CONFLITO NO ORIENTE MÉDIO

Guerra no Irã chega ao 3º mês sem batalhas, mas sem acordo de paz duradoura

Estados Unidos e Irã entram no segundo mês de conflito agarrados a um cessar-fogo que apenas congela o conflito. Na frente diplomática, o horizonte aponta apenas para a reabertura do Estreito de Ormuz

Estados Unidos e Irã entram no terceiro mês da guerra iniciada no último dia de fevereiro por Washington, em parceria com Israel, sob a vigência indeterminada de um cessar-fogo que parece servir mais à recapacitação das partes para uma nova rodada do que para o avanço rumo a um acordo de paz abrangente e definitivo. Após três semanas de suspensão nos ataques diretos, as duas partes relutam em retomar negociações cara a cara para um acordo de paz definitivo, e mantêm o bloqueio recíproco no estratégico Estreito de Ormuz — que pressiona o mercado internacional de petróleo e ameaça o resto do mundo com a escassez de combustíveis.

Com as cotações do petróleo novamente em alta, oscilando acima do patamar de US$ 100 o barril, os governos de Washington e Teerã seguiam nesta terça-feira (28/4) trocando acusações pelo impasse e sinalizando disposição para retomar os combates — ainda que nenhuma das partes mostre disposição para dar o primeiro disparo. Frustrada a tentativa do Paquistão de promover nova rodada de conversações a três, no último fim de semana, o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, visitou duas vezes a capital paquistanesa, Islamabad, foi ao vizinho Omã e reuniu-se em Moscou com o colega russo, Sergei Lavrov, e o presidente Vladimir Putin.

O périplo diplomático resultou em uma nova proposta de paz, encaminhada a Washington na segunda-feira. Embora mantida em sigilo, ela prevê, segundo fontes, um cessar-fogo permanente e o levantamento recíproco dos bloqueios navais no Estreito de Ormuz — o que atende às demandas de ambas as partes e do resto do mundo, que depende do petróleo exportado pela estratégica via marítima a partir do Golfo Pérsico. Recebida de início com boa vontade pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a proposta parecia ontem ter se chocado com a rejeição do presidente Donald Trump.

"A última proposta do Irã abriu caminho para um cessar-fogo permanente, não um acordo de paz", disse ao Correio o professor de relações internacionais Gunther Rudzit, da ESPM. Ele lembra que um acordo de paz depende de uma solução definitiva para o conflito. "Como o presidente Trump não definiu bem o objetivo da guerra, fica difícil entender um acordo definitivo", observa. Ele destaca como ingrediente fundamental o destino do programa nuclear da República Islâmica: os EUA se firmam na posição de que o país não pode ter no horizonte a possibilidade de obter armas atômicas; a proposta de Teerã prevê que as discussões sobre o tema sejam congeladas.

"Os dois lados estão se recompondo para uma nova rodada de combates", analisa o professor da ESPM. Nesse quadro, a pausa de três semanas serve não apenas ao rearmamento e reequipamento das forças, mas também a iniciativas que tendem a criar fatos consumados que sirvam como peso próprio em futuras negociações. No caso do Irã, uma delas é a tramitação de um projeto de lei que coloca Ormuz sob a autoridade das Forças Armadas, determina o pagamento de um pedágio pelos navios, a ser paga em riais iranianos, e veta a passagem de navios israelenses.

"Não podemos tolerar que os iranianos tentem instaurar um sistema no qual eles decidam quem pode utilizar uma via marítima internacional e quanto é preciso pagar para usá-la", respondeu o secretário de Estado Marco Rubio. O chefe da diplomacia dos EUA reiterou a exigência quanto ao programa nuclear. "Qualquer acordo, qualquer entendimento que seja alcançado, deve impedir, definitivamente, que (o Irã) busque uma arma nuclear".

Cartas na manga

Em uma avaliação do conflito, a consultoria americana Doufan aposta que o Irã "acredita que o aumento dos preços do petróleo e a escassez iminente de derivados" poderão pressionar Trump a aceitar uma solução "diferente da capitulação incondicional" que estava em seus planos, ao iniciar a guerra. "Os EUA já não estão na posição de ditar sua política", afirmou à tevê estatal iraniana o porta-voz do Ministério da Defesa, Reza Talaei-Nik. "Chegou a hora de abandonarem suas exigências ilegais e irracionais."

"O governo Trump não pode, do ponto de vista político, voltar a uma guerra que é extremamente impopular entre os próprios eleitores da base Maga", pondera Gunther Rudzit, da ESPM. "O regime iraniano percebeu isso perfeitamente bem e está usando muito bem essa cartada." O porta-voz do Exército iraniano, Amir Akramania, usou linguagem semelhante para analisar a situação, em entrevista à tevê estatal. "Temos muitas cartas que ainda não jogamos", sugeriu. "As Forças Armadas e o povo iraniano podem continuar com essa guerra no longo prazo."

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O Irã não está pressionado. O regime iraniano está com a vantagem estratégica nesse conflito, entendeu muito bem que tinha de transformar uma guerra militar em uma guerra econômica, que foi o que aconteceu, e isso afetou o centro de gravidade do governo americano. Muito pelo contrário, o regime (de Teerã) vai tentar explorar ao máximo essa vantagem, mesmo que que isso custe o bem-estar da população. O regime iraniano não está pressionado, neste momento, ao contrário: está pressionando o governo americano.

Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM

Recusa às armas

Judeus religiosos protestam em Bnei Brak, subúrbio de Tel Aviv, contra medidas da Justiça para pressionar pela convocação universal para o Exército. "Israel, país antissemita", diz o cartaz exibido pelos manifestantes. Em meio às pressões exercidas sobre o contingente pela conjunção das operações militares contra o Irã, em parceria com os Estados Unidos, e contra a milícia xiita pró-iraniana Hezbollah, no Líbano, a Suprema Corte de Israel determinou a suspensão de benefícios financeiros para os ultra-ortodoxos que se recusam a prestar o serviço militar, obrigatório no país para homens e mulheres. A atuação em duas frentes obriga o Exército a estender e ampliar a convocação de reservistas, e uma parcela da sociedade questiona a isenção aos que estudam em escolas rabínicas, vigente desde a fundação de Israel, em 1948.