Guerra no Irã

Oriente Médio: Irã ameaça com batalha naval

Regime islâmico reage ao "contrabloqueio" naval dos EUA e fala em impedir o tráfego marítimo até no Mar Vermelho. Paquistão articula uma nova rodada de negociações e a prorrogação do cessar-fogo

Petroleiro de bandeira grega é carregado no litoral mediterrâneo da Síria com óleo do Iraque: importadores e exportadores buscam rotas alternativas  -  (crédito: Kawnat Haju/AFP)
Petroleiro de bandeira grega é carregado no litoral mediterrâneo da Síria com óleo do Iraque: importadores e exportadores buscam rotas alternativas - (crédito: Kawnat Haju/AFP)

Os governos de Washington e de Teerã sinalizaram nesta quarta-feira (15/4) que estão em andamento conversações indiretas, com o Paquistão no papel de "pombo-correio", para acertar uma nova rodada de conversações a três para os próximos dias. Depois do fracasso do primeiro encontro, no fim de semana, na capital paquistanesa, os dois lados anunciaram o reforço do bloqueio naval na região do Golfo Pérsico, mas seguem observando, no fundamental, um cessar-fogo de 15 dias com vencimento na próxima quarta-feira. O Irã, em especial, reagiu à pressão dos Estados Unidos sobre suas operações de importação e exportação ameaçando estrangular o tráfego de navios mercantes também pelo Mar Vermelho — no caso, pela ação de seus aliados houthis, milícia xiita que controla metade do território do Iêmen.

Coube ao general Ali Abdollahi Aliabadi, encarregado do principal comando conjunto das forças iranianas, advertir os EUA sobre as consequências do bloqueio anunciado a navios que tenham origem ou destino em portos da República Islâmica. "Se criarem insegurança para nossos navios comerciais ou petroleiros, isso significará um prelúdio para a violação do cessar-fogo", afirmou o militar. Em resposta, o Irã acena com a interdição completa para o tráfego naval comercial pelo Golfo Pérsico, pelo Estreito de Ormuz e mesmo pelo Mar Vermelho.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Essa última é outra via marítima crucial para a entrada e saída de petróleo e outras mercadorias de todo o Oriente Médio. Em uma de suas extremidades, dá passagem para o Mediterrâneo, através do Canal de Suez. Na outra, para o Mar da Arábia, através do Estreito de Bab el-Mandab. Este, como toda a margem leste do Mar Vermelho, é adjacente à parte do Iêmen controlada pelos houthis, que já atacaram navios mercantes como parte de suas disputas com Israel e Arábia Saudita.

Da parte dos EUA, está em vigor desde segunda-feira (13/4) um "contrabloqueio" que tem como alvo navios com origem ou destino em portos iranianos. Evitando entrar no Golfo Pérsico ou mesmo se aproximar do litoral persa, pelo risco de confronto com as defesas do regime islâmico, o dispositivo naval norte-americano já fez retornarem alguns navios que saíram do golfo pelo Estreito de Ormuz. Embora não haja números precisos e indiscutíveis, a reação do general iraniano sugere que a medida começa a fazer impacto.

Triângulo diplomático

Foi nesse ambiente que desembarcou em Teerã o comandante do Exército paquistanês, o marechal Asim Munir, uma das peças-chaves das negociações para o cessar-fogo. O militar foi recebido no aeroporto pelo chanceler Abbas Araghchi, que confirmou as versões sobre a costura de uma nova rodada de negociações e a extensão da trégua, para que EUA e Irã possam avançar em direção a um acordo de paz que ponha fim ao conflito iniciado com o ataque coordenado americano-israelense à República Islâmica, em 28 de fevereiro. Em missão paralela, o premiê paquistanês, Shehbaz Sharif, foi a Riad para uma "troca de opiniões sobre a situação" com a Arábia Saudita.

"As conversas estão sendo realizadas", corroborou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt. Embora nenhuma das partes tenha confirmado oficialmente uma nova rodada de negociações, a funcionária indicou que o governo norte-americano "está otimista em relação às perspectivas de um acordo" com Teerã. Em um sinal adicional de que ambas as partes apostam na diplomacia, a porta-voz indicou que um novo encontro "muito provavelmente" será realizado novamente em Islamabad, capital do Paquistão.

O professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM, acredita que EUA e Irã devem retomar as negociações e, eventualmente, prorrogar o cessar-fogo, "porque é do interesse dos dois lados". "Essas mensagens trocadas são tentativas de controle da narrativa por parte de Donald Trump", disse o estudioso em entrevista ao Correio. "E o regime iraniano procura não parecer fraco, subordinado às pressões americanas." Ele acredita que a trégua pode ser estendida tacitamente, sem um ato formal. "Nenhum dos dois lados diz que o cessar-fogo acabou, e portanto fica subentendido que está prorrogado", arrisca.

Economia em risco

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, advertiu que a economia mundial poderá entrar em recessão se a guerra no Oriente Médio não for resolvida em breve e os preços do petróleo se mantiverem altos. "Devemos nos preparar para tempos difíceis" se o conflito persistir, disse a jornalistas durante entrevista coletiva, em Washington. "Estamos preocupados com os riscos para a inflação, que eles sejam transmitidos aos preços dos alimentos se as entregas de fertilizantes a um preço razoável não forem retomadas em breve", explicou.

Georgieva aconselhou os bancos centrais a "esperar para ver" antes de ajustar as taxas de juros, se possível. Segundo a diretora do FMI, esse é um caso em que a população tem expectativas "bem ancoradas" de que a inflação permanecerá sob controle. "Se conseguirmos sair rapidamente da guerra, pode não ser necessário tomar medidas."

"Zona de extermínio" no Líbano

O general Eyal Amir, chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, afirmou nesta quarta-feira (15/4) que determinou a suas tropas que estabeleçam no sul do Líbano uma "zona de extermínio" das forças do movimento xiita Hezbollah. A definição vai ao encontro de declarações feitas no mesmo dia pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que destacou o "desmantelamento" da milícia pró-iraniana como um dos "objetivos fundamentais" da campanha de bombardeios e da incursão terrestre no país vizinho, determinada nos primeiros dias desde o ataque coordenado com os Estados Unidos contra o Irã, em 28 de fevereiro.

"Ordenei que toda a zona do sul do Líbano até a linha do rio Litani seja transformada em uma zona de extermínio dos terroristas do Hezbollah", disse à imprensa o general Zamir, durante visita às unidades israelenses em território libanês. O premiê e o comando militar definiram um limite de 30km a partir da fronteira, até a margem do rio Litani, como uma "zona de segurança" para impedir que o Hezbollah possa seguir disparando foguetes e lançando drones contra povoações do extremo norte israelense.

Desde o início do conflito, os ataques de Israel mataram mais de 2 mil libaneses e forçaram ao menos 1,2 milhão de habitantes a deixar o sul do país com destino à capital. Beirute foi duramente castigada por bombardeios na última quarta-feira, com saldo de mais de 300 mortos. Na terça-feira, os embaixadores de ambos os países nos Estados Unidos reuniram-se sob mediação do secretário de Estado Marco Rubio para discutir a crise. Na ausência de um acordo mais abrangente, sinalizaram com o prosseguimento do processo, possivelmente envolvendo autoridades de mais alto escalão.

"Desarmar o Hezbollah é um dos grandes objetivos de Netanyahu, pois a milícia xiita, com o Irã, sempre representou a maior ameaça a Israel", observa o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. Ele vê a possibilidade de que uma negociação direta entre os governos israelense e libanês avancem à margem das tratativas entre Estados Unidos e Irã. "O Hezbollah foi severamente enfraquecido pelos ataques israelenses, e foi eleito (no Líbano) um presidente, o general Joseph Aoun, conhecido como pró-EUA", pondera. "Ele já vinha falando de desarmar o Hezbollah, mas isso sempre foi bloqueado, pois eles têm um poder militar maior que o do Exército libanês." (SQ)

 

Três perguntas para

Qual é a possibilidade real de o governo libanês assumir o compromisso de desarmar o Hezbollah, como exigido por Israel?

Sozinho é muito difícil, porque, efetivamente, o Hezbollah aida tem capacidades muito fortes. Mas elas vêm sendo degradadas por Israel, nos últimos três anos — lideranças foram eliminadas, como boa parte do arsenal ofensivo. E como boa parte da população libanesa não é xiita, não queria que o Líbano fosse tragado para essa guerra.

Israel dispõe dos meios e da vontade para desmantelar o Hezbollah?

Esse é um dos grandes objetivos do premiê Benjamin Netanyahu. E, tendo em vista as eleições em outubro, o grande objetivo de Netanyahu, até para manter a atual coalizão de governo, é apresentar pelo menos o desarmamento do Hezbollah. E parece que ele tem o apoio da população.

Israel estaria disposto a colocar o desarmamento em prática por iniciativa própria?

Netanyahu quer construir a narrativa de que ele está lutando contra o Hezbollah, não contra o Líbano. Com isso, tem uma justificativa maior para desarmar o Hezbollah, já que o governo libanês não vai ter capacidade para tanto. (SQ)

 

  • Google Discover Icon
postado em 16/04/2026 06:00
x