Estados Unidos

A Pax Americana de Donald Trump

Em 14 meses à frente da Casa Branca, republicano impôs o unilateralismo como instrumento para forçar a hegemonia dos Estados Unidos no cenário global e desafiar rivais. Especialistas avaliam impactos da política externa de Washington

A Segunda Guerra Mundial tinha acabado, e os Estados Unidos passaram os 18 meses seguintes consolidando-se como potência econômica e militar, ao anular adversários. Em 427 dias no comando da Casa Branca, Donald Trump reeditou a chamada Pax Americana e levou o seu slogan "America First" (América em primeiro lugar) às últimas consequências. O republicano fechou a fronteira sul com o México; impôs um tarifaço a vários países; ordenou uma ação militar para capturar o ditador venezuelano, Nicolás Maduro; lançou uma guerra conjunta com Israel contra o Irã; e agora ameaça derrubar o regime cubano, depois de impedir o escoamento de petróleo para a ilha caribenha comunista. O unilateralismo tem permeado as decisões de governo, alijando parceiros históricos. Nas últimas semanas, Trump fez reiteradas críticas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — os Estados Unidos são o membro fundador da aliança militar ocidental, da qual fazem parte desde 1942. 

Professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Cristina Pecequilo explicou ao Correio que Trump enxerga o "Make America Great Again" (Tornar a América grande novamente) e o "America First" (América em primeiro lugar) como a expressão mais direta do exercício hegemônico unilateral. "Não me parece a criação de nova ordem mundial, mas a tentativa de reafirmar a Pax Americana, buscando barrar processos de multipolaridade global", avaliou.

Na opinião dela, Trump prioriza a ação internacional baseada no unilateralismo e na pressão aos aliados, a fim de que sustentem as prioridades da política externa dos EUA. "Isso causa um problema de coordenação e desacordos nas alianças, que podem, a médio e longo prazos, sofrer processos de desagregação e fragmentação." Nesse sentido, Pecequilo interpreta o fenômeno como um risco para os próprios Estados Unidos.

Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da ESPM, concorda com Pecequilo. "O objetivo de Trump é reafirmar e construir a Pax Americana, que ele entende estar em declínio e, agora, volta a reposicioná-la de forma unilateral", disse à reportagem. Segundo ela, a disputa com a China também tem peso na reacomodação da política hegemônica americana. "A percepção é de que a China se mostra a grande concorrente. Por isso, os Estados Unidos têm que reocupar seus espaços para criar áreas de influência fortes para competir com Pequim. É um reordenamento da lógica internacional, mas também no sentido de disputas por espaços de poder e construção da posição dos EUA no mundo." 

Poderio militar

De acordo com Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington), a maioria dos analistas interpreta mal o que Trump quer dizer com "America First". "Isso não implica priorizar assuntos internos em detrimento dos desafios externos. Pelo contrário, reflete uma crença de que os Estados Unidos deveriam dominar o cenário global por meio de seu poderio militar. Trump sugeriu que tal poder lhe concede liberdade ampla para agir como desejar, tanto em casa quanto no exterior", afirmou ao Correio.

O especialista reconhece que as ações de Trump — antes e durante a guerra — prejudicaram significativamente a reputação global dos Estados Unidos. "Antes vistos como um farol da democracia e do Estado de Direito, os EUA agora são avaliados de forma muito menos favorável. As pesquisas indicam que sua posição internacional caiu drasticamente, ficando inclusive atrás da China em termos de prestígio global." Ele disse acreditar que Trump ficaria feliz com um mundo dividido entre as esferas de influência americana, russa e chinesa. "Basta olharmos para suas intervenções na Venezuela e em Cuba."

Sobre a guerra no Irã, Lichtman a considera uma "extensão lógica" da interpretação de Trump sobre o "America First". "O Pentágono, agora, busca um adicional de US$ 200 bilhões para manter a guerra. A um custo estimado de US$ 1 bilhão por dia, esse financiamento sustentaria aproximadamente mais 200 dias de uma guerra que Trump declarou vencida. Se aprovado, o gasto militar total sob sua liderança chegaria a aproximadamente US$ 1,2 trilhão", observou. "Ao mesmo tempo, Trump bloqueou os subsídios da Lei de Acesso à Saúde, dos quais milhões de americanos dependem para obter seguro saúde, além de ter cortado o financiamento para assistência alimentar, Medicaid e pesquisa médica — medidas que prejudicam os mais vulneráveis."

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"A credibilidade e a legitimidade da hegemonia dos Estados Unidos têm sido erodidas na última década tanto por governos democratas quanto republicanos. Trump apenas acelera e intensifica esse movimento, que, por seu estilo pessoal, acaba provocando mais impacto por ser mais aberto, no sentido de não justificar o uso do poder por razões idealistas, mas, sim, exercer o poder pelo poder. Além disso, o comportamento errático de Trump é, por si só, uma tática, que defino como de 'imprevisibilidade previsível'."

Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)