
Quarenta anos depois, as memórias da madrugada de horror daquele 26 de abril de 1986 ainda atormentam ex-funcionários da usina nuclear de Chernobyl, bombeiros e os chamados "liquidadores" — homens convocados para trabalhar na limpeza dos rejeitos radiativos. À 1h23 pelo horário local (20h23 de 25 de abril, no horário de Brasília), uma explosão arrancou o teto de mil toneladas do reator 4, expôs o núcleo e liberou uma nuvem com mais de cem elementos radioativos — o equivalente a 400 vezes a radiação da bomba atômica de Hiroshima. Apenas 36 horas depois, 50 mil moradores de Pripyat, na então União Soviética (hoje Ucrânia), receberam a comunicação de remoção temporária. Depois de serem retirados da hoje cidade-fantasma, situada a 3km do complexo Chernobyl, jamais puderam voltar para suas casas. Pelo menos 500 mil pessoas foram mobilizadas para trabalhar no pós-acidente. A tragédia deixou pelo menos 31 mortos instantaneamente; até 2005, 4 mil morreram por causa da radiação.
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O Correio entrevistou três sobreviventes de Chernobyl, testemunhas oculares do maior desastre nuclear da história. Olexii Breus tinha 27 anos e trabalhava como operador da sala de controle do reator 4. Petro Khmel, à época com a mesma idade, foi um dos bombeiros escalados para apagar o incêndio provocado pela explosão. Oleksandr Bakaiev, então com 27, era o principal engenheiro de controle das turbinas, que faziam parte do sistema de geração de energia da usina. Os depoimentos a seguir estão em primeira pessoa.
A reportagem também conversou com Philip Grossman, um ex-estudante de engenharia nuclear que permaneceu por 180 dias em Chernobyl, onde fez 50 mil fotos e gravou centenas de horas de imagens para um documentário. "Chernobyl não foi simplesmente 'a energia nuclear que deu errado'. Foi engenharia, operações, política e arrogância humana se acumulando como um jogo de Jenga muito caro. O projeto do reator RBMK-1000, a interface de controle, as barras de controle com ponta de grafite, as condições de operação naquela noite e as falhas institucionais em torno delas foram todos estudados em detalhes dolorosos. Isso importa. A engenharia só melhora quando estamos dispostos a dissecar o fracasso honestamente", afirmou. "Minha mensagem é simples. Devemos parar de tratar a energia nuclear como uma história para contar ao redor da fogueira, feita para assustar crianças. Também devemos parar de fingir que ela é imune à estupidez humana. A resposta não é o medo. A resposta é a competência."
Olexii Breus, operador do reator nuclear 4
"Coube a mim apertar o último botão no painel de controle do reator 4 e ser o último a sair. Isso ocorreu na noite daquele 26 de abril, quase 14 horas e meia depois da explosão. Naquela época, eu era um dos operadores da sala de controle principal do quarto reator. Às 7h daquele dia, eu estava indo para o meu turno normal, sem saber sobre nada do que tinha ocorrido na madrugada. Assim que o ônibus se aproximou da usina, ao ver o reator destruído, às 7h20, pela primeira vez na vida senti meus cabelos se arrepiarem. Isso não é metáfora, mas uma sensação física de horror absoluto. Tudo o que estava escondido atrás de paredes de concreto ficou exposto a céu aberto. A parte superior do reator estava visível... Mas não em seu lugar habitual. Isso sugeria que o reator, no mínimo, havia perdido o sistema de resfriamento. Além disso, o sistema de resfriamento de emergência estava em pedaços, espalhado como gravetos sob o prédio.
Parecia que todo o turno da noite havia perecido, e, diante de mim, jazia uma vala comum. 'Por que estamos aqui? O que mais posso fazer?', meus pensamentos se embaralhavam. Mas, como se viu, tínhamos trabalho de sobra. Era preciso fazê-lo para evitar novas explosões e incêndios, para evitar mais vítimas. Essa era a essência das nossas ações após a explosão. Além de nós, os funcionários da usina, ninguém mais poderia ter feito aquilo. Tivemos que ajudar os bombeiros a apagar os incêndios, além de encontrar e resgatar os feridos. Um deles, Valery Khodemchuk, infelizmente nunca foi encontrado. Precisamos atuar na prevenção de novas explosões e no resfriamento do reator. Deixar um reator sem resfriamento, sem água, é o pecado mais grave para um operador.
Trabalhamos em meio ao fogo, à fumaça acre, à água quente e a jatos de vapor escaldante. A destruição e a poeira tornavam impossível respirar. Fragmentos de concreto estavam prestes a desabar sobre nossas cabeças. Além de fios de alta tensão cortados, faiscando sob nossos pés, havia a radiação letal. Ao pisar em pedaços de grafite expelidos do próprio coração do reator, eu me recusava a acreditar. "Isso não pode ser", pulsava na minha cabeça. Às 9h40, comecei a sentir náuseas — um sinal de altas doses de radiação. Depois do turno, verifiquei meu corpo com o contador Geiger. Ao tomar um banho, por mais que eu esfregasse, não conseguia remover a radioatividade. Nem mesmo detergentes especiais surtiram efeito. Os limites foram excedidos na minha coxa direita e na palma da mão direita. No chuveiro, percebi que minha pele sob a roupa estava bronzeada, enquanto meu rosto, pescoço e mãos estavam vermelhos. Isso se chama "bronzeado nuclear". Desapareceu após alguns dias.
Depois de Chernobyl, veio o acidente de Fukushima, no Japão, ocorrido pelos mesmos motivos: um projeto de reator inadequado. Mais precisamente, os japoneses escolheram um projeto que não era apropriado para aquela região. Agora, há a agressão russa na Ucrânia, onde os militares tomaram duas usinas nucleares. Isso não confirma que o nível moral do homem ainda não atende às condições para o uso de alta tecnologia? Então, não seria melhor abandonar as usinas nucleares? Eu acho que sim. Hoje, entendo que a principal causa de Chernobyl não estava nas máquinas, mas no desequilíbrio moral. A humanidade está tentando dominar tecnologias que ainda não superou espiritualmente."
Oleksandr Bakaiev, engenheiro de turbinas
"Eu tinha passado em provas para o cargo de engenheiro de controle de turbinas senior. Em 26 de abril, meu período de reserva para uma nova posição expirou. Eu deveria ter ido trabalhar na madrugada de 26 de abril, porque haveria testes lá e eu deveria participar deles. Mas como os testes principais terminaram na noite de 25, eu não fui trabalhar naquela madrugada. Quando cheguei ao trabalho, o reator tinha explodido. Passei pelos blocos de grafite, ao me dirigir para o meu posto, no painel de controle do reator 4. Como havia um vazamento de água no teto do corredor, decidi ir à sala de controle do reator 3 antes. Ao chegar ao bloco 4, fui à sala de turbinas para tentar injetar água e resfriar o reator, que não existia mais. Tudo estava inundado e tive que caminhar pela água.
Durante meu turno, senti dor de cabeça e vomitei. Naquele dia, não fui ao centro médico, porque muitas pessoas tinham sido levadas para lá e, como não havia ninguém para me substituir, decidi trabalhar. Na manhã seguinte, o supervisor de plantão viu minha condição física e me mandou para casa. Era 27 de abril. No meio do dia, houve um anúncio de que a cidade de Pripyat seria esvaziada. Eu não sabia o que teria que fazer exatamente: fugir ou ir trabalhar. Tentei telefonar para meu gerente, mas as linhas estavam ocupadas. Encontrei meus colegas. Eles me disseram que todos aqueles obrigados a ficar para o funcionamento contínuo de Chernobyl tinham sido notificados e que os demais podiam ir embora.
Levei minha família para a região de Mykolaiv e voltei. Em seguida, após um exame médico, fui levado às pressas para o aeroporto de Boryspil. De lá, acabei transferido para o sexto hospital clínico de Moscou. Diagnosticaram-me com síndrome aguda da radiação. A conclusão é de que o projeto imperfeito do reator foi o principal culpado. A explosão ocorreu quando o sistema de proteção de emergência do reator foi ativado. As propriedades físicas do reator eram tais que, em vez de pará-lo, produziram um aumento instantâneo de potência. Os reatores atuais são muito melhores, e a ocorrência de um acidente como o de Chernobyl é considerada impossível. Continuo a crer que a energia nuclear é, atualmente, uma das melhores formas de energia e, apesar de tudo, uma das mais seguras e amigas do ambiente."
Petro Khmel, bombeiro
"Na madrugada daquele 26 de abril, fomos a Chernobyl como se fôssemos combater um incêndio comum. Ninguém nos disse sobre a radiação. De manhã, eles nos colocaram em um ônibus e nos levaram ao aeroporto Boryspil. De lá, seguimos de avião até Moscou, onde demos entrada na Clínica nº 6. Fomos tratados ali. Eu me posicionei perto do bloco 4 e tentei debelar as chamas. Ao me aproximar do fogo, vi uma nuvem de fumaça escura e como se fosse uma vela queimando. Não era um incêndio comum. Hoje, tenho a saúde razoável e sigo trabalhando. Tenho 67 anos e moro em Kiev, capital da Ucrânia. Acho que o mundo aprendeu mais com o desastre de Chernobyl. Nós precisamos estudar mais sobre o que é um átomo. Essa deve ser a química da ciência. Sofri efeitos da radiação. Tive fraqueza e alterações nos exames de sangue. Consegui conviver com medo. Sobrevivi."
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