
Um clima de suspense pairava, nesta segunda-feira (20/4), sobre o cessar-fogo entre Washington e Teerã. Os Estados Unidos enviaram a Islamabad, capital do Paquistão, uma delegação chefiada por J.D. Vance, número dois da Casa Branca. O Irã, por sua vez, não confirmou a participação na nova rodada de negociações. Um primeiro contato de alto nível entre os dois países terminou em fracasso, em 11 de abril passado. As possíveis novas tratativas esbarram no mal-estar causado pela interceptação do cargueiro MV Touska, que sofreu disparos e foi invadido por marines (fuzileiros navais dos EUA), no Mar da Arábia.
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O presidente americano, Donald Trump, avisou que o prazo dado aos iranianos para aceitarem um acordo de cessar-fogo termina na noite desta quarta-feira (22/4) e que é "altamente improvável" o anúncio de novo ultimato. A trégua começou em 8 de abril e teria duração de duas semanas. "Não temos nenhum plano para a próxima rodada de negociações e nenhuma decisão foi tomada a esse respeito (sobre a ida a Islamabad)", anunciou o porta-voz da chancelaria iraniana, Esmail Baghaei. Trump disse ao site Bloomberg que, se o cessar-fogo acabar sem um pacto de paz, "começarão a explodir muitas bombas".
Na noite desta segunda-feira (20/4), o líder do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, sinalizou que seu país mostrará "novas cartas no campo de batalha", no caso de recomeço da guerra. "Não aceitamos negociações sob a sombra de ameaças e, nas últimas duas semanas, estivemos nos preparando para mostrar novas cartas no campo de batalha", escreveu Ghalibaf, principal negociador iraniano, na rede X.
Com a apreensão do cargueiro de Teerã, os preços do petróleo tornaram a subir. O regime de Teerã acusa os Estados Unidos de emitirem sinais confusos nos últimos dias. Trump também antecipou que seu governo não suspenderá o bloqueio imposto a portos iranianos e ao Estreito de Ormuz, enquanto o regime teocrático islâmico não avalizar um pacto para pôr fim à guerra. "O bloqueio, que não levantaremos até que haja um 'acordo', está destruindo completamente o Irã. Eles estão perdendo US$ 500 milhões (cerca de R$ 2,48 bilhões) por dia, uma cifra insustentável, mesmo no curto prazo", escreveu o líder republicano em sua plataforma Truth Social. O Estreito de Ormuz é responsável pelo escoamento de cerca de 20% do petróleo do mundo.
O presidente americano aproveitou para alfinetar os aiatolás. "A liderança iraniana forçou centenas de navios em direção aos Estados Unidos, principalmente Texas, Louisiana e Alasca, para obter petróleo", escreveu na Truth Social.
Professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Goulart Menezes lembrou ao Correio que, depois do fracasso das primeiras negociações em Islamabad, os Estados Unidos aumentaram o contingente militar na região. "O objetivo de Trump é o de controlar uma das margens do Estreito de Ormuz, embora todos os navios, praticamente, passem pela parte controlada pelo Irã. O que os EUA querem é dominar Ormuz, mas os iranianos não aceitam isso", declarou. "Ao apreender um navio de Teerã, Washington mostra disposição em ocupar parte do Irã com soldados. Isso elevaria muito a tensão no Oriente Médio. Por esse motivo, Trump precisa resolver logo o impasse com o Irã", advertiu.
De acordo com Menezes, os Estados Unidos reconhecem que a imposição de sua força não fará com que o Irã ceda às vontades e aos interesses de Washington. "Desde 28 de fevereiro, os EUA arrasaram com uma parte importante da infraestrutura iraniana e mataram uma parte importante da liderança do regime. O Irã segue em alerta máximo e deseja o fim da guerra, não apenas um cessar-foto, além do reconhecimento da soberania sobre o Estreito de Ormuz", concluiu o professor da UnB.
Líbano e Israel
As delegações de Israel e Líbano se reunirão na quinta-feira, um dia depois do ultimato de Trump ao Irã, para tentar impulsionar um plano de paz. As negociações terão lugar no Departamento de Estado, em Washington, em nível de embaixadores. Para Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute), a guerra cinética entre Israel e o movimento fundamentalista xiita Hezbollah parece longe do fim. "Muito trabalho ainda precisa ser feito para reduzir a capacidade do Hezbollah de obstruir e sabotar o processo", disse ao Correio.
O especialista libanês considera necessário afastar e expurgar elementos do Exército do Líbano leais ao Hezbollah. "A limpeza das fileiras da caserna, mesmo nos escalões mais altos, incluindo o comandante do exército, é um passo necessário para que o governo possa começar a implementar medidas concretas de segurança no terreno. Com a ajuda americana, isso pode ser alcançado", acrescentou Malik. O governo do Líbano informou que os ataques israelenses mataram 2.387 pessoas desde 2 de março.
Netanyahu quer punir ataque a imagem de Jesus Cristo
Arrependimento e dor. Os dois sentimentos foram expressados pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, depois que um soldado do Exército judeu foi fotografando dando marretadas na cabeça da imagem de Jesus Cristo crucificado. A profanação ocorreu em Debel, cidade de maioria católica maronita situada na província de Nabatiye, no sul do Líbano, no último domingo (19/4). "Como Estado judeu, Israel valoriza e mantém os valores judaicos de tolerância e respeito mútuo entre judeus e adoradores de todas as fés. (...) Ontem (domingo), como a esmagadora maioria dos israelenses, fiquei atônito e entristecido ao saber que um soldado das IDF (Forças de Defesa de Israel) danificou um ícone religioso católico no sul do Líbano. Condeno o ato nos termos mais fortes", afirmou o premiê, em rara mensagem. "As autoridades militares estão conduzindo uma investigação criminal sobre o assunto e tomarão medidas disciplinares adequadamente rigorosas contra o infrator", acrescentou.
Em entrevista ao Correio, o padre Fadi Felfeli, da Igreja de São Jorge, em Debel, confirmou a dessacralização. "A cruz do Senhor Jesus e o Homem crucificado foram profanados por um soldado do Exército israelense. O santuário da Cruz de Cristo está localizado em um jardim diante da casa da família Al-Naddaf e fica nos arredores da cidade de Debel", explicou, por meio do WhatsApp. "Anunciamos a nossa rejeição a esse ato." Ao ser perguntado se perdoava o militar judeu, o sacerdote respondeu: "Somos os filhos de Cristo, que perdoamos aqueles que o crucificaram, dizendo: 'Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem'", respondeu. "Portanto, perdoamos e pedimos que o santuário seja restaurado ao seu estado anterior."
Antecedentes
De acordo com o padre Felfeli, este não foi o primeiro registro de profanação de locais sagrados para os maronitas no sul do Líbano. "Duas semanas atrás, eles (israelenses) arrasaram o santuário de Mar Yousef, em Qouzah; invadiram uma igreja na cidade de Deir Mimas; e destruíram um templo dedicado à Virgem Maria. Para mim, são atos que detonam intolerância e extremismo religioso."
Moradora de Debel e católica maronita, Milia Louka, 35 anos, afirmou ao Correio que os fiéis têm o costume de erguer estátuas sacras em frente às suas casas. "Ficamos chocados com o que ocorreu aqui. Não é algo aceitável para nós. Os israelenses também bombardearam 17 locais na nossa cidade. Pessoalmente, defendo a punição do soldado que profanou o Cristo. Mas, como cristã, sei que somente Deus pode julgá-lo", comentou. "Somos humanos e nada temos a ver com essa guerra. Desde o início, dissemos que queríamos a paz, mas somos nós que estamos pagando o preço. Não entendemos por que fomos atacados." (RC)

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