Nenhuma voz, nenhuma imagem de vídeo. O regime teocrático islâmico divulgou uma mensagem atribuída ao aiatolá Mojtaba Khamenei, eleito líder supremo do Irã no último domingo (8/3). No texto, ele pediu ao povo iraniano que se mantenha unido e defendeu a manutenção do fechamento do Estreito de Ormuz, canal marítimo responsável pelo escoamento de um quinto do petróleo e de um terço dos fertilizantes produzidos no mundo. "O trunfo do bloqueio do Estreito de Ormuz deve ser usado definitivamente", declarou. A Guarda Revolucionária reagiu de imediato e sinalizou que, em resposta às "ordens" de Mojtaba, manteria a "estratégia de fechar o Estreito de Ormuz".
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No texto, o aiatolá avisou: "Não nos absteremos de vingar o sangue dos mártires". "Por enquanto, foi concretizada pequena parte dessa vingança, mas enquanto não for completada, será uma das nossas prioridades", acrescentou. Mojtaba esclareceu que a vingança pretendida não se resume ao "martírio do Líder Supremo da Revolução" (Ali Khamenei), mas de cada iraniano morto.
Na declaração lida por um narrador na televisão estatal iraniana, o filho de Ali Khamenei, morto em bombardeio israelense a Teerã em 28 de fevereiro, também relatou ter visto o cadáver do pai. "Tive a oportunidade de visitar o corpo, após seu martírio. O que vi foi uma montanha de fortaleza, e ouvi dizer que sua mão, intacta, estava com o punho cerrado", disse. Ele se dirigiu aos países vizinhos do Golfo Pérsico. "Recomendo que fechem essas bases (militares americanas) o mais rápido possível, pois devem ter percebido que a alegação dos EUA de estabelecer segurança e paz não passa de mentira", advertiu.
Majid Takht-Ravanchi, vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, anunciou que Teerã permitiu a travessia, por parte de alguns navios, no Estreito de Ormuz. O número dois da chancelaria iraniana negou, no entanto, que o benefício se estenderá a "países que se uniram à agressão". O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assegurou que "a situação com o Irã avança muito rapidamente". "Está indo muito bem, nossas forças armadas são insuperáveis", enalteceu. "Realmente são uma nação de terror e ódio, e estão pagando um alto preço neste momento."
Aliado de Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ameaçou Mojtaba e admitiu que não existem garantias de que os iranianos derrubarão o regime dos aiatolás. "Você pode levar alguém à água, você não pode fazê-lo beber. Nós criaremos ótimas condições para fazerem isso. (...) O regime ruirá a partir de dentro", disse o chefe de governo. Sobre o novo líder supremo iraniano, Netanyahu comentou: "Eu não faria um seguro de vida a qualquer líder de organizações terroristas". Ele também revelou que Israel matou cientistas nucleares de alto escalão. Forças israelenses intensificaram os bombardeios ao sul da capital do Líbano, Beirute, bastião do movimento xiita Hezbollah.
Uma investigação preliminar do Exército americano constatou que o ataque a uma escola para meninas, em 28 de fevereiro, em Minab (sul do Irã), foi provocado por um míssil Tomahawk dos Estados Unidos. Naquele dia, os EUA bombardearam uma base iraniana vizinha. Ao menos 165 pessoas morreram no massacre, em sua maioria estudantes.
Sabotagem
Pesquisador do Foreign Policy Research Institute (na Virgínia, EUA) e especialista em assuntos regionais do Oriente Médio, Mohammed Salih afirmou ao Correio que a sabotagem da navegação e do comércio internacional é a principal carta na manga do Irã. "O regime parece determinado a usá-la. A geografia do Estreito de Ormuz favorece o Irã. Teremos que ver se os EUA e aliados tomarão alguma ação militar para garantir o controle do estreito. Caso contrário, a guerra precisará terminar ou interromperá o comércio global e causará duro golpe em outros países."
Salih afirmou que, do ponto de vista econômico, a obstaculização ao tráfego marítimo no Estreito de Ormuz poderá perturbar o comércio global e prejudicar gravemente muitos países. "Do ponto de vista militar, tal medida pode ser contraproducente para o Irã. Isso porque ele levaria os EUA e seus aliados a agirem com mais força, a fim de garantir a segurança do estreito."
Ataques a sinagoga e a universidade dos EUA
Dois atentados — ao menos um deles motivado pela guerra no Irã — assustaram os Estados Unidos e expuseram a vulnerabilidade do país à ação dos chamados "lobos solitários". Um homem armado abriu fogo na Universidade Old Dominion, em Norfolk (Virgina), matando uma pessoa e ferindo duas. O FBI (a polícia federal norte-americana) considera o incidente um "ato de terrorismo", segundo o diretor da instituição, Kash Patel. Em nota, a universidade informou que a polícia e o pessoal de emergência "responderam de imediato" e que "o agressor faleceu". As aulas foram suspensas pelo resto do dia. As autoridades informaram que o atirador era simpatizante do Estado Islâmico.
Em West Bloomfield, perto Detroit (Michigan), um homem não identificado morreu, baleado por seguranças, após lançar o carro contra a sinagoga Temple Israel. O veículo se incendiou e, na parte traseira, os socorrristas encontraram grande quantidade de explosivos. Oito bombeiros foram levados a hospitais, ao menos um dele estava inconsciente. Imagens de televisão mostravam a operação massiva das forças de segurança na área ao redor da sinagoga. A governadora de Michigan, Gretchen Whitmer, condenou o ataque. "A comunidade judaica de Michigan deveria poder viver e praticar sua fé em paz", disse Whitmer.
A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que o presidente Donald Trump havia sido informado do ataque. Michael Bouchard, xerife do condado de Oakland, assegurou que as forças de segurança estavam em alerta máximo desde o começo da guerra no Oriente Médio. "Falamos durante duas semanas sobre a possibilidade lamentável de que isso acontecesse", afirmou. "Portanto, não houve falta de preparação." Todas as instalações da coletividade judaica da região "terão muita presença adicional (de segurança) ao seu redor até que descubramos o que aconteceu", acrescentou. A Federação Judaica de Detroit indicou que as instituições judaicas se encontravam em confinamento preventivo.
