de juramento dos 24 ministros de seu gabinete. Dois deles foram advogados de Augusto Pinochet (1973-1990), cuja ditadura deixou mais de 3.200 mortos e desaparecidos.
Em seguida, ele embarcou no tradicional Ford Galaxie preto conversível, um presente ao país em 1968 da rainha Isabel II da Inglaterra, e saudou seus apoiadores sob um sol intenso.
"Viver tranquilos"
Os chilenos abandonaram nos últimos anos o anseio por uma nova Constituição surgido com o rebuliço social de 2019. Boric, que participou da cerimônia de posse, foi um dos principais impulsionadores desse processo, que fracassou após duas tentativas de reforma.
Católico devoto e pai de nove filhos, Kast representa "uma direita conservadora como não se conhecia desde o retorno à democracia", em 1990, afirma Rodrigo Arellano, analista político da Universidade do Desenvolvimento.
Seu discurso de ordem atrai chilenos que buscam frear a criminalidade. "Minhas expectativas são esperançosas com Kast. Levamos muitos anos com muito vandalismo e muita criminalidade", disse à AFP o vendedor José Miguel Uriona, de 65 anos, nos arredores do Congresso.
Para a estudante Ingrid Pino, de 38 anos, o Chile entra em "uma nova era, um novo começo". Ela espera que "o país cresça economicamente e que a criminalidade finalmente possa acabar e possamos viver tranquilos".
Embora os homicídios e sequestros tenham aumentado e tenham chegado ao país gangues estrangeiras como o Tren de Aragua, o Chile ainda é um dos países mais seguros da região. A taxa de homicídios foi de 5,4 por 100 mil habitantes em 2025, uma das mais baixas da América Latina.
Mesmo assim, Kast fez durante a campanha vários discursos atrás de um vidro blindado e apresentou o Chile quase como um Estado falido dominado pelo narcotráfico. Ele venceu com ampla margem as eleições presidenciais de dezembro contra a esquerdista Jeannette Jara.
Kast foi empossado em uma cerimônia à qual compareceram os presidentes Javier Milei (Argentina), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador), entre outros, além de Christopher Landau, subsecretário de Estado dos Estados Unidos, e a Nobel da Paz venezuelana María Corina Machado.
Kast se soma assim aos governos de direita que crescem na região sob a ala dos Estados Unidos.
Expectativas
"Os principais problemas que assolam o país não têm solução fácil. Kast terá que encontrar uma maneira de evitar que as expectativas se voltem contra ele", afirma Arellano.
A nova porta-voz do governo, Mara Sedini, disse à AFP que a administração que se inicia tem como missão "solucionar crises que são importantes e prioritárias para os chilenos", centradas em recuperar o crescimento econômico e a "segurança migratória".
O novo gabinete de ministros é uma equipe "com pouquíssima experiência em negociação e manejo político" que "pode criar problemas com o Congresso", comentou o cientista político Alejandro Olivares, analista da Universidade do Chile.
Investigações jornalísticas revelaram em 2021 que o pai de Kast, nascido na Alemanha, era membro do Partido Nazista de Adolf Hitler.
Kast alega, no entanto, que seu pai foi recrutado para o exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e nega que ele tenha sido um simpatizante do movimento nazista.
Durante a manhã, o presidente oficializou sua renúncia ao Partido Republicano, um gesto simbólico que novos presidentes costumam fazer para garantir a independência.
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