
No primeiro dia de um frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, as Forças de Defesa de Israel (IDF) realizaram o maior bombardeio a Beirute desde o início da guerra. De acordo com o Ministério da Saúde do Líbano, os ataques desta quarta-feira (8/4) deixaram 182 mortos e 890 feridos. A campanha militar israelense contra o movimento fundamentalista xiita Hezbollah ameaça implodir o acordo mediado pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que previa uma suspensão nos combates pelo prazo de duas semanas e a reabertura do Estreito de Ormuz. Depois de permitir o trânsito de embarcações, o Irã fechou novamente o canal marítimo vital para o escoamento de 20% do petróleo mundial. Washington e Teerã se contradizem sobre a inclusão ou não da trégua no Líbano como parte do plano de cessar-fogo, cujos detalhes serão discutidos, a partir desta sexta-feira (10/4), em Islamabad.
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O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou que a pausa nos ataques ao território libanês faz parte das condições fundamentais apresentadas por seu país em um plano de 10 pontos que serão negociados com os EUA. Segundo a agência estatal Isna, Pezeshkian e o colega francês, Emmanuel Macron, conversaram por telefone, e o iraniano reafirmou a "necessidade de um cessar-fogo no Líbano", além de considerar essa exigência como uma condição crucial das propostas de Teerã. Mais cedo, o presidente americano, Donald Trump, sublinhou que os libaneses "não foram incluídos no acordo" de cessar-fogo. "É por causa do Hezbollah", justificou o republicano, em entrevista à emissora PBS NewsHour. A Casa Branca denunciou o regime iraniano por ter divulgado um plano modificado de 10 pontos, não consensuado entre Washington e Teerã. Também informou que Trump e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, seguirão debatendo a ideia de incluir o Líbano no acordo.
Chefe da comitiva da Casa Branca que irá a Islamabad para as tratativas com o regime teocrático islâmico, J.D. Vance, vice de Trump, cobrou de Teerã o respeito à trégua no Líbano. "Se o Irã quiser que essa negociação seja rompida por um conflito no qual eles estão sendo esmagados no Líbano, que não tem nada a ver com eles, e que os Estados Unidos nunca disseram que fizesse parte do cessar-fogo, é uma escolha deles. Acreditamos que seria uma estupidez, mas é a escolha deles", comentou. Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, sublinhou que o cessar-fogo deve incluir o fim das hostilidades contra o Hezbollah. "Os termos do cessar-fogo são claros e explícitos: os EUA devem escolher — cessar-fogo ou continuação da guerra via Israel. Não pode haver os dois", advertiu.
Em mais um sinal da fragilidade do acordo, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad-Bagher Ghalibaf, classificou como "pouco razoáveis" as tratativas com os EUA e denunciou "sucessivas violações" de Washington. "A profunda desconfiança histórica que sentimos em relação aos Estados Unidos decorre de suas repetidas violações de todo tipo de compromissos, um padrão que, lamentavelmente, se repetiu mais uma vez", escreveu na rede social X. "Agora, a mesma 'base viável sobre a qual negociar' foi violada de maneira aberta e clara, inclusive antes mesmo de começarem as negociações. Em tal situação, um cessar-fogo bilateral ou as negociações são pouco razoáveis", acrescentou, ao mencionar os bombardeios israelenses no Líbano, a entrada de um drone (aeronave não tripulada) no espaço aéreo iraniano e a recusa do direito do Irã de enriquecer urânio.
Guerra civil
"Israel está tentando torpedear o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã. O Paquistão, mediador do pacto, deixou claro que o Líbano precisa ser parte do cessar-fogo. No entanto, os israelenses intensificaram os bombardeios a Beirute. Hoje, foi um dos dias mais sombrios da história libanesa. Israel brutalmente atacou uma série de bairros residenciais da capital do Líbano nos quais não existe presença do Hezbollah ou os quais sejam formados por maioria sunita", afirmou ao Correio o franco-libanês Karim Emile Bitar, professor de ciência política da universidade Sciences Po Paris, na capital francesa. O estudioso acusou Israel de tentar fomentar uma guerra civil no Líbano e de escalar os ataques para levar ao fracasso o acordo celebrado por Trump. "Os israelenses não aceitam o fato de terem sido informados sobre o pacto uma hora antes do fim do ultimato", acrescentou.
Historiador da Universidade de Yale, Arash Azizi avalia a situação como "complicada". "O Irã quer mostrar que não está desistindo do Líbano, mas, também, que não está abandonando de todas as negociações. Teerã pode tentar convencer os EUA a pressionar Israel para que diminua os ataques ao Líbano o suficiente para que o país consiga se manter seguro e ainda comparecer a Islamabad amanhã (sexta-feira)", disse ao Correio. Azizi concorda que o acordo é "bastante frágil". "Ghalibaf efetivamente acenou com a saída do Irã das negociações, mas o acordo ainda não desmoronou completamente", acrescentou o estudioso, ao citar o presidente do Parlamento iraniano.
EU ACHO...
"Existe o risco de colapso do cessar-fogo por inteiro, se Israel continuar os ataques ao Líbano. O vice-presidente J.D. Vance tentará conter os israelenses. O acordo permanece extremamente frágil, porque há muita ambiguidade estratégica. O que foi publicado pelos iranianos, e que teria sido aceito pelos americanos, mostrou-se um documento totalmente diferente do qual os EUA dizem ter acordado. Os próximos dias serão muito importantes. J.D. Vance foi um dos poucos membros do governo hostis a essa guerra. Ele terá que convencer os israelenses a embarcar no acordo ou veremos um rápido colapso do cessar-fogo."
Karim Emile Bitar, professor de ciência política da universidade Sciences Po Paris
Antes da visita a Trump, críticas à Otan
Pouco antes de uma visita do secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, a Donald Trump, a Casa Branca acusou a aliança militar ocidental de ter "dado as costas" para os Estados Unidos na guerra contra o Irã. "Eles foram postos à prova e falharam", declarou sobre os parceiros da organização a secretária de imprensa Karoline Leavitt, citando palavras do próprio Trump. "É bastante triste que a Otan tenha dado as costas ao povo americano nas últimas seis semanas, quando é precisamente esse povo que tem financiado sua defesa", acrescentou Leavitt. Antes do encontro com Trump, o Rutte se reuniu com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Questionada sobre se Trump abordaria uma possível retirada da Otan, respondeu: "É algo que o presidente mencionou, e acredito que é algo que ele abordará em poucas horas com o secretário-geral Rutte".
Tensões se acumulam em Beirute
SILVIO QUEIROZ
O primeiro-ministro Nawaf Salam e o movimento xiita Hezbollah condenaram os bombardeios maciços da Força Aérea israelense contra diversas cidades do Líbano, principalmente a capital, Beirute, a despeito do cessar-fogo estabelecido entre Estados Unidos e Irã na guerra que travam há 40 dias. A milícia pró-Teerã fez coro com a Guarda Revolucionária iraniana e se disse autorizada a revidar os ataques, que causaram pesadas baixas entre a população civil e tendem a acirrar as tensões políticas e interconfessionais no país.
"Embora tenhamos saudado o acordo entre Irã e os EUA, Israel continua a intensificar seus ataques, que têm como alvo bairros residenciais densamente povoados e ceifam a vida de civis desarmados em todo o Líbano", afirmou o premiê. Em postagem na rede social X, Salam, um muçulmano sunita, denunciou o governo israelense pelo "total desrespeito aos esforços regionais e internacionais para pôr fim à guerra e aos princípios do direito internacional, que nunca respeitou em primeiro lugar".
Também pelas redes sociais, o Hezbollah, apontado como alvo dos bombardeios pelo ministro israelense da Defesa, Israel Katz, condenou a "agressão desenfreada" contra o Líbano, que atribuiu à "frustração do inimigo após o fracasso retumbante em alcançar seus objetivos", após mais de um mês. "Os massacres de hoje, bem como todos os crimes, confirmam nosso direito natural e legal de resistir ao ocupante e responder à sua agressão", diz um comunicado postado pelo grupo.
Os ataques israelenses foram os mais intensos desde 1º de março, quando o Hezbollah entrou na guerra em apoio ao Irã. "Precisaremos de 100 anos para esquecer o que nos aconteceu em 10 minutos", escreveu no X uma libanesa intitulada de Sally, moradora das montanhas próximas a Beirute. "A cidade esteve sob bombardeio pesado e surpreendente, hoje, pela primeira vez", disse depois ao Correio. "Nós estamos psicologicamente devastados", relatou à reportagem Mimo Hajjar, moradora da capital.
Desde a retomada das hostilidades entre Israel o Hezbollah, que interrompe uma trégua firmada em novembro de 2024, o Líbano conta ao menos 1.739 mortos e 5.873, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 1 milhão de civis abandonaram o sul do país e o Vale do Bekaa, no leste, em direção à capital. Os deslocados são, na maioria, muçulmanos xiitas. Teriam como destino natural os subúrbios ao sul de Beirute, reduto da comunidade, mas a população da área vem sendo repetidamente advertida por Israel a deixar suas casas.
O movimento em massa dos civis, como desdobramento dos combates no sul e da incursão de tropas israelenses, se soma às tensões intercomunitárias acumuladas desde o fim da Guerra Civil Libanesa (1975-1990). Assim que o Hezbollah retomou os ataques a Israel, o premiê e o presidente Joseph Aoun, cristão maronita, declararam ilegal o braço armado e suas operações, medida que atende aos termos do cessar-fogo de 2024. Observadores da cena, porém, alertam para o risco de o país ser empurrado de volta ao conflito armado interno.
"Há duas ordens de problemas de desordem civil para nos preocuparmos. O primeiro é a instabilidade social e o potencial para violência entre a população deslocada, na maioria xiita, e outras confissões religiosas", observa Faysal Itani, libanês de Beirute, professor de política do Oriente Médio na Universidade Georgetown (EUA). Falando ao Correio, ele aponta outro perigo para a frágil estabilidade do país: o desarmamento do Hezbollah. "Os israelenses não confiam mais no Exército libanês para isso, portanto não estão cooperando com nenhum esforço nessa direção", observa. "Na verdade, o Exército libanês também não tem feito esforço nenhum para isso." (Colaborou Rodrigo Craveiro)
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