Em uma reedição da intervenção durante a guerra civil libanesa (1975-1982), as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram que passarão a controlar uma ampla zona de "segurança" no sul do Líbano — uma faixa territorial de cerca de 30km entre a fronteira e o Rio Litani. Ao mesmo tempo, o Exército judeu manterá os bombardeios em Beirute e em outras regiões do Líbano. "A política de Israel no Líbano é clara: há terror e mísseis — não há casas nem moradores. As IDF controlarão a zona de segurança até o Rio Litani", escreveu Israel Katz, ministro da Defesa israelense, em seu perfil na rede social X.
O titular da Defesa do gabinete do premiê Benjamin Netanyahu reconheceu que "centenas de milhares de moradores do sul do Líbano que foram evacuados para o norte não voltarão ao sul do Litani enquanto a segurança dos habitantes do norte de Israel não estiver garantida". Horas antes do anúncio, na noite de segunda-feira (23/3), foguetes disparados por combatentes do movimento fundamentalista xiita Hezbollah mataram uma mulher e feriram outras duas pessoas, no norte do território israelense. Desde 2 de março, quando Israel começou a atacar o Líbano, 1.072 pessoas morreram na guerra, incluindo 121 crianças, e mais de 1 milhão tiveram que fugir de suas casas.
Kawant Haju/AFP - Foguetes disparados pelo Hezbollah em direção a Israel, a partir de colinas ao sul de Tiro
Nadim Houry, diretor executivo da Iniciativa de Reforma Árabe (rede de institutos independentes de pesquisa e política árabes), disse que Israel repete um trágico erro histórico. "Eles (israelenses) acreditam que a força brutal, o controle territorial e a ocupação podem produzir paz duradoura na fronteira norte. As autoridades de Israel falam abertamente sobre controlar o território libanês até o Rio Litani como uma 'zona de segurança', e outras mencionam a possibilidade de ocupar partes do Líbano", afirmou ao Correio.
Segundo Houry, a história demonstra que tal abordagem só leva a mais conflitos. "Em 1982, Israel obteve sucessos militares contra a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), mas aquela guerra contribuiu para criar as condições para a ascensão do Hezbollah. Ganhos táticos produziram fracassos estratégicos", disse. Segundo ele, a resposta de longo prazo para uma fronteira pacífica nunca foi ocupação ou zonas de segurança. "É preciso um Estado libanês forte, capaz de monopolizar a força. Uma nova ocupação só levará a novas formas de resistência armada."
Questionado sobre as chances de sucesso da estratégia israelense, o diretor da Iniciativa de Reforma Árabe vê dois cenários. "Se o objetivo for a destruição tática, o deslocamento e o controle territorial temporário no Líbano, Israel pode infligir grave dano. Se o sucesso significa criar uma segurança sustentável e remover o Hezbollah como força política e militar, as chances são bem menores." Houry lembrou que o Hezbollah não é o mesmo de duas décadas atrás: perdeu líderes e está isolado. "Mas, seus combatentes estão motivados e conhecem o terreno. É ingenuidade pensar que Israel pode ocupar o sul do Líbano e impor uma nova ordem."
Dimitar Dilkoff/AFP - Coluna de fumaça e pedaço de concreto voam de prédio bombardeado por Israel, em Tiro, cidade costeira do Líbano
Pré-requisitos
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute), concorda que Israel deseja obter uma segurança duradoura em sua fronteira norte. "A ocupação do sul até o Rio Litani, ou até mesmo mais ao norte, e o esvaziamento da região de seus habitantes xiitas — o berço do Hezbollah — são pré-requisitos para tal segurança", afirmou ao Correio.
Para Malik, Israel deve completar a destruição do Hezbollah em solo antes de negociar com o Líbano. "A maioria dos libaneses se opõe ao Hezbollah e quer que o movimento eventualmente assine um acordo de paz com Israel. No entanto, eles percebem o quão fraco e ineficiente é o seu governo e o quanto o exército está paralisado para confrontar o Hezbollah e confiscar suas armas", disse.
EU ACHO...
Arquivo pessoal - Habib Malik, professor aposentador de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)
"A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) foi quem reabilitou o Hezbollah nos últimos 18 meses, e cerca de 100 oficiais da IRGC estão liderando as operações do grupo no Líbano contra Israel. O Hezbollah é pouco mais do que um braço militar do regime iraniano, e o povo libanês sabe disso e despreza o movimento e o regime ao qual ele se submete. Os objetivos de Israel certamente serão alcançados no final, e o Hezbollah será aniquilado no terreno, especialmente se a queda do regime de Teerã ocorrer simultaneamente."
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)
Arquivo pessoal - Nadim Houry, diretor executivo da Iniciativa de Reforma Árabe
"Parece a continuação da nova doutrina de segurança de Israel que temos visto em Gaza: destruir, dominar, impor zonas de segurança e traduzir apoio militar em controle direto sobre o terreno. No Líbano, isso agora se apresenta como um plano para manter o território sob controle até o Rio Litani, preservar zonas de amortecimento e remodelar o equilíbrio interno do país pela força. Figuras importantes de Israel chegam a defender a anexação de partes do Líbano. O problema é que essa doutrina é desastrosa politicamente. Ela não cria fronteiras estáveis."
Nadim Houry, diretor executivo da Iniciativa de Reforma Árabe
Dimitar Dilkoff/AFP - Coluna de fumaça e pedaço de concreto voam de prédio bombardeado por Israel, em Tiro, cidade costeira do Líbano
Kawant Haju/AFP - Foguetes disparados pelo Hezbollah em direção a Israel, a partir de colinas ao sul de Tiro
Dimitar Dilkoff/AFP - Idosa desabrigada caminha por quarto improvisado em escola usada como abrigo, na mesma cidade
Arquivo pessoal - Habib Malik, professor aposentador de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)
Arquivo pessoal - Nadim Houry, diretor executivo da Iniciativa de Reforma Árabe
Eu acho...
"A Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) foi quem reabilitou o Hezbollah nos últimos 18 meses, e cerca de 100 oficiais da IRGC estão liderando as operações do grupo no Líbano contra Israel. O Hezbollah é pouco mais do que um braço militar do regime iraniano, e o povo libanês sabe disso e despreza o movimento e o regime ao qual ele se submete. Os objetivos de Israel certamente serão alcançados no final, e o Hezbollah será aniquilado no terreno, especialmente se a queda do regime de Teerã ocorrer simultaneamente."
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)
"Parece a continuação da nova doutrina de segurança de Israel que temos visto em Gaza: destruir, dominar, impor zonas de segurança e traduzir apoio militar em controle direto sobre o terreno. No Líbano, isso agora se apresenta como um plano para manter o território sob controle até o Rio Litani, preservar zonas de amortecimento e remodelar o equilíbrio interno do país pela força. Figuras importantes de Israel chegam a defender a anexação de partes do Líbano. O problema é que essa doutrina é desastrosa politicamente. Ela não cria fronteiras estáveis."
Nadim Houry, diretor executivo da Iniciativa de Reforma Árabe
Trump diz que negocia, mas seguem ataques
O presidente Donald Trump reafirmou que seguem "fluidas" as conversações dos Estados Unidos com "pessoas confiáveis" no Irã para encontrar uma saída da guerra iniciada em 28 de fevereiro, com uma ofensiva conjunta norte-americana e israelense contra a República Islâmica. "Estamos negociando neste momento", afirmou. Trump mencionou "um presente muito grande" que teria sido oferecido pelos interlocutores em Teerã, "uma soma de dinheiro muito grande" envolvendo petróleo e gás. O lado iraniano não comentou as declarações, mas seguiu a troca de ataques de mísseis e drones com Israel, cujo governo afirmou que seguirá combatendo mesmo que Washington chegue a algum acordo com Teerã.
No terreno de combate, um míssil iraniano deixou ontem nove feridos em Tel Aviv, segunda maior cidade de Israel e capital reconhecida por quase toda a comunidade internacional — inclusive o Brasil. O Exército israelense, por sua vez, lançou "uma série de bombardeios em larga escala em várias regiões do Irã", inclusive em Isfahan. De acordo com a agência iraniana de notícias Fars, foi atingida também uma usina de tratamento do gasoduto de Khorramshar, no sudoeste do país.
Falando à imprensa na Casa Branca, Trump reafirmou que seu governo estaria conversando com "as pessoas certas" no Irã, e que elas estariam "querendo muito fazer um acordo" com os EUA, incluindo a promessa de que "nunca vão ter uma arma nuclear". Sem mencoinar quem seriam as contrapartes, disse que, pelo, lado norte-americano, estariam em cena o vice-presidente, JD Vance; o secretário de Estado, Marco Rubio; e os enviados especiais Jared Kushner. Depois de mencionar o "grande presente" que teria sido oferecido aos EUA pelos negociadores iranianos, repetiu o tom dos últimos dias e anunciou que "essa guerra está ganha".
As idas e vindas do presidente colocam uma dose de incerteza sobre os rumos traçados em Washington para uma eventual saída do conflito. Na segunda-feira, Trump adiou por cinco dias o ultimato que tinha feito a Teerã para que liberasse o tráfego naval pelo Estreito de Ormuz, sob pena de sofre um "ataque maciço" a suas centrais elétricas. Ontem, a porta-voz Karoline Leavitt reforçou que a Casa Branca segue explorando "novas opções" diplomáticas, mas "continua sem cessar a ofensiva para atingir os objetivos militares estabelecidos pelo comandante-em-chefe e pelo Pentágono".
O Irã, até aqui, desmente que venha mantendo qualquer tipo de conversações, mas observadores do cenário no Oriente Médio acreditam, que os emissário de Trump tenham estabelecido algum nível de diálogo indireto com o concurso de países da região. "O Paquistão é um dos poucos países que mantêm relações próximas tanto com Teerã quanto com Washington", sugere Michael Kugelman, especialista em sudeste asiático no centro de estudos Atlantic Council. O premiê Sehbaz Sharif manifestou disposição para hospedar negociações diretas, e eu governo teria recebido dos EUA uma proposta de paz com 15 pontos, segundo o jornal 'The New York Times'. Turquia e Egito também são mencionados como possíveis interlocutores e, eventualmente, facilitadores do processo.
Em entrevista ao Correio, o historiador Arash Azizi, da Universidade de Yale, disse acreditar que "alguma modalidade de conversação" esteja em andamento entre Washington e Teerã, "ainda que seja na forma de ambas as partes estarem conversando com terceiros, como os sauditas e paquistaneses". Na sua avaliação, a relutância aparente de Israel em colocar um ponto final na guerra, ainda que não tenha atingido os próprios objetivos — principalmente, a queda do regime islâmico no Irã —, deve esbarrar nas decisões de Trump. "Ele terá a última palavra, e Israel terá de seguir o que ele decidir", afirma. "E duvido que Israel queira continuar essa guerra para sempre."
Hipertexto - Déjà vu, quatro décadas depois
Em 1982, durante a guerra civil no Líbano, as Forças de Defesa de Israel invadiram todo o sul do Líbano para repelir grupos armados palestinos. As tropas do Estado judeu retiraram-se no ano 2000, sob pressão do movimento pró-iraniano xiita Hezbollah.